a história de vida do beto cruvinel

(ou justa homenagem a um cidadão)
 
Carlos Alberto Bárbara Cruvinel, o 5º filho de Magnólia Bárbara Cruvinel e João Cruvinel Filho, nasceu em Nova Resende, em 08.12.1959. Irmão de Célia, Maria Tereza, João Batista, Antônio Carlos, Mariana, José Osvaldo e Ana Lúcia, ele conta que a origem da família Cruvinel pode ser alemã, mas não tem certeza. Homenageado com o título de cidadão guaxupeano, em 2011, Beto, que vive em Guaxupé há quase cinquenta anos, já comprovou de diversas maneiras que esta homenagem foi muito justa. Aqui fincou raízes, contribuindo com muito trabalho para promover o desenvolvimento do município e de suas instituições.


 “Lembro-me de ter vindo para Guaxupé por volta dos cinco anos de idade. Nas férias, papai alugava uma Kombi para levar toda a família a Nova Resende, onde nos hospedávamos na casa dos meus avôs maternos, Antônio Estevan Bueno e Maria José da Conceição. Não me esqueço das molecagens que fazia junto com meus irmãos e primos, ficávamos literalmente como uns porquinhos, cobertos de lama, descendo aquelas ladeiras de terra na enxurrada. Papai era fiscal do Estado e mamãe, professora estadual. Era muito apegado ao meu pai. Uma vez, quando ele saía para fazer fiscalizações, à noite, tentei entrar no jipe com ele. Fiz isso três vezes. Na primeira ele me levou de volta pra casa. Na segunda, me deixou sem roupa. Na terceira, me trancou, pelado, no banheiro do quintal. Só assim ele conseguiu se livrar de mim.
Aos sete anos entrei no Grupo Barão de Guaxupé. A gente morava na Avenida dos Inconfidentes, o fundo do nosso quintal fazia divisa com o muro do grupo. Havia um terreno vazio ao lado da nossa casa, onde meu pai mandou passar a máquina para nivelar e evitar o barro nos dias de chuva. Nesse campinho improvisado, eu jogava bola com uma turma grande de vizinhos, como Zé Duarte, Marquinho Machado e Waguinho, entre outros. Minha paixão por futebol vem desde essa época. Meu irmão, João, participava do time da Vila Rica com uma turma uns quatro anos mais velha que eu. Enrabichava neles, levando minha chuteirinha pra quando precisassem de reforço. Mesmo não gostando muito, eles me deixavam jogar. Dona Aparecida Remédio, professora de Educação Física, permitia que a gente usasse a bola durante o intervalo. Como só tinha uma, a gente ficava de butuca na porta, esperando o sinal tocar, pra chegar à sala dela primeiro e pegar a bola. Eu induzia meus colegas a jogar futebol em vez de outras brincadeiras. Minhas professoras do primário foram dona Terezinha Fávero Damitto, Marlene Cardoso, Rosa Peloso e Maria Eulália Gurgel Pinto. Toda segunda-feira tinha a hora cívica. No 2º ano, cheguei a escrever uma poesia que declamei numa dessas cerimônias. Eu não tinha a mínima ideia do que era falar no microfone, não achava posição para colocar o papel e ler ao mesmo tempo sem ser atrapalhado pelo pedestal. Precisei da ajuda da dona Marlene pra segurar meu papel.
Era molecão de tudo. Em determinado momento do casamento de uma das irmãs do Justo Bonelli, eu estava sozinho quando vi um copo com bebida dando sopa. Não sabia o que era, mas virei o líquido de uma talagada só. Nem desconfiava que fosse uísque, só sei que me queimou por dentro. Saí pra tomar ‘um ar’. Na casa de frente, do Waldemar Palos, havia uma árvore. Subi nela e fiquei abraçado a um galho, igual a um bicho-preguiça. Mas esse galho quebrou. Comecei a passar mal e fui para casa. Padre Galvão, que fazia uma visita a minha mãe, ajudou a me acudir. Ela pensou que eu estava tendo uma crise de asma. Não tive coragem de contar a verdade, somente há pouco tempo ela soube o que ocorrera, realmente.”

