de perdas e ganhos



Dia 15 de agosto perdi meu pai, certamente, a maior perda da minha vida até aqui. Sadalla me ensinou valores e deixou heranças inesquecíveis. Quem eu sou, de onde venho e por que venho. A existência ganhou maior dimensão. A tristeza traz consigo inúmeros aprendizados. Fiquei mais triste e um pouco melhor. Contradições humanas.


Neste mesmo ano, vários pais de amigos partiram como o meu. Hoje foi a vez de dona Maria Abrão, mulher forte e de personalidade marcante. Como meu pai, cumpriu com êxito sua missão. Foi dona Maria que me inspirou a transformar as entrevistas da coluna Minha História (107 entrevistados, entre 2008 e 2011) num texto escrito na primeira pessoa do singular. As reportagens ficaram muito mais pessoais e tocantes de se ler. Obrigada, dona Maria! Meu desejo é que acorde sem dor, num lugar onde predomine a leveza, e volte a passear de mãos dadas com seu amado Latif.


As lágrimas ainda escorrem pelo meu rosto quando visualizo a imagem do meu pai a me olhar. Por onde ele andará, não sei. Ele não acreditava em vida após a morte. A piteira, sua marca registrada, ficou esquecida numa gaveta, junto com outras lembranças que sua memória foi apagando aos poucos. Primeiro foi a cuíca, depois o trabalho. O último cigarro ele nem chegou a acender. Partiu silenciosamente, como um passarinho. Para onde vão nossos silêncios quando deixamos de dizer o que sentimos? (filosofia de guardanapo – Eu Me Chamo Antônio).


Para recordar e festejar a vida:


Uma lutadora pela Educação



Maria Tauil Abrão nasceu dia 28.02.35, em Guaxupé, filha de Elias José Tauil e Salima Gabriel Ferreira. O pai, comerciante, foi morto quando Maria tinha apenas um ano e oito meses. Ele e os avós maternos eram imigrantes libaneses. “Minha mãe estava grávida da 7ª filha, Dalila, que não conheceu nosso pai”, relata. Salima enfrentou dificuldades para criar os filhos. Quando ficou viúva, a primogênita, Suréia, tinha apenas doze anos: “Ela foi nossa 2ª mãe, lutou muito ajudando a cuidar de todos nós.”




Lembra-se com nitidez do dia em que seu irmão João a levou para fazer matrícula no Barão. Olga Mancini era a vice-diretora e Iolanda Conti Bertoni, diretora: “Meu irmão pediu para elas me colocarem na caixa (escolar). Comecei a chorar dizendo que queria entrar no grupo, não numa caixa.”


No 1º ano, foi alfabetizada pela professora Geralda Faria Bonadio por meio da cartilha analítica. Na sala ao lado, Nilva Gurgel Pinto utilizava o método global de alfabetização “Lili toca piano”. Maria considerava as aulas da professora Nilva um espetáculo, pedia para ir ao banheiro, como desculpa, mas ficava atrás da porta da sala vizinha vendo o desenrolar do método. Já no 3º e 4º anos, admirava tanto a professora Lila Lepiane Meireles que imitava a caligrafia dela. “Meu M é igualzinho. Ela ensinava tão bem que me lembro das suas lições sobre a Guerra do Paraguai até hoje”, conta.


Estudou no Colégio da Imaculada Conceição com bolsa de estudos concedida por seu Zizinho (Sebastião de Sá), inspetor de ensino: “Suréia e minha mãe conseguiram a bolsa. Com muito sacrifício e trabalho me ajudaram a completar os estudos.” Em 1953, Maria recebeu diploma de normalista.


Em 1954 começou a lecionar na Fazenda Macena, na época, propriedade de Vicente Frota. Pegava ônibus até a Fazenda Jacuba e percorria o resto do caminho a cavalo. Dormia na casa do administrador da fazenda, voltando para casa somente nos finais de semana.

