diversidade e adversidades

A Prefeitura de Guaxupé, através das Secretarias de Desenvolvimento Social e de Cultura, realiza, de 14 a 20.11, uma série de eventos referentes à Semana da Consciência Negra. De acordo com Roberto Luciano, prefeito, sua administração vai valorizar a cultura. Bacana a iniciativa, pena que faltou divulgação adequada e, consequentemente, um envolvimento maior da comunidade.

Infelizmente, este blog vira-lata, que é uma mídia diferenciada, não recebeu a programação por e-mail para fazer uma divulgação prévia. Soube do evento pelo Correio Sudoeste, na sexta. No folheto de divulgação, que recebi no sábado, após a missa conga na Igreja do Rosário, consta uma programação incompleta, com vários erros. Ainda, o folheto apresenta o nome de vários parceiros na realização desta 1ª Semana da Consciência Negra. Me surpreendeu o fato de a Associação Viralatas do Samba não ter sido convidada a participar, pois o bloco Viralatas do Samba tem o costume de fazer rodas de samba na avenida durante o carnaval, para valorizar as músicas e compositores tradicionais do estilo, bem dentro do espírito desta semana. Seria uma demonstração de respeito à DIVERSIDADE os organizadores convidarem todas as associações e ONGs da cidade para uma reunião onde seriam expostas as propostas do evento. Certamente, uma forma inteligente de envolver um público maior, principalmente, a comunidade negra.

No domingo, em vez de oficina, aconteceu uma roda de discussão no Teatro Municipal, com a participação do grupo A QUATRO VOZES (e não 4 Vozes), do professor Grilo (Passos), Paulo Dias (Cachuera!) e Frei Chico, todos estudiosos da cultura popular; Roberto Luciano, prefeito, Mauri Palos, produtor cultural, Elson e Ewertom Daniel de Orlando, da Unidos das Vilas. A comunidade que deveria estar na plateia, para a qual o evento é destinado, não compareceu. Assim aconteceu, também, na oficina de segunda pela manhã. O argumento corriqueiro, para justificar a falta de público, é que as pessoas não querem participar de eventos como este.

Participei da missa conga, sábado, na Igreja do Rosário, mais por acaso. Tive a felicidade de ouvir o sermão do Frei Chico e assistir às apresentações de congada do Grupo Cachuera e do Terno de Congo União, de Jacuí. De acordo com uma frequentadora da igreja, se houvesse um Frei Chico em Guaxupé, as missas ficariam mais concorridas. Também aconteceu uma bela apresentação de dança afro com a irmã Telma Coelho Barbosa, acompanhada pelo grupo A Quatro Vozes.

As meninas do A Quatro Vozes, filhas do cabo Vítor, são conhecidas e queridas. O quarteto, acompanhado por instrumentistas de São Paulo, se apresentou na noite de segunda, num trio elétrico, em frente ao Municipal. O show foi interrompido pela chegada dos participantes de um evento esportivo na região. O diretor de esportes, Gaspar, e o prefeito interromperam o show para informar a vitória da equipe guaxupeana, ocupando uma boa parte do espetáculo. As cantoras contornaram esta ADVERSIDADE, com "Felicidade Guerreira", finalizando a apresentação conforme o programado: "a felicidade do negro é uma felicidade guerreira."

Agora, quem é este Frei Chico? (acesse: http://www.religiosidadepopular.uaivip.com.br/email.htm). E, Telma Coelho: www.conexaodancabrasilafrica.blogspot.com
Gonheça o trabalho desenvolvido pelo Grupo Cachuera: http://www.cachuera.org.br/cachuerav02/

Quarta-feira, às 20h, no Teatro Municipal, vai haver exibição de um documentário com a participação de Carlão e Itamar, mestres da música popular em Guaxupé.






MINHA HISTÓRIA
A história de Dona Fiúca, figura popular no bairro Nossa Senhora das Dores, por onde andava vendendo leite e doces.