Em vez de cadernos, a bola
“A formatura do grupo aconteceu no dia do meu aniversário de onze anos. Lembro que usei uma calça boca de sino, daquelas que descem apertadas até o joelho e depois se abrem, cobrindo o sapato. No ano seguinte, fui para o ginásio estadual. Sempre tinha lampejos de matar aula pra jogar bola. Uma vez, depois do jogo, fugi do ginásio discretamente, mas minha mãe me pegou no flagra no meio do caminho. Achava a sala de aula um tédio. Gostava muito das aulas de artes industriais com seu Wilson Calicchio, porque muitas vezes ele saía da escola com um grupo de alunos para praticar a teoria. Uma vez, fomos consertar o chuveiro da casa do diretor do ginásio, seu Milo Mantovani. Eu fazia parte da seleção de futebol de salão do ginásio. A gente participava de campeonatos entre as escolas da região. Aos quinze anos, quando comecei o colegial, fui convidado para jogar no Juvenil da Caldense. Passei no teste e fui para Poços, mas não fiquei nem um mês. Durante um jogo, uma trombada com um colega machucou meu olho, retornando um problema de vista que tive quando criança. Voltei para Guaxupé. Mas acabei tendo que repetir o 1º colegial, em 1976. Não gostava de estudar de jeito nenhum. No mesmo ano, fui convidado para fazer um teste no juvenil do Vasco da Gama, no Rio. Passei, mas afinei e vim embora, a cidade grande me assustou. Nessa época, eu jogava com o time profissional da Esportiva. Mesmo sendo menor de idade, eu fazia parte do elenco, sonhando me tornar jogador profissional. Num desses jogos, no Estádio Carlos Costa Monteiro, entrei para substituir um colega e um jogador do time adversário machucou minha perna. Nem esquentei em campo, fui ver o jogo na arquibancada. Foi quando conheci Cristina Lúcia Calicchio Gonçalves, que estava junto com meus amigos assistindo à partida. A partir daí, a gente passou a se encontrar na bombonière da minha futura sogra, Carmen, ponto de encontro da nossa turma. Dia 16 de setembro de 1976, no Cine São Carlos, durante o filme A Noviça Rebelde, começamos a namorar. Minha sogra me ajudou com os estudos, passando a cobrar notas boas na minha carteirinha de estudante. Se eu tirasse vermelha, ela dizia que a gente não poderia namorar nas férias. No que eu voltei do Rio, tentei terminar o 1º colegial, mas tomei bomba pela 2ª vez. Em 1977, pra tentar arrumar minha vida, pedi transferência para a Academia de Comércio São José. Aos poucos, fui tomando gosto pelos estudos.”

Novos objetivos na vida
“Numa partida de futebol, Mirandinha, do São Paulo Futebol Clube, quebrou a perna e teve que abandonar o esporte. Aquilo me acordou para uma realidade que não havia pensado. Resolvi esquecer o sonho de ser jogador profissional. Em 78, comecei a trabalhar no escritório de contabilidade do Rossetti, onde fiquei até o final de 1979. Na formatura da Academia, recebi o diploma das mãos do seu Raimundinho (Raimundo Macedo), diretor da escola. No começo de 1980, fui aprovado no vestibular da UNAERP, em Administração de Empresas. Logo no primeiro semestre, também passei no concurso do Banco do Brasil. Devo a seu Raimundinho, também professor de Matemática, o gosto por essa matéria, que foi decisivo para eu passar no concurso. Tomei posse na agência do BB de Mococa, transferindo a faculdade para São João da Boa Vista, onde estudava à noite. Mas continuei morando em Guaxupé. No final do ano, não estava dando conta desse ritmo. Em 1981, resolvi largar a faculdade, já que algumas vezes eu matava aulas pra jogar futebol. Em 1982, consegui transferência para a agência de Guaxupé e, no mesmo ano, em 10 de julho, me casei com Cristina na chácara do avô dela, seu Sálvio Calicchio. Sobre a piscina, montaram uma passarela pra gente atravessar. Foi uma cerimônia muito bonita, celebrada pelo Padre Olavo, no final de uma tarde ensolarada de sábado. Catorze dias depois seu Sálvio faleceu. Recebemos a notícia durante nossa lua de mel, no Rio. Em 1984, nasceu nossa primogênita, Maria Paula. No mesmo ano, perdi minha sobrinha, Ana Cláudia, filha da Célia, minha irmã. Ela ainda não tinha sete anos. Era muito agarrada comigo e com a Cristina, ia com a gente pra todo lado, sentimos muito a sua falta. Em 1986, tivemos nossa segunda filha, Maria Lúcia. Quando Cristina ainda estava grávida da Malu, nos mudamos para Cabo Verde, porque fui transferido pelo Banco do Brasil. Fiquei naquela agência durante oito anos. Mas após dois anos voltamos a morar em Guaxupé. Eu ia e voltava todos os dias. De 91 a 94, estudei Ciências Contábeis na antiga FACEG, à noite. Em 95, entrei num programa de demissão voluntária do Banco do Brasil. Em Guaxupé, abri um escritório do Balcão SEBRAE e outro de contabilidade, junto com Tércio Claudino e Amadeu Zeituni. De 95 a 96, fiz pós-graduação em Contabilidade na FACEAC, em São Sebastião do Paraíso. Em 99, meu sogro Arthur teve um problema de saúde que me levou a assumir o comando da loja S.Calicchio, de materiais de construção, da qual eu já era sócio junto com meu cunhado, Arturzinho. Trabalhar na loja colaborou para eu curtir melhor minha família, proporcionando um convívio que até então não tínhamos, porque eu viajava muito como consultor do SEBRAE.”

