contagem regressiva

Ironia do destino, justamente no primeiro ano em que se faz uma contagem regressiva para o carnaval, em Guaxupé, os jornais publicam que não haverá carnaval de rua. Coisas de Guaxupé, inexplicáveis. O maior problema, a meu ver, é que haverá carnaval de rua, os blocos e escolas receberão apoio da prefeitura para desfilar. Se depender do empenho de alguns, o samba vai rolar gostoso na avenida. À imprensa cabe apurar os fatos com cuidado, para não desinformar ainda mais a população. Manchetes mais bem elaboradas, de acordo com o conteúdo do texto, também ajudam. Tudo está muito nebuloso, essa história de câmeras de vigilância, projeto Olho Vivo, enfim, ainda é cedo pra afirmar qualquer coisa. Mesmo o secretário e diretor de cultura afirmando que será investido 320 mil, parte da verba destinada ao carnaval, nesse projeto de segurança encabeçado pelo Ministério Público, essa história precisa ser melhor esclarecida. Lembrando que o carnaval é uma festa popular, a mais esperada em todos os cantos do Brasil. Independentemente de credo ou religião, o espírito carnavalesco é sinônimo de alegria. Se está sendo desvirtuado, cabe tentar recuperar essa espontaneidade original e não tentar reprimi-la. O que seria puro desgaste de tempo... Com boa vontade, sem interesses escusos, dá pra se fazer uma festa bacana, mais humilde, nem por isso menos animada.

Esse espaço em branco da placa está reservado para publicidade de possíveis parceiros da Associação Viralatas do Samba, que idealizou a contagem regressiva na Casa da Vó Maria, confeccionada pela Adesive. Infelizmente, por motivos diversos, essas parcerias ainda não foram firmadas. Com todo esse ti ti ti, vamos ver no que dá. Mas que essa placa, em local privilegiado, já deveria estar cheia de parceiros, deveria.


Conheci as composições próprias do músico Edson Parisi, natural de Muzambinho e radicado em Guaxupé, sexta, num sarau literário e musical. Muito legal. Não só o repertório de músicas autorais, mas também a seleção de músicas de artistas consagrados, como Caetano e Lobão. Vale a pena ouvir de novo.

Mas o que é um sarau?
Um sarau (do latim seranus, através do galego serao) é um evento cultural ou musical realizado geralmente em casa particular onde as pessoas se encontram para se expressarem ou se manifestarem artisticamente. Um sarau pode envolver dança, poesia, leitura de livros, música acústica e também outras formas de arte como pintura e teatro.Evento bastante comum no século XIX que vem sendo redescoberto por seu caráter de inovação, descontração e satisfação. Consiste em uma reunião festiva que ocorre à tarde ou no início da noite, apresentando concertos musicais, serestas, cantos e apresentações solo, demonstrações, interpretações ou performances artísticas e literárias. Vem ganhando vulto por meio das promoções dos grêmios estudantis e escolas. (fonte: wikipedia)

Como todo evento artístico, um sarau está sempre aberto para o inusitado, para a surpresa, o que o enriquece ainda mais. Obviamente, dentro de cada grupo, acontecem algumas adaptações, dentro do gosto dos organizadores. Mas nunca, nunca soube de um sarau em que um artista fosse impedido de se manifestar, sob qualquer pretexto. Mas, aqui, na sexta, isso aconteceu. A justificativa é a de que havia uma programação prévia, ou seja, quem não estivesse na lista não poderia participar. Não tendo conhecimento sobre a forma com que o evento fora organizado, o cantor se expôs e seu canto foi interrompido. Acho que faltou flexibilidade, boa vontade e jogo de cintura. Ou preconceito.


