domingo eu quero ver o domingo passar

São várias manifestações de apoio à luta pela preservação dos paralelepípedos da cidade. Em breve, por meio da Associação AC Viralatas do Samba, estaremos colhendo assinaturas para solicitar ao Conselho Municipal do Patrimônio Histórico o tombamento das ruas de paralelepípedos de Guaxupé. Sua participação é fundamental para essa conquista.

Ainda, quanto à alteração da fachada do jardim em frente ao antigo prédio do Fórum, que um leitor, poeticamente, chamou de Palácio da Justiça, creio que o bom senso prevalecerá. Ainda não conversei sobre este tema com ninguém da administração pública, mas o advogado João Marcos Alencar C. Monteiro, leitor deste blog, afirmou que o Ministério Público não permitirá qualquer ação que descaracterize um bem tombado. Outro amigo afirmou que apenas o prédio é tombado, não cabendo a mesma lei para o jardim, mas acho essa ideia absurda. Outra pessoa questionou sobre a reforma da ex-cadeia e futura delegacia, pois há várias exigências legais em relação a esse tipo de obra (quando se trata de patrimônio histórico). É preciso pesquisar e fazer valer a Lei.

Este final de semana, os integrantes do Núcleo 14 Bis de Audiovisual participaram de um novo encontro com Diego Doimo para uma oficina de edição dos filmes. Entre uma conversa e outra, soube que Laiz Araújo, uma colega do grupo, escreve o blog Fútil&Fútil ( www.futilefutil.blogspot.com ) Conferi e curti muito os textos dela, interessantes e gostosos de ler. Aproveito para reindicar outros blogs de nucleiros que conheço:

http://sonhosdeorieta.blogspot.com/
http://blogsinoptico.wordpress.com/
http://valecadac.blogspot.com/


MINHA HISTÓRIA
José Geraldo Rodrigues de Oliveira, o agrônomo que poderia ter sido jornalista.


A honestidade é uma obrigação

José Geraldo Rodrigues de Oliveira nasceu em Bragança Paulista, em 27.10.40, um dos três filhos de Milburges Rodrigues de Oliveira e Jandira Machado de Oliveira. Antes dele, veio Alba, depois, Ligia. Há quarenta e quatro anos em Guaxupé, José Geraldo ficou conhecido por seu trabalho na Cooxupé, inicialmente, como o primeiro engenheiro agrônomo da empresa e, depois, fundador da Folha Rural. Sua veia para o jornalismo despontou com o jornalzinho dos tempos de faculdade, em Piracicaba, culminando na elaboração dos textos de um sofisticado livro sobre a cafeicultura no sul de Minas, publicado pela cooperativa. Em suas relações pessoais, José Geraldo preza muito a lealdade e acredita que a honestidade não seja uma virtude, mas, sim, obrigação.

“Meu pai era bancário do Banco Comercial do Estado de São Paulo. Às vezes, ele passava noites em claro procurando diferenças de caixa. Minha mãe era farmacêutica formada, coisa rara, na época. Ela morava em Avaré e estudou em Itapetininga. Ela nunca teve negócio próprio, mas era responsável por uma farmácia.
No meu aniversário de seis anos, meu pai me mandou ao barbeiro, sozinho. Disse para eu cortar o cabelo bem curto. Falei para o barbeiro: Meu pai pediu para cortar tudo. E ele me deixou carequinha. Meus pais levaram o maior susto.
Aos sete anos, meu pai me levava para andar de bicicleta na praça. Tinha um senhor que alugava, eram todas pretas, da marca Philips ou Hércules. Poucas crianças tinham bicicleta, era um brinquedo caro.
Jogava futebol, com bola de capotão, num terreno próximo a minha casa. Como era muito ruim de bola, meus companheiros só me deixavam jogar de goleiro ou ponta esquerda. Também, brincava de birosca com bolinhas de gude.
Eu morava numa rua muito estreita. Em frente a minha casa, morava uma senhora muito implicante, chamada Lázara. Ela não gostava que a gente jogasse futebol na rua. Um dia, ela furou nossa bola. Peguei um pedaço de carvão e escrevi na parede da casa dela: Lázara lazareta, sem o ‘n’. Todos souberam que era eu, meus pais se desculparam em meu nome e lavaram a parede.
Aos sete anos, entrei no Grupo Escolar Jorge Tibiriçá, no centro da cidade. Guardo na lembrança a hora do recreio. Eles serviam sopa da Caixa Escolar, alguns alunos pagavam, outros recebiam de graça. Eu não gostava de sopa, levava de lanche pão recheado com goiabada ou com banana. Fiz até o 3º primário nessa escola.
No 4º ano, meus pais me mandaram morar com tio Jordão, em Campinas. Estudei um ano no Grupo Professora Castorina Ribeiro. Ia à escola de manhã, e, duas vezes por semana, à tarde, tinha aulas com Silvio Teixeira, um famoso professor que fazia correção da voz. Embora ele fizesse até mudo falar, comigo não adiantou, mas a culpa foi minha. Ele pedia para eu fazer exercícios em casa e eu não fazia.
Quando meu pai foi promovido à gerente, nos mudamos para Paraguaçu Paulista, onde fiz o 5º ano de admissão e, em 1953, entrei no ginásio estadual. Tio Nestor, um homem muito rigoroso, era inspetor de alunos. Não deixava assistir às aulas quem não estivesse totalmente uniformizado. Meu primo, Zé Carlos, muito levado, e eu, guardávamos a gravata do uniforme no bolso para provocar nosso tio, que ficava muito bravo.
Noventa por cento da minha classe repetiu a 8ª série por causa da professora de Inglês, dona Ivany. Desde o primeiro dia de aula, ela não falou uma palavra em Português. Não tinha como acompanhar as aulas dela, somente dois alunos passaram de ano. Eu repeti não só pelo Inglês, mas, também, pelo Francês. O professor me pegou colando, tirei zero. Nunca soube colar, abri o livro debaixo da carteira. Meus pais foram chamados na escola, foi o maior vexame.
Naquele tempo, havia a matéria Trabalhos Manuais. Eu detestava fazer artesanato. Também tinha aulas de Canto Orfeônico. O professor me convidou para participar do coral e aceitei, mas durou pouco. Acho que o professor não era bom. Frei Joaquim dava aulas de religião. Uma vez, meu primo Zé Carlos foi suspenso porque pediu para o barbeiro fazer na cabeça dele uma coroinha igual a do nosso professor.

O primeiro jornal
Em Paraguaçu, não tinha o curso científico, então, fui estudar em Assis, a 30 km. Morei dois anos numa pensão. No último ano, estudei no Colégio Piracicabano, em Piracicaba. Durante seis meses, junto com o colégio, fiz cursinho para o vestibular. Entrei no curso de Agronomia, na ESALQ, em 1962.
Nessa época, eu namorava Dilma Martins havia dois anos. A gente já se conhecia desde a 8ª série, estudamos na mesma classe e repetimos o ano juntos. Mas só começamos a namorar quando eu estava no científico. Nosso namoro era mais por correspondência. Durante a faculdade, ia a Paraguaçu duas vezes ao ano. A viagem durava dez horas, uma parte do trajeto era de ônibus, outra, de trem.
No meu primeiro semestre em Piracicaba, morei numa pensão muito ruim. A dona tinha filhos pequenos. Um dia, meu colega e eu acordamos mais cedo, ela estava lavando os pés das crianças na mesma bacia que servia a salada do almoço. Mudamos de pensão na hora.
No ano seguinte, fui morar na recém construída casa do estudante, no campus da faculdade. Os quartos eram individuais, muito bons. Morei nesse local os cinco anos de curso. Nos primeiros meses, meu pai enviava dinheiro para minhas despesas pessoais. Mas logo dispensei essa ajuda.
A faculdade tinha um jornalzinho vagabundo, que estava desativado, chamado P.O.J. (Pugnador, Objetivo e Justiceiro). Meu colega Borracha e eu reativamos esse jornal, mas sem periodicidade determinada, a gente só publicava quando precisava de dinheiro. Eu escrevia mal e o Borracha desenhava pior, ainda. Tudo que ele desenhava tinha um cachorro mijando. Era só besteira, nada importante.
A gente rodava o jornal, à noite, no mimeógrafo a álcool do centro acadêmico. Não tínhamos despesas e, ainda, vendíamos cada exemplar a um real. Também vendíamos propagandas nos rodapés das páginas. Vivi os cinco anos à custa desse jornalzinho.
Também escrevia crônicas para uma coluna do Jornal de Piracicaba. Com a Revolução de 64, por causa da censura, resolvi parar de escrever. Nessa época, meu pai era gerente em Campinas. No dia seguinte ao início da revolução, meu pai foi até Piracicaba, pegou todas as revistas, jornais e livros que eu guardava no quarto, levou para Campinas e queimou.Tive um colega, José Roberto Monteiro Branco que foi preso e, depois, morto pela Ditadura, em Recife.