Ano seguinte foi transferida para a Fazenda Bocaina, de Isaac Ferreira Leite: “Pra mim foi muito bom porque fazia o percurso final de charrete, melhorou bastante.” Waldomiro Cecílio, marido de Dondica e administrador da propriedade, a hospedava durante a semana: “Eles tinham um filho especial que gostava muito de mim. Um dia, esse rapaz roubou a charrete para me buscar. Ao descer do ônibus, como não vi o charreteiro, achei que havia algo errado. Nessa hora, seu Waldomiro e o verdadeiro condutor chegaram ofegantes, montados num mesmo cavalo, e me contaram o acontecido.”


Ainda em 55, conheceu Latif Abrão, futuro marido: “Ele sempre me visitava na fazenda. Antes de me encontrar passava para cumprimentar Dr. Isaac.” Casaram-se em 29.07.56: “Fiquei sabendo que Latif era 14 anos mais velho que eu uma semana antes do nosso casamento, ele escondeu a idade de mim.” Os casais Isaac e Vevinha e Waldomiro e Dondica foram os padrinhos. Em 57, nasceu o 1º filho do casal, Abílio Wagner; depois vieram Antônio Carlos, Luiz Fernando e Gláucia Maria. Nos primeiros anos de casada deixou o magistério.


Em 1960 prestou concurso para professora primária. Em 61 foi nomeada para o 4º grupo escolar do município, Dona Queridinha Bias Fortes, assim chamado em homenagem à esposa do governador de Minas, José Francisco Bias Fortes (1956-1961). Lila Lepiane foi nomeada diretora da nova escola: “Procuramos as outras diretoras e pedimos alunos para que pudéssemos tomar posse do cargo. No 1º dia de aula, dona Lila fez reunião com todas nós. Fiquei encantada por ser colega de profissão da minha professora querida.”

Por muitos anos deu aula na 1ª e na 3ª série. Depois, foi convidada pela diretora para trabalhar na secretaria, como auxiliar de escrita. Era preciso habilitação para esse cargo, então Maria prestou exame profissional em BH, retornando da capital mineira com diploma de secretária de escola.



Mais um degrau na profissão


Em 1970 iniciou o curso de Pedagogia na FAFIG (atual UNIFEG), recebendo, em 73, diploma de licenciatura plena em Administração Escolar. Em seguida, cursou Orientação Educacional, Supervisão e Inspeção Escolar. Depois de formada, deu aulas no Colégio Estadual (ginásio) como professora substituta de Filosofia, Didática e Educação Artística.


A Escola Estadual Dr. André Luiz Cortez Graneiro - Polivalente passou a funcionar em fevereiro de 75. Em 76, Maria foi indicada pelo prefeito Dr. Antônio Costa Monteiro Filho e pelo inspetor de ensino, Sebastião de Sá, para fazer o curso de Administração Escolar, junto com outras educadoras selecionadas para outros cargos, como Marina Bacci e Any Vieira. Os cursos eram realizados na Fazenda Ibirité, em Viçosa, MG.


Um fato curioso aconteceu: “Suréia havia sonhado que Santuca faria o curso de administração. Falei pra ela, sonho não é realidade. Nossos documentos já estavam em Ibirité.” Maria e suas colegas viajaram no fim de semana. No domingo, Terezinha Ribeiro chegou dizendo que também faria o curso. “Quando voltamos, ela foi a diretora nomeada para o Polivalente. Olha a coincidência: minha irmã sonhou com Santuca, prima da Terezinha”, informa.


No início dos anos 80 saiu do Queridinha designada para atuar como supervisora educacional nas escolas Professor José de Sá e Major Luiz Zerbini: “Adquiri muita experiência que até hoje é válida na minha vida profissional.” Ficou nesse cargo até a aposentadoria, em 1988.


Ficou afastada da profissão apenas dois anos. Maria Dulce Leite Ribeiro, presidente da APAE, a convidou para dirigir a instituição. “Ela conhecia meu trabalho e achou que eu poderia ajudar a reorganizar a escola. Relutei em aceitar, pois não tinha experiência com alunos especiais, mas decidi enfrentar o desafio. Junto com ela, formamos uma equipe de trabalho capacitada”, afirma.


Durante 10 anos Maria procurou fazer o melhor trabalho possível pela APAE. Em 1999 assumiu cargo na Delegacia Regional das APAES – SUL I: “Como delegada pude conhecer o trabalho de outras APAEs. O que via de bom aconselhava minha equipe a implantar em Guaxupé. Minha preocupação maior eram os alunos.”