MINHA HISTÓRIA

Lula, uma “pérola” de gente

Luíza Thomaz nasceu em 15.11.26, em Guaxupé, filha de Miguel Thomaz e Salma Cury Thomaz, irmã de Nagib (Buchanca), Nadim e Assma. Como nasceu no dia e hora em que Washington Luiz tomou posse na Presidência da República, o pai decidiu homenagear o novo presidente, sem consultar ninguém, batizando sua primeira filha mulher de Luíza. Só descobriram seu nome de registro ao ser matriculada no primário, pois, desde bebê, é chamada de Lula, tradução de Lulo, nome árabe escolhido pela mãe, cuja tradução é pérola, gente boa e muito querida.

“Meu pai era comerciante, depois, viajante. Minha mãe morreu muito nova, aos 33 anos, no parto de uma irmã que também não vingou. Nessa época, eu tinha sete anos e Assma, a caçula, três. Tia Maria, conhecida por Tita, casada com tio Salomão, irmão do papai, não tinha filhos, fez questão de criar a gente. Víamos muito pouco nosso pai, que se mudou para São Paulo e nos visitava de vez em quando.
Em 1934, entrei no Grupo Barão de Guaxupé. Nos dois primeiros anos, estudei com a professora Aída Prósperi. Sentava numa mesinha com mais três colegas. Nos 3º e 4º anos, minha professora foi Luizinha Calicchio. Lembro-me dos teatrinhos que ela organizava em todo encerramento de semestre e eu gostava de participar. Muitas vezes, nos ensaios, dona Luizinha levava seu filho caçula, Luiz Vicente. Era tão bonitinho, as crianças e eu gostávamos de brincar com ele. Recebi o diploma do primário em 1937.
Nas brigas, os moleques me chamavam de “turca barata”. Ficava ofendidíssima, imagine, não era turca, mas sírio-libanesa, batizada na Igreja Ortodoxa.
Primeiro, moramos na Avenida Conde Ribeiro do Valle, onde, atualmente, mora a família do seo Jarbas Correia, no prédio construído pelo meu avô José Thomaz, o primeiro prédio de Guaxupé. Depois, moramos na Rua da Aparecida. Brincava com meus amigos da família Zaiat e do Inocêncio Borges.
O mundo era muito diferente de hoje em dia. A gente tinha hora pra tudo. À tarde, brincava com os vizinhos na porta de casa, de pique, de amarelinha, de estatueta, de cantiga de roda. Quando davam oito horas, tinha que entrar.
Aos onze anos, parei de estudar e fui aprender a costurar com Tia Tita, entre outras prendas domésticas. As despesas dos nossos tios eram muito grandes, além de nós quatro, pegaram mais duas crianças para criar, Margarida e Chuca.
Trabalhava em casa durante o dia. À noite, bordava ouvindo músicas e novelas no rádio. Tia Tita nos levava para passear, aos domingos. Íamos à missa e, depois, parávamos na esquina da loja Barateiro para apreciar o movimento (onde, atualmente, é a loja do Nei Damito).
Jovem namoradeira
Eu era muito namoradeira. Os namoros não eram como os de hoje, naquela época, a gente flertava, mandava recados. Quando nossas primas vieram estudar em Guaxupé, minha vida ficou maravilhosa. A turma era grande: Lázara, Cida, Teresinha, Ivone, Santuca, Zeti, Glória, e Tereza do tio Zeca.
Com elas, ia ao cinema, fazia o footing na avenida e frequentávamos os bailes da Associação, no 1º andar do Cine São Carlos. Se tomasse chá de cadeira, me sentava próxima de onde os rapazes passavam para entrar no salão, colocando meu pé na frente deles, para tropeçarem. Quando me viam, me convidavam para dançar.
De dia, trabalhava com costura. Tia Tita era bastante requisitada, também, ensinava corte e costura. Minhas freguesas eram mais jovens. Fiz muitas roupinhas de crianças e vestidos de debutantes. Quando não estava costurando, passeava com minhas primas e amigas, como Sonia Barbosa, e as irmãs Jundurian: Ossana, Maria e Nelita.
Passamos ótimos carnavais juntas. Éramos uma turma grande. Minhas primas e eu não repetíamos as fantasias, cada noite era um modelo diferente: um sucesso. Passava o Natal e já começávamos a pensar no Carnaval. A gente delirava. Não tinhas essas coisas de hoje. Os primos que estudavam fora vinham todos, chegavam na quinta. Quando iam embora, na quarta-feira de Cinzas, chegava a chorar de tristeza. Tínhamos uma vida muito presa. Nessas datas festivas, a liberdade era maior.