Agrônomo da Cooxupé
Em Outubro de 1966, o IBC – Instituto Brasileiro do Café - começou um programa de erradicação de cafezais, pois o País estava com excesso de estoque. Trinta alunos da ESALQ foram selecionados para trabalhar nesse programa.
Como eu já havia passado de ano, fui um dos escolhidos. Fiquei até metade de dezembro na região de Londrina e Maringá. O IBC pagava muito bem. Gastei meu primeiro salário com presentes para minha família e minha namorada. Fiquei noivo naquele mesmo ano.
Após minha formatura, em janeiro de 67, fiz um curso sobre cooperativismo, em Campinas, ministrado pelo IBC. Os alunos aprovados nesse curso foram selecionados para trabalhar em algumas cooperativas. Fui indicado para Guaxupé. Eu não conhecia, absolutamente, nenhuma cidade de Minas. Perguntei se Guaxupé ficava perto de BH e me disseram que não ficava longe de Campinas. Combinei que só aceitaria o convite se, após um ano, fosse transferido para uma cooperativa do estado de São Paulo.
Quando cheguei, em março de 1967, a Cooxupé era muito pequena, tinha cerca de trezentos associados ativos e vinte funcionários. Fui o primeiro agrônomo da empresa. Seo Sampaio era o caixa, seo José Vieira, contador, Otto Vilas Boas, gerente, Dr. Celso Ferraz, advogado, e Dr. Isaac, presidente. Depois de um ano, o IBC cumpriu o prometido me oferecendo transferência para outra cooperativa do estado de São Paulo. Mas decidi ficar aqui e encarar o desafio.
Em sete de julho de 1967, em Paraguaçu, Dilma e eu nos casamos no civil. No dia seguinte, no religioso. Passamos nossa lua de mel em Poços de Caldas, Lambari, Cambuquira, Caxambu, São Lourenço. Fizemos a viagem no DKV caramelo emprestado do meu sogro.
Em novembro do mesmo ano, cometi uma loucura. Viajei escondido, com minha esposa, no carro oficial do IBC. Conhecemos Belo Horizonte e as cidades históricas de Minas. No início de casados, Dilma, professora do estado de SP, tirou várias licenças do trabalho para ficar comigo em Guaxupé. Às vezes, eu ficava sozinho.
Em 1970, o IBC abriu um escritório na cidade e me nomeou chefe. Fiquei trabalhando nos dois lugares durante vinte anos. Aposentei-me como fiscal agropecuário pelo Ministério da Agricultura, mas continuei na cooperativa.
Ainda em 1970, mais precisamente, em julho, comecei a Folha Rural, o informativo da Cooxupé. Fazia as matérias, datilografava, compunha os tipos, revisava, imprimia e distribuía para os cooperados. Durante muito tempo, fiz esse trabalho sozinho. O jornal era impresso na gráfica da Escola Profissional. Nessa época, tive muito contato com padre Olavo, que me convidou para fazer parte da diretoria da escola, onde estou até hoje.
Com o tempo, a cooperativa contratou Iracema Elias para trabalhar comigo. Depois, vieram Silvia Helena e Batistão. Por três anos consecutivos a Folha Rural foi premiada como o melhor jornal de cooperativa de Minas Gerais, pela Organização das Cooperativas do Estado. O serviço foi apertando, fui mudando de cargos, gerente do departamento técnico, gerente de RH, secretário geral do conselho diretivo, diretor e superintendente, onde me aposentei, em junho de 2003.
Em 2004, a diretoria me convidou para fazer um livro sobre a história da cooperativa e dos cafeicultores do sul de Minas, em comemoração ao cinquentenário da empresa. Fiquei responsável pela redação, colhi depoimentos dos cooperados, trabalhei com uma jornalista e um fotógrafo do Rio. Foi uma experiência muito interessante.
Tenho dois sítios, onde planto café e colho aborrecimentos. Faço isso há 36 anos, cansa. Quase todo dia vou até lá. Para distrair, quando posso, viajo com minha esposa. Às vezes, com meus filhos. Quando passa um filme bom gosto de ir ao cinema. Do contrário, sou caseiro, avesso à badalação. Também gosto de novelas, principalmente, as do horário das 18 horas.”
José Geraldo é fumante há 55 anos. Diz que até pensa em parar, mas acha difícil. Ainda mais depois de saborear o cafezinho e os docinhos gostosos feitos pela Dilma, que ele chama de “Dirma”. O casal tem dois filhos, Marcelo e Guilherme, duas filhas, Renata e Roseli, e quatro netos, Laura, João Marcelo, Luís Eduardo e Felipe.

Fotos:
1) José Geraldo, com um ano, no quintal da sua casa em Bragança Paulista.
2) Dilma e José Geraldo, entre os pais do noivo, Milburges e Jandira, no casamento religioso, em 08.07.67.
3) Em agosto de 2003, José Geraldo, a esposa, filhos, noras e netos.
4) Na despedida da Cooxupé, em 2003, José Geraldo recebe o abraço do amigo Celso Ferraz.


Apoio cultural:

Comentários

Anônimo disse…
que história é esta de que apenas o prédio é tombado e o jardim não ???
Que falou isto não entende de tombamento, não, vai me desculpar ...
bisteca disse…
Pode ser. Mas ele falou com segurança. De qquer forma, eu preciso dispor um tempo para pesquisar e estou em falta com esta causa. Enquanto isso, parece que a obra continua, pois vi homens trabalhando no local.
bisteca disse…
Minto. Acabei de ler no Correio que a obra de um ESTACIONAMENTO COBERTO! foi interrompida e será avaliada pelos conselheiros do patrimônio histórico. O prédio e seu entorno são patrimônios históricos tombados.

Espero que prevaleça o bom senso.
Anônimo disse…
verdade, o blog de laiz araujo é otimo... obrigado pela dica

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