Como diretora e delegada representou a APAE em diversos encontros, cursos e congressos, viajou para várias cidades, como Santa Catarina, Salvador, Fortaleza, São Paulo e até Santiago do Chile. “Com Maria Dulce e, posteriormente, Lúcia Ribeiro Vairo, duas mulheres fora do comum, adequamos a infraestrutura da APAE, construímos um prédio anexo, refeitório, piscina, equipamos todas as repartições, instalamos oficinas pedagógicas, ganhamos gabinete dentário, Kombi da Pró-vida, Van do MEC e um ônibus da filha da Lúcia”, relata. Nessa época fez curso de pós-graduação em Educação Especial, melhorando o trabalho pedagógico da escola.


Em 2000, a presidência da APAE passou para as mãos do psiquiatra José Roberto de Faria: “Ele aceitou convite feito por mim e por Jacques Orlando Vairo, então presidente. Dia 17.01.2001, durante minhas férias, fui convocada para uma reunião onde fui informada que seria desligada do cargo. Foi um choque, tínhamos planos de construir uma ‘casa-lar’ para abrigar portadores de necessidades especiais após a morte de seus parentes. Este projeto estava nas mãos do Sr. Olavo Barbosa que iria doar um terreno para esta finalidade. Com minha dispensa, o projeto foi interrompido."


Mas pouco tempo depois, surgiu um novo convite. Em novembro de 2001, Margareth Ribeiro, professora e secretária da Escola Galeno de Enfermagem, procurou Maria, em nome do mantenedor da instituição, Edson Carlos de Gênova: “Me chamou para dirigir a escola, sabendo do meu trabalho na APAE. Novamente, relutei em aceitar, mas decidi enfrentar o novo desafio.”


Maria assumiu a direção e reestruturou a escola, regularizando pendências e organizando a vida escolar dos alunos. “Consegui autorização para implantar o curso de Técnico em Enfermagem e em Farmácia. Aguardo autorização da Secretaria da Educação para oferecer Técnico em Segurança do Trabalho, em Radiologia e Diagnóstico por Imagem”, relata.

Em 2006 a Galeno recebeu o prêmio Top of Mind Brasil de Consagração Pública na categoria Educação Profissional de Nível Técnico: “Comecei com uma sala de aula e hoje temos quatro, com 138 alunos.”


Maria sempre conciliou a vida familiar com a profissional: “Meu marido me apoiou incondicionalmente em tudo, pois sabia que eu gostava do que fazia. Estamos casados há 52 anos, hoje nossa realização é ver o sucesso dos nossos 12 netos.”


Uma vida de trabalho e samba



“Muita gente conhece a loja de produtos para calçados situada na João Pessoa e seu proprietário, um senhor que gosta de jogar conversa fora enquanto fuma cigarros na piteira. Mas pouca gente sabe que naquele local, há quase 60 anos, funcionou a primeira fábrica de calçados mecanizada da região, fundada em 1936.”



Sadalla Saad nasceu em Guaranésia, em setembro de 1927, o terceiro dos 6 filhos do casal de libaneses Ibrahim e Maria Saad, que imigraram para o Brasil em 1925, com duas filhas, Lídia e Genoveva. “Meu pai decidiu se mudar porque fazia sapatos sob encomenda, em Baino Ahcar. Com a invasão da Armênia pela Turquia, muitos armênios migraram para o Líbano, aumentando a concorrência, diminuindo o lucro. Ele quis tentar a sorte no Brasil, onde já morava a irmã dele, Júlia.”


Viveram durante um ano em Nova Resende. Mas foi em Guaranésia que Ibrahim Saad abriu uma sapataria e um pequeno empório. Aos 6 anos, Sadalla se recorda do pai na política, junto com outros árabes, aliados dos “pelados” contra os “peludos”, os dois blocos políticos da cidade. “Com a vitória dos peludos, meu pai sofreu perseguições e decidiu mudar com a família para Guaxupé”, relata. Em 1935, fixaram residência em uma casa alugada na esquina da Rua João Pessoa, onde atualmente funcionam uma loja de calçados, um prédio residencial e uma farmácia.