Bailes glamourosos
Fazia roupas chiques para minhas freguesas. No Baile das Dez mais Elegantes, que acontecia todos os anos, a diretoria do Clube Guaxupé convidava os casais para participarem. As mulheres compravam tecidos e sapatos em São Paulo, era o maior ti ti ti, uma comentando a roupa da outra.
A Festa das Orquídeas era maravilhosa. Os bailes de debutantes também eram lindos. Todos se vestiam muito bem. Cada ano, um artista famoso de TV era convidado para apresentar as debutantes.
No aniversário de cinquenta anos da cidade teve festa o ano inteiro. Em junho, no baile, fui coroada Rainha do Cinquentenário. Lázara e Assma me ajudaram a fazer um vestido lindo, branco, todo bordado com miçangas. Seo Aníbal Ribeiro do Valle, então prefeito, me conduziu até o trono, onde fui coroada pelo presidente do Clube, Geraldo Souza Ribeiro, com quem dancei a valsa.
Tinha uma vida social intensa, mas nunca pensei em me casar. Ganhava meu dinheiro, mas sempre mantive respeito aos meus irmãos mais velhos e à tia Tita. Saía somente nos finais de semana. De segunda à sexta, recebia as amigas em casa ou via TV.
Sempre fui muito de igreja. Qualquer dia que desse, ia à missa. Até hoje sou assim. Gosto demais da conta das festas de barraquinha da igreja. Tem muitos quitutes gostosos e muita gente pra conversar. Participo de uma turma que cuida de uma barraca de doces durante uma noite, na festa de Nossa Senhora das Dores.

Quituteira de mão cheia
Sempre gostei de comer coisas boas, sou comilona, mesmo. Quando visitava os amigos e me ofereciam alguma coisa gostosa, pedia a receita para fazer em casa. Assim, descobri meu dom para a culinária, todo mundo gosta das minhas comidas.
Sinto satisfação em preparar almoços e jantares pra minha família e amigos. Gosto da casa cheia. Tia Tita também era assim, acostumei com ela, que era brasileira, mas fazia comida síria muito bem. Aprendi tudo com ela. Minha auxiliar, Telma, aprendeu a cozinhar comigo, cozinha muitíssimo bem, até comida síria.
Em meados dos anos 60, nas férias, estava em casa deitada, cochilando, quando minha prima Zeti me convidou para comer um bauru no Franscisqueti Lanches, onde um rapaz me esperava para conversar. Daí, começamos um namoro que deu em casamento, em 1967. Um ano e um mês depois, nasceu nosso filho Joel Luís, em julho de 68.
Mesmo casada, continuei trabalhando com costura. E assim fiquei mesmo após a separação, sete anos depois. Sempre fui muito exigente com meu filho. Cerquei-o de cuidados. Fazia questão que estivesse sempre bem-vestido, do jeito que achava adequado. Mandei fazer para Joel Luís várias roupinhas de safári, que ele detestava. Até hoje me critica por causa disto.
Trabalhei até meu filho se formar advogado. Depois, aposentei-me. Atualmente, vivo muito bem e tranquila, graças a Deus. Telma, minha auxiliar há dezessete anos, é, também, uma grande companheira, que continuou trabalhando para mim, mesmo depois de casada e de ter tido um filho, Luís Felipe.”
Joel e sua filha, Helena, nascida em 2003, moram em São Paulo, mas vêm todo mês visitar a mãe e avó, que continua gostando de ter a casa movimentada. Lula mantém o título de mãe-coruja. Agora, claro, vovó-coruja, também.