Trabalhar é tão gostoso...

Maria Rita Cruvinel nasceu em 28.03.27, na fazenda Santa Esméria, município de Muzambinho. Filha de José Antônio da Cruz e Ana Rita de Rezende, irmã de José e João (já falecidos), Teresinha, Ermínia, Cícero, Valdeci e Geni. Conhecida por dona Fiúca, ela afirma que na vizinhança ninguém a conhece pelo nome de batismo. Tudo que conquistou na vida foi à custa de muito trabalho. Nunca brincou de boneca. Nas palavras dela, quando a gente trabalha parece que tem muita fartura; se ficar de braços cruzados, falta. Afirma, sorrindo: “Trabalhar é tão gostoso...”

“Quando nasci, papai trabalhava pro Júlio Magalhães. Aos cinco anos, nos mudamos para a fazenda Bocaina, do doutor Joaquim Libânio. Não me esqueço da nossa viagem num carro de boi. Qualquer coisa que Waldomiro Cecílio, administrador da Bocaina, mandasse meu pai fazer, ele fazia: limpava café na máquina elétrica, serrava tora de madeira, se morria alguém na colônia, fazia o caixão.
Não tive tempo de brincar, nem boneca eu tinha. Desde pequeninha, mamãe me pôs pra fazer o serviço de casa. Ela era muito nervosa, estava sempre doente, virava e mexia ficava de cama, com dor de cabeça. Depois de mim, perdeu cinco filhos ainda pequenos, uns com meses, outros com um e quatro anos.
Meus irmãos começaram a trabalhar na roça com sete e oito anos. Eu capinava e abanava arroz; depois, socava no pilão. Também, socava café e carregava feixe de lenha na cabeça. Saía de casa às 7h30, levando almoço pro meu pai num lugar e, pros meus irmãos, em outro. Mamãe levantava e já pegava as panelas pra fazer o almoço. Hoje em dia, a roça é um lugar bom, antes, era tudo cativeiro, não sobrava tempo pra nada. Maria Aparecida de Melo foi minha professora. A escola funcionava no porão da casa do Dr. Libânio. Não cheguei a completar o 3º ano, pois mamãe tinha serviço demais e precisava de mim. Mas esse pouquinho que aprendi está me servindo até hoje.
Mamãe não me deixava passear na cidade e nem na colônia, que era muito grande. Quando papai saía pra rezar o terço, muitas vezes, me levava junto. O pedaço que tenho saudade é das tardes de terça e quinta, quando ia com minha tia e primos à casa da vó Finota. Meu tio Joaquim, que morava com ela e era tocador de violão, juntava com meu irmão, Zé da Cruz, que tocava bandolim, enquanto minha primaiada e eu ficávamos dançando. O único divertimento que tive na vida foi esse. Nessa época tinha entre 14 e 15 anos. A casa da minha avó ficava a uns três km, mas nem sempre mamãe me deixava ir. Por qualquer coisa, dava castigo. Não podia desobedecer de jeito nenhum.
Saía toda manhã, por volta das 6h, pra buscar leite no retiro. Havia muitas vacas, o leite era vendido para a Polenghi. Foi assim que conheci Sebastião Romeiro Cruvinel, chefe dos retireiros. No resto do dia, Tião picava lenha para as cozinheiras do doutor Libânio.
Começamos a namorar sem ninguém saber. Ele passou a frequentar nossa casa, tinha amizade com meu pai. Achavam que estava interessado numa tia solteirona, que nos visitava sempre. Um dia, ele pediu pra uma senhora chamada Jó me dizer que queria se casar comigo, marcando um encontro na casa dela. Esta data, 04.07.43, ficou marcada, pois antes de se encontrar comigo, ele foi à última missa realizada na igreja de pau a pique, antes de ser derrubada para a construção da Catedral.
Depois de quatro dias, Tião foi em casa pedir minha mão em casamento. Papai gostava muito dele, sabia que era uma pessoa muito boa, por isto, me deixaram casar. Tinha 16 anos e, ele, o dobro. Soube disso no dia em que foram tirar os papeis e papai me contou.