Ibrahim recomeçou os mesmos negócios. Aos 8 anos, Sadalla começou a ajudá-lo e não parou mais: “Voltava correndo do grupo Barão de Guaxupé para trabalhar.” Em 1936, o pai decidiu vender o empório. Com o dinheiro, viajou para São Paulo e comprou máquinas para fabricar calçados. “Foi a primeira indústria de calçados mecanizada do sul de Minas”, afirma Sadalla.

Na inauguração do novo maquinário, Carluta, líder político da época, falou que a fábrica merecia um prêmio pela inovação. Conversou com o prefeito Antônio Costa Monteiro e a empresa ganhou isenção de impostos por cinco anos.Inicia lmente, um especialista de São Paulo operava as máquinas, mas como o investimento era alto, Sadalla aprendeu o ofício e, aos 10 anos, ocupou o lugar do paulista: “Eu operava a ponteadeira e cortava solas no balancim.


Estudou no ginásio até 1943. “Vi a antiga catedral ser demolida. As paredes eram de pau a pique. Eu e meus amigos assistimos uma parede lateral ser tombada de uma só vez.”

No ano seguinte entrou para o Tiro de Guerra, passando a estudar à noite na Academia de Comércio São José. Durante a 2ª guerra, os soldados da cidade foram servir a FEB (Força Expedicionária Brasileira). Os 79 atiradores do TG passaram a zelar pela segurança: “A gente andava com o fuzil nas costas, vigiando desde a cadeia até a zona" (área de meretrício).


Nesse mesmo ano, Jaime Jerônimo fundou o banco de sangue da Santa Casa. Sadalla foi um dos primeiros doadores, contribuindo durante 40 anos. Tata, motorista de praça, era um desafeto conhecido: “Ele me chamava de turquinho metido. Um dia, a mulher dele adoeceu e precisou de transfusão de sangue com urgência. Ele me procurou e eu doei sangue a ela. Nunca mais me xingou.”


Formou-se Técnico em Contabilidade em 46. Nessa época, Sadalla sonhava fazer faculdade de Engenharia: “Não quis estudar fora e deixar meus pais.” Decidiu somente trabalhar. Em 1947, a fábrica de calçados entrou em concordata, pois o movimento havia caído e estavam com dificuldades para pagar as contas. Junto com o pai e o irmão mais velho, Chafi, liquidaram todo o estoque e iniciaram a sociedade Saad e Filhos: “Não era permitido a menores de 21 ter empresa. Precisamos pedir emancipação na justiça."


Em 49, Jacob Sabbag pediu a casa onde moravam porque iria construir o prédio. Como os negócios haviam prosperado, os três sócios compraram uma casa na mesma rua, no número 43, com um terreno anexo, onde construíram um armazém para ser a nova sede dos Calçados Saad: “Nessa época a fábrica cresceu, chegamos a ter 30 funcionários.” Chafi tomava conta da parte comercial, Sadalla era modelista e cuidava da produção e o pai ficava na loja de varejo, situada na frente da fábrica. Aos 17 anos, o irmão caçula juntou-se ao time: “Ensinei Umar a trabalhar na frisadeira.”


Sadalla se atualizava profissionalmente todos os anos, nas exposições calçadistas de Franca. Os Calçados Saad eram vendidos para diversas regiões de Minas e São Paulo. Chegaram a produzir 150 pares diários, montados manualmente, com tachinha: “A gente vendia tudo, não sobrava nada, nossa mercadoria era boa.”


Ensinou seu ofício para muita gente, como Hélio Silva. “Ele montou uma fábrica de sapatão econômico, com um modelo que projetei para ele. Um metro de couro fazia 7 pares, quando normalmente tiravam apenas 5. Ele prosperou muito, chegou a produzir dois mil pares ao dia.”


Cerca de cinqüenta anos atrás, Sadalla dava manutenção gratuita nas máquinas de costura da Cooxupé. “Por conta disso, nunca faltou café na nossa casa, eles me mandavam sacos de grãos, que eu distribuía pra toda família.” No fim da década de 70, foi convidado para gerenciar uma indústria calçadista de Campinas, mas novamente, se recusou a deixar Guaxupé.