Fotos:
1) Em 1962, a Rainha do Cinquentenário de Guaxupé, entre Dr. Geraldo Souza Ribeiro e Aníbal Ribeiro do Valle.
2) As dez primas inseparáveis: Assma, Lázara, Tereza do tio Zeca, Cida, Teresinha Ribeiro, Lula e Ivone; agachadas: Glória, Zeti e Santuca.
3) Num dos carnavais dos anos 70, vestindo uma das muitas fantasias que costurou para si mesma.
4) Em 1971, no aniversário de três anos do filho Joel Luís.
5) Em 2003, no batizado da neta Helena, no colo de Joel, com a ex-nora Gláucia e seus pais, Walter e Léa.
6) Lula e sua fiel escudeira, Telma.

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Comentários

Carolina Zaiat disse…
Vamos viralatar com ou sem carnaval de rua!
Sobre o Sarau é uma pena que aconteça coisas desse tipo num evento que ao meu ver propõe justamente uma mistura de artes, onde as pessoas são abertas ao novo e é esse o grande tesão! Envolver tipos diferentes de artes e estilos de música em um SARAU. Infelizmente, em eventos alternativos ou não, somos sempre pegas de surpresa em Guaxupé onde todo mundo acaba mostrando seu preconceito e calando alguma voz que quer gritar.
Klayton disse…
E triste saber que o carnaval de Guaxupé não será o que todos esperavam, afinal quando e que tivemos um carnaval descente, acredito que faz anos que não temos mais um carnaval de qualidade, sabe sinto saudade do Feijão Queimado, turma do 15, sempre gostei do carnaval de rua, das Matines no club operário e no clube Guaxupé, acho que a cultura deve ser sempre incentivada, porém devemos ter em mente que o carnaval em Guaxupé hoje só existe graças aos barracões, e na insegurança me digam qual foi o carnaval que tivemos menos homicídios e roubos, a prefeitura deve ter verbas que devem ser utilizadas nos seus locais específicos, um carro ou ônibus destinado a transporte de escolares não deveria transportar trabalhadores rurais ou presos para os trabalhos na cidade como eu já presenciei, a ambulância para transportes de doentes não deveria ser usada para transportar plantas para o departamento de urbanização da cidade, acredito que os dinheiros destinados a alimentação de crianças não deveria ser desviados para a construção de pontes como acontece em muitas cidades do Brasil, acredito que o dinheiro para investimento da cultura não deve ser desviado para a segurança.
Acredito que a prefeitura deveria investir sim e criar verbas para a segurança ou buscar uma forma de efetivar tal verba.
A prefeitura fez uma bagunça alegando que criaria uma tal de Guarda Municipal, não efetiva suas intenções e já começa brigando com um projeto exemplar, adotado e utilizado em varias cidades de MINAS GERAIS.
Existem exemplos de atuação em parceria de Guardas municipais e a policia militar junto ao projeto olho vivo.
Porém acredito que a prefeitura deveria sim investir no projeto olho vivo, e uma pena que tenha que ser retirado de outra área, mas eu prefiro ter um projeto olho vivo que ira me proteger por meses afinco, indicando os que praticarem crimes contra nós da população, ah ter um investimento em um carnaval sem qualificações, e fácil, saia na rua e pergunte quem saiu de Guaxupé no ultimo carnaval para curtir em cidades como Guaranesia, Muzambinho, Monte Santo de Minas, nem que seja por uma noite e que gostou muito mais desses carnavais onde a prefeitura gasta menos que a nossa prefeitura.
Anônimo disse…
PT = Pura Trambicagem!
bisteca disse…
Klayton,
concordo com você, mas to com muita preguiça de escrever sobre isto, neste momento.
nem sei por que escrevi sobre isso dessa forma tão ingênua. Não tenho jeito, nem juízo.
Algumas pessoas fazem Guaxupé ser pura decepção.

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