De roça em roça
Nos casamos em 02.09.43, na Igreja do Rosário. Para comemorar, teve janta e baile na casa dos meus pais, como era costume, na roça. Nossa casa já estava montadinha, ficava fora da colônia. Passamos seis anos ali, onde tivemos três filhos: José, que nasceu doente, falecendo com um ano; Cidinha e, depois, Anísio.
O caçula tinha dois anos quando nos mudamos pra fazenda Palmeira. Meu marido foi trabalhar como administrador para o Dr. Mário e seo Zezé Ribeiro do Valle, ambos irmãos. Dona Maria, mulher do seo Zezé, me ensinou a fazer queijo. Ela ficava na cidade e eu mandava os queijos pra ela. Muito boa, dava metade da produção para mim. Infelizmente, ficamos na Palmeira apenas dois anos, pois a propriedade foi dividida entre os herdeiros. Lá, nasceu nossa filha Lila (Maria Lázara).
Voltamos para a Bocaina, mas, desta vez, não fomos felizes. Tião foi vacinar gado e uma vaca esbarrou nele, fazendo com que machucasse a perna num pilar. Ficou mais de uma semana internado no hospital e quatro meses sem andar. Gastamos todas nossas economias, não tivemos ajuda de ninguém. Quando Dr. Mário, médico dele, disse que não havia mais nada a fazer no hospital, nos hospedamos na casa do Geraldo Silvério, meu concunhado. Os filhos mais velhos ficaram com meus pais, Lila veio junto. Foi uma fase muito difícil, passamos muita dificuldade. Tião tinha febre e sentia dor.
Quando a febre passou, voltamos pra Bocaina, mas a perna continuou doendo. Por sorte, tínhamos uma boa reserva de comida: arroz, feijão e gordura de porco. Ele ficava na cama e sentia muita sede à noite, bebia água, café, leite, não conseguia dormir. Nem eu. Foi aí, que nosso vizinho, João Romano, perguntou se poderia tentar a cura com oração, durante três sextas-feiras picadas, uma sim, outra não. Na primeira, meu marido dormiu a noite toda, acabou a sede e a dor. Na segunda, já começou a andar e, na terceira, andou de vez.
Nesses dois anos na Bocaina, nasceu nosso filho Tiãozinho. Depois, nos mudamos pra fazenda Santa Augusta, do Álvaro Neto, no Passa Quatro, perto do Muzambo. Vivemos nove anos nesse lugar, onde nasceu mais um filho, Sulino (Antônio Carlos).
Tive o caçula, Mário Luís, em Guaxupé, onde já moravam os filhos mais velhos, que vieram estudar na cidade. No início, moraram com a avó paterna, Almerinda. Quando ela vendeu a casa, não tinham onde ficar. Daí, Tião comprou um terreno com sua parte na venda da casa, mas não tinha dinheiro para construir.
Anísio, nosso filho mais velho, trabalhava na Casa das Linhas, do Joaquim Cecílio Ribeiro, irmão do Waldomiro, o administrador da Bocaina. Meu marido era muito amigo do Joaquim, que financiou a construção da nossa casa, a mesma em que moro hoje, para pagar do jeito que pudesse.