Um homem cheio de ideias
“Em 97, prestando serviços para o SEBRAE, cheguei para o prefeito de Juruaia, o Alvinho, e propus a criação de uma feira de lingerie - que veio a se chamar FELINJU – atualmente, na 15ª edição. Também a ASSOCIG (Associação dos Calçadistas de Guaxupé) é fruto de um embrião lançado em 97, por proposta minha. No mesmo ano, sugeri a realização da FEITEC (Feira de Tecnologia), que aconteceu no Clube Guaxupé. Não existiam recursos para locação das divisórias para montagem dos stands. Conseguimos material emprestado e botamos a mão na massa: fizemos as divisórias, a decoração, rede elétrica, enfim, tudo o que foi utilizado na mesma. Em 99, fui convidado a ser candidato a presidente da ACIG (Associação Comércio e Indústria de Guaxupé), como sucessor do Lauro Nogueira. Topei, ficando no cargo até março de 2001. Na minha gestão, estimulei a criação do COMEMP (Conselho da Mulher Empreendedora), que infelizmente, não foi pra frente, e dos cafés empresariais. Quando saí, fiz questão de incluir na galeria dos ex-presidentes minha foto junto com todos os membros da minha diretoria. Infelizmente, essa foto tomou Doril (risos). Desde janeiro de 2001 havia assumido o cargo de diretor do departamento de finanças da Prefeitura de Guaxupé, a convite do prefeito Dr. Heber. Ocupei esse cargo por oito anos, até o final da gestão do Abrão. Por sugestão minha, a partir do 2º mandato do Dr. Heber, o funcionalismo público começou a receber metade do 13º salário em julho, junto com o salário de junho. Fizemos, também, modificação na distribuição do IPTU, melhoria na informatização da prefeitura e fiscalização do comércio informal para proteção dos comerciantes locais. Em 2001, o Clube Guaxupé estava para ser fechado. O Clube é um patrimônio do associado que se fosse fechado passaria para a prefeitura, por questões estatutárias, e eu não achava justo perder esse patrimônio. Então, reuni um grupo de pessoas para conversar sobre o assunto e, a partir daí, surgiu uma chapa disposta a revitalizar o Clube, com Paulo Ferreira Filho na presidência. Participei dos dois primeiros mandatos dessa diretoria, como diretor financeiro. Em 2005, comecei a prestar trabalho voluntário para a AADG (Associação dos Amigos dos Deficientes de Guaxupé) e, em 2006, assumi a presidência da entidade, ficando no cargo até 2009. A partir de então, passei a tesoureiro. Em maio de 2011, retornei à presidência, onde ficarei até 2013. Coincidindo com minha saída da prefeitura, em 2009, me pós-graduei em Administração Pública pela Faculdade do SENAC, em Poços. Também trabalhei como professor do SENAC nos cursos de Técnico em Administração e de Segurança do Trabalho. Em maio de 2010, Márcia Cristina da Silva, presidente da ACIG, me convidou para ser gerente administrativo da entidade. Deixei o cargo este ano, para prestar um serviço de consultoria à TV Libertas, em Pouso Alegre. Minha tarefa é reorganizar o administrativo e financeiro da empresa, e, ainda, trabalhar o relacionamento humano da equipe. Como gosto de um desafio, não pude recusar o convite do Ricardo Zaiat. Atualmente, minha vida se resume em trabalhar e trabalhar e trabalhar, mas todo fim de semana estou de volta.
Em 31 de dezembro, completei 35 anos de futebol no campinho da chácara; todo sábado estou firme no jogo e, depois, no bar do Luizinho da Rizica. Sou o único que está na ativa, da turma inicial. Durante muitos anos joguei, também, aos domingos, no Independente Futebol Clube, um dos times máster da cidade. Sempre fui muito família. Quando meu pai teve um AVC, em 2001, passei a levantar todo dia, às 4h30, para dar banho nele. Depois, tomávamos café da manhã juntos; foi assim até 2005, quando ele faleceu. Sou um pai coruja, cada conquista das minhas filhas é minha também. Osmar Neto, que se casou com minha filha Malu, no ano passado, é como um filho para mim. Agora, quero ser avô pra curtir meus netos.”  



Beto também é integrante do Conselho da Creche Domit Cecílio, presta consultoria administrativa, contábil e financeira para o Instituto 14 Bis e é colunista semanal da Folha do Povo. Sempre arruma um tempo pra fazer o que gosta, principalmente, de estar com a família. Compartilha com a filha Maria Paula o amor pelo São Paulo Futebol Clube. Até a mudança para Pouso Alegre, se reunia toda quarta-feira com a família e amigos para aperitivar, conversar e assistir ao futebol pela TV. Por hora, utiliza o Skype para matar as saudades.

Fotos: 
1) Em 1967, no 1º ano do Grupo Barão de Guaxupé. 2) Os irmãos Cruvinel, em ordem crescente de idade. 3) Casamento de Beto e Cristina, em dez de julho de 1982. 4) Ao lado dos pais, Magnólia e João, na posse da ACIG, em 99. 5) Beto entre suas paixões: Malu, Cristina e Maria Paula. 6) Após o jