minha história & outras

Dia 23, última quarta, após um ensaio de teatro aberto, fomos tomar cerveja no bar da Selma (na mesma rua do "sininho"). Entre um assunto e outro, eis que surge este cão macérrimo e com uma das patas machucadas (sábado retornei ao bar e a Selma me informou que este cachorro havia sido atropelado, por isso mancava, mas que ele não estava mais por lá...). Aquele meu amigo que gosta de me fazer provocAções (logo vem à mente o programa do Antônio Abujamra, na Cultura - http://www.tvcultura.com.br/provocacoes/) afirmou: "Se não existissem pessoas que dão alimento a esses cães eles não estariam na cidade. A mesma coisa acontece com os mendigos." Discordo. Quem domesticou os animais e os trouxe à vida urbana foram os homens. Da mesma forma, animais adultos abandonados estão soltos nas ruas porque alguém os alimentou dentro de casa até determinado ponto. Portanto, temos responsabilidade sobre o destino deles, sim. Também acredito que todos os seres vivos, digo TODOS, MESMO, têm direito à vida e se alguém ou um bicho bate à minha porta pedindo comida, não vou negar jamais, a não ser que não tenha nada pra dar. Agora, é inegável que devam existir políticas públicas para inibir o abandono, no caso dos animais, e de investimento em educação, esportes, cultura, lazer e geração de emprego e renda para diminuir o número de pessoas em situação de mendicância. Não acho que negar comida a qualquer ser vivo seja uma forma humanitária de acabar com as desigualdades e discrepâncias sociais. Seria uma solução fácil demais: os animais morreriam de fome, como este cachorro da foto está morrendo. Em longo prazo, eles (os animais) entenderão que a vida nas cidades é inóspita e voltarão a ser selvagens e livres nas selvas e florestas? Qual é o endereço mais próximo? O que você acha?

(ver animais maltratados nas ruas fere minha alma. Não levei este cão comigo porque já cuido de muitos animais e cheguei ao meu limite. Se cada cidadão fizesse sua parte, nem eu nem o cão passaríamos por esse tipo de agressão)

TRAMAS & DRAMAS
Antes de encontrar o cão faminto e machucado e de tomar o primeiro gole de cerveja estávamos no teatro municipal. Alunos do pró-jovem e integrantes do grupo de teatro 14 Bis também prestigiaram o ensaio aberto da peça Essa Propriedade está Condenada (que este final de semana estreiou em Poços de Caldas). Depois da encenação, os atores Arlete Mendes e Ernani Sastre e a diretora Vanessa Marques conversaram com o público sobre o texto do renomado dramaturgo americano Tennessee Williams. A cena se desenvolve nos arredores dos trilhos de trem numa pequena cidade de New Orleans, onde os personagens pré-adolescentes Willie e Tom revelam sentimentos conturbados em relação à sexualidade e à própria vida. A garota, no limiar da vida adulta, mora numa casa amarela que está condenada...

A estreia, em Guaxupé, acontecerá em julho, de forma bastante inusitada, afirma, misteriosamente, a diretora.












MINHA HISTÓRIA
Maria Inês, viúva do saudoso Paulo Molin, revela suas lembranças de estudante, educadora, mãe a avó.
(coluna publicada no Correio Sudoeste deste final de semana)



A vida da gente não é só jornal

Maria Inês Silva de Sá Molin nasceu em 10.03.44, guaxupeana, filha de Sebastião de Sá (seo Zizinho) e Isabel Silva de Sá. Mesmo com as lembranças em parte esquecidas, encheria muitas páginas a história dessa educadora, que mesmo aposentada, continua chefiando a equipe do jornal Folha do Povo.

“Meu pai era professor e inspetor de ensino, minha mãe cuidava dos filhos enquanto pequenos, depois foi, também, educadora. Todo dia meus quatro irmãos e eu tínhamos que pedir a benção da vó materna, Olímpia. A casa dela era ponto de encontro de toda a família. A gente ia e voltava a pé, de vez em quando ganhávamos uma carona do tio Benedito.
Juntavam meus irmãos e os amigos, minhas amigas e eu no quintal de casa. Brincávamos de lojinha, uma das muitas brincadeiras inventadas. No Natal, um irmão ganhava o brinquedo que o outro ganhara no ano interior, reformado e pintado com uma nova cor. Lembro deles ganhando um jipinho da marca Bandeirante.
Entrei no Jardim de Infância, aos quatro anos, no Colégio Imaculada Conceição, onde estudei durante catorze anos. Lembro de algumas passagens, precisávamos saber na ponta da língua todas as perguntas e respostas do livrinho de catecismo.
Do primário tenho poucas recordações. Quem me alfabetizou foi dona Iolanda Rabelo. Já os anos do normal foram marcantes, principalmente, por causa das bagunças que a gente fazia. Como tudo era muito certinho, hoje em dia, nossas bagunças são consideradas bobeirinhas. Matávamos aulas, fumávamos escondido no banheiro, mas era só pra fazer folia, tenho horror a cigarro. Durante os retiros espirituais, não havia aulas, a gente comungava, assistia a palestras, rezas e missas. O padre nos amedrontava com sua pregação, nos deixando apavoradas. Depois disto, ficávamos boazinhas por um tempo.
No último ano, algumas colegas e eu levamos uma suspensão. A madre superiora ameaçou não entregar nossos diplomas, dizendo que iria conversar com a madre provincial porque nos achava muito imaturas. Mesmo irreverente, desde o 2º ano eu já trabalhava com meu pai na inspetoria seccional de ensino médio, como escrevente datilógrafo. Neste serviço, aprendi muito sobre legislação escolar.
Após minha formatura, em 61, fui dar aulas no Parque Infantil. Vanda Madeira de Sá, a 1ª diretora da escola, também era minha madrinha, uma segunda mãe para mim. Nadima Mussi, a cantineira, e tia Vanda eram duas quituteiras de mão cheia. Formávamos uma família e esse convívio familiar se estendia às crianças. Até hoje, Ronaldo Pelozo adora contar que tirou uma foto no meu colo. Outro aluno, Flávio Nasser, quando vem de São Paulo sempre me faz uma visita.
Quando começou a Fafig, em 66, prestei vestibular, entrando no curso de Geografia. As aulas aconteciam nas noites de sexta e durante o dia de sábado. Depois de formada, cursei, também, Pedagogia, fazendo várias especializações. Nos primeiros anos, a faculdade não tinha sede própria. Tive aulas no grupo Delfim, Queridinha e até na Delegacia de Polícia Civil. Minha turma era pequena, cabia em qualquer cantinho. A secretaria funcionava no escritório do meu pai, um dos fundadores da faculdade.
De Guaxupé a São Paulo
Logo que comecei a faculdade fui convidada pelo seo Milo, diretor do colégio estadual (EE Dr. Benedito Leite Ribeiro), para dar aulas. Por meio de concursos, fui efetivada no cargo de professora de Geografia, em 68, e de Estudos Sociais, em 70. Em seguida, aboliram as aulas de Estudos Sociais e precisei complementar minha carga horária lecionando Educação Moral e Cívica, OSPB (Organização Social e Política do Brasil) e História. Era muito difícil dar estas disciplinas nos anos de ditadura. Tinha que ter muita cautela e seguir o conteúdo do material didático à risca. Diziam que nossas aulas eram vigiadas.
Em 71 conheci meu futuro marido, Paulo Molin, no barzinho do seo Milo e da dona Lilian Mantovani, o Mili 8, que juntava as sílabas iniciais dos nomes e o número de filhos do casal. Ele veio de São Paulo a Guaxupé com colegas de trabalho. Minhas amigas e eu os convidamos para o aniversário da Marli Calil e, assim, começamos a namorar. Várias vezes, Paulinho veio de São Paulo só para me dar flores, voltando no mesmo dia.
Em 72, fui morar em São Paulo com tia Vanda, que se mudou para lá depois de viúva. Fui classificada para lecionar na Escola Augusto Ribeiro de Carvalho, na Freguesia do Ó, por este motivo, pedi afastamento dos meus cargos em Minas. Também dei aulas de OSPB para o 2º colegial da Escola Estadual Pasquale Peccicaco, situada no Piqueri, a convite do Chico Damito, vice-diretor. Como era professora do ginasial, só aceitei pegar estas aulas quando vi que o conteúdo do material didático era o mesmo que eu dava para a 7ª série em Guaxupé.
Casamento e maternidade
Casei-me em 75, na Capela do Orfanato São Judas Tadeu. O padre que realizou nosso casamento, cunhado de um amigo do Paulinho, sugeriu esta capela por ela ser muito bonita. No início de 76, meu marido veio trabalhar em Guaxupé. Só pude voltar uns meses depois, reassumindo meus dois cargos no ginásio.
Em 79, em substituição ao cargo de Estudos Sociais, passei a trabalhar como orientadora educacional contratada no grupo escolar Nossa Senhora Aparecida, onde fiquei até 85. Neste mesmo ano, prestei concurso e ocupei uma vaga de orientadora educacional no ginásio. Assumi este cargo, também, por um ano, no grupo José de Sá.
Enquanto estava no Nossa Sra. Aparecida nasceram meus dois filhos, Ana Isabel, em 1980, e João Paulo, em 83. Como eu trabalhava nos três períodos, Paulinho e uma babá me ajudaram a cuidar deles. Meu filho sempre foi muito bonzinho, não me lembro de passar uma noite acordada por causa dele. Já minha filha chorava muito de noite. Chegou a chorar 53 noites seguidas: começou em 1º de maio, no aniversário do João Paulo Calicchio, impressionada com os palhaços da festa, e só parou em 23.06, véspera de São João.
Aposentei-me do cargo de aulas no final dos anos 80 e do cargo de orientação, em 92. Mas fiquei apenas um ano longe das escolas. Em 94, com o início do Colégio Objetivo, fui convidada para ser orientadora educacional. Achei que ficaria por pouco tempo, mas permaneci até dezembro de 2009.

Páginas de um livro bom
Minha juventude foi excelente, dentro dos padrões da época, aproveitei muito. Ia nas sessões das 18h do Cine São Carlos. Nessa época, não podíamos frequentar a parte de cima do cinema, chamada de ‘puma’. A gente entrava e saia somente com as luzes apagadas, para ninguém nos ver.
Fazia o footing na avenida de braços dados com minhas amigas, cortando caminho pelo coreto pra passar mais depressa perto dos paqueras. Íamos até o vendedor de espetos só para ver o movimento do jardim de baixo da avenida, que era mal falado.
No Bar Primor eu sempre pedia um ‘colegial’, achava lindo aquele wafer no sorvete. Depois surgiu o Bar Guaxupé, no Clube Guaxupé, que vendia quibes deliciosos. Gostávamos de ficar nas mesas reservadas por uma cortininha. O evento mais esperado era a Festa das Orquídeas, nos preparávamos durante meses, pensando nas roupas que iríamos usar.
Atualmente, faço muitos programas com minhas amigas. Há mais de dez anos tenho um grupo de doze amigas, nos reunimos cada mês na casa de uma para jantar e dançar. Durante estes encontros não é permitido falar de trabalho, nem da vida dos outros. É só bobeira, a gente ri até falar chega.
No mais, viajo sempre que posso. Este ano, fui parar na região Toscana, na Itália, com meus afilhados, Guilherme e Fatinha, e com Vera, uma prima que é quase irmã. Também conheci Buenos Aires com um grupo de amigas muito divertidas.
Depois que nasceu minha netinha, Isabella, filha da Ana Isabel, passei a dedicar grande parte das minhas horas livres a ela. Estou aposentada, mas continuo sem tempo pra nada. Tenho duas casas para olhar, a minha e a da minha mãe.”

Desde a época do pai, Maria Inês ajudava a administrar as finanças da Folha do Povo (fundada por seo Zizinho em 1940). Parou quando morou em São Paulo. Quando seo Zizinho faleceu, em 85, Paulo Molin passou a auxiliar na direção do jornal. Com a morte do marido, em 2004, Maria Inês assumiu a direção administrativa, com o apoio do irmão, Marcos Felipe.

Fotos:
1. Nas Bodas de Prata dos pais, Zizinho e Bela, os filhos Tuti (Sebastião), Maria Inês, Marcos Felipe, José Felipe e Fernando, em 65.
2. Maria Inês, Paulinho e filhos na formatura de Ana Isabel, em 2003.
3. Reunião das amigas e torcedoras do Brasil na Copa do Mundo, na casa da Maria Inês, dia 11.06.
4. Isabella e a vó coruja, Maria Inês.


patrocínio:


http://www.adorocinema.com/filmes/as-melhores-coisas-do-mundo/

A adolescência na classe média brasileira como ela é. Divertido, instrutivo e bastante realista. Direção segura de Laís Bodanzky em uma trama que discute os anseios e esperanças dos jovens e a participação da tecnologia em suas vidas. Bela atuação de Denise Fraga e ótima trilha sonora.


Obrigada pela dica, Juracélio.

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