Trabalho na cidade
Viemos pra cá em 64. Tião ficou um bom tempo sem serviço. Nessa época, comecei a lavar e passar roupa pra fora. À noite, ia com Lila e um grupo de vizinhas catar café no armazém do Frota. Fiquei bastante tempo assim.
Sebastião arrumou serviço na Bom Jardim, do Dr. Benedito Felippe, onde ficou até se aposentar. Logo, meus filhos começaram a trabalhar como sapateiros. Voltei a ficar por conta deles, em casa, até se casarem. Depois, não deu pra viver só com a aposentadoria do velho. Voltei a trabalhar pra fora, desta vez, fazendo linguiça. Todo mundo gostava do meu tempero. Como havia muito serviço, contratei uma ajudante. Ficava até de madrugada destrinchando porco. Lila fazia as entregas de lambreta, na garupa do Sulino.
Quando os dois, também, se casaram, arrumei serviço na fábrica de calças do Zé Caetano, onde é a Casa da Criança, atualmente. Trabalhava na cozinha, fazendo café e almoço; limpava banheiro e o escritório. Após sete meses, consegui emprego com carteira assinada, na Cooxupé, como catadora de café. Quando faltava café nas máquinas, ia para a sacaria fazer revisão. Éramos mais de vinte mulheres. Completei 50 anos nessa função. Mas a poeira me fazia muito mal, tinha alergia. Depois de dois anos e meio, saí.
Passei a trabalhar de doméstica. Primeiro, na casa do Macalé e da Barina. Depois, na casa do meu filho, Sulino. Minha nora, Cida, não tinha com quem deixar minha neta, Annie. Quando ela conseguiu arrumar outra pessoa, voltei pra casa. Meu marido já não aguentava trabalhar sozinho, por causa da perna que nunca ficou boa. Ele ficava em casa e, também, cuidava de uma criação de porcos, num pedaço de terra que meu primo Herculano cedeu pra gente. Passei a fazer este serviço, saía cedinho pra tratar dos porcos.
Herculano e o filho dele, Antenor, me ofereceram leite para vender e aceitei. Andava, a pé, pelo bairro Nossa Senhora das Dores. Carregava um latão com quinze litros em cada mão. Sexta-feira era o melhor dia de vendas. Quando sobrava leite, fazia queijo, doce de leite, de coco e pé de moleque. Vendia tudo.
Nessa época, meu marido ficou doente de vez, por causa de um derrame. Vendi todos os porcos para um açougueiro, ficando só com o leite. Nesse meio-tempo, me perfurou uma úlcera. Fui operada em São Carlos, no hospital em que minha irmã Teresinha trabalhava. Quando voltei, minhas filhas tentaram me ajudar vendendo o leite, mas não aguentaram, passando a freguesia pro Antenor.
Enquanto me recuperava, fiquei cuidando do meu marido. Em agosto de 96, ele faleceu. Fiquei parada uns tempos, achando muito ruim. Aí, comecei a ajudar meu filho, Mário Luís, com serviços de excursão. Atendo os telefonemas, faço o primeiro contato com as pessoas. Adoro, faz muito bem para mim.
Não gosto de sair de casa, acho que pelo modo como fui criada. Mas adoro viajar. Já participei com meu filho de muitas excursões à praia. Atualmente, vou mais a Aparecida do Norte, Tambaú e Santa Luzia. Prefiro essas excursões religiosas. Tenho muita fé em Deus e em Nossa Senhora Aparecida. Tudo que peço, eles atendem.
Graças a Deus, minha vida está boa. Meu único problema é a pressão alta e as varizes.
Lutei muito, mas venci. Estou aposentada, mas o que ganho dá. Vivo alegre e contente.”
Há três anos, na formatura do neto Giovani, ele e outros dois netos, André e Lelis, e o bisneto Leandro, fizeram questão de dançar valsa com dona Fiúca. Atualmente, são 15 netos e 11 bisnetos.

1) No almoço de domingo, dona Fiúca entre filhos, noras, genros, netos e bisnetos.
2) Entre os filhos Mário Luís, Sulino (com Luca, filho da Annie), Lila, Anísio e Cidinha.
3) Sentada ao lado do marido Sebastião, com as cunhadas Maria e Sebastiana, atrás.
4) Uma das suas viagens à praia.
5) Em Aparecida, durante uma das várias excursões organizadas pelo filho Mário Luís.


Comentários

Dark Angel disse…
Tenho uma banda de black metal que foi censurada deste evento. Puro preconceito meu!

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