Na 2ª expoagro, em 1958, várias empresas locais foram convidadas a expor seus produtos. A Saad e Filhos ganhou o grande prêmio como indústria calçadista.

Em 1960, a sociedade foi legalmente desfeita e todas as mercadorias vendidas. Começou uma nova etapa: “Continuei a fabricar os Calçados Saad até 71, quando encerrei a produção, passando a comercializar somente produtos para calçadistas.”


Foram poucas férias e mordomias. Na despedida de solteiro de Vicente Nasser, tirou descanso forçado por um mês. No sítio onde aconteceu a festa, Celso Vieira (Jumentinho), numa brincadeira de mau-gosto, passou uma rasteira em Sadalla, quebrando o braço direito dele: “Jorge Correia estava construindo ou reformando uma casa na Rua Barão de Guaxupé e fiquei tomando conta da obra. Dentro de mim falou mais forte o engenheiro, um sonho antigo.”



Bicanca de muitos carnavais



Não havia carnaval de rua em Guaxupé, apenas dois cordões carnavalescos, o Pio Damião e a turma do Jacob Sabbag. Em 1947, Sadalla reuniu cerca de trinta amigos na sua casa, na João Pessoa, de onde saíram batucando pela rua. “A gente não saiu um atrás do outro como eles faziam, formamos fileiras iguais aos blocos e escolas de samba atuais.” Como o grupo não tinha nome, Tufi Doce pegou um pedaço de papelão de uma caixa dos Calçados Saad e, com um pau, improvisou um porta-estandarte.


No 2º ano, como a maioria dos foliões eram árabes e armênios, batizaram o bloco de Os Bicancas (nariz grande): “Não tenho certeza se o nome foi sugerido pelo meu cunhado Kaled (Cury).” Desta vez, Tufi Doce empunhou um estandarte oficial. Com o passar dos anos, o número de integrantes foi aumentando, juntando-se a eles o cordão dos Sabbag: “Todo mundo era amigo. O Chafi Sabbag namorava minha irmã Lídia.” Quando Sadalla casou-se com Lorice Cury, em 1951, passou a direção do bloco para o irmão Umar: “Ele também era bom de batuque, tocava surdo.” Em 1952, a cunhada Nádia Cury e Jorge Abrão (Jorjão) tornaram-se porta-bandeira e mestre-sala. Em 53, Sadalla retomou seu posto na bateria: “Ensinei várias pessoas a tocarem cuíca, como Tião ‘marcha a ré’, companheiro de muitos carnavais.”


“Um dia, Walmor Russo me chamou na prefeitura e ofereceu uma verba de 2.700 cruzeiros para Os Bicancas desfilarem. Entregaria o dinheiro depois do carnaval. Disse a ele que podia contar com a gente. Mas resolvemos desfilar em outras cidades para juntar mais dinheiro. Nadim Abrão, irmão do Jorjão, era amigo do prefeito de Poços de Caldas. Fomos convidados para desfilar lá uns dez dias antes do carnaval. Desfilamos duas noites, ganhando 12 mil. No último desfile, um pessoal enciumado com o sucesso do bloco, começou a pisar nas saias das moças. Os caras pisavam nos arcos pesados das fantasias e elas caiam no chão. Aí, deu briga”, relembra.


Depois foram para São João da Boa Vista, onde fizeram um desfile de rua e um baile pré-carnavalesco. Em Tapiratiba, um dos integrantes do bloco quase foi preso, ao ser flagrado cheirando lança-perfume: “Paramos o baile e fui conversar com o guarda, para tentar resolver a situação ali mesmo. O policial ficou irredutível. Aí falei pra ele que teria que prender todos nós. Só tinha dois policiais e o delegado. Juntou todo mundo em volta do Wilsinho, eles desistiram da prisão. Voltamos todos para o baile.”


Os Bicancas participou do carnaval guaxupeano até 1981. “Só interrompemos por motivo de luto, primeiro da minha irmã Lídia, depois do Kaled, grande radialista dos nossos carnavais, que vibrava em frente ao coreto aguardando a chegada da nossa escola. O povo reconhecia nosso esforço, prova que até hoje, mesmo os mais jovens falam com respeito e admiração de Os Bicancas.” É uma página que ficou na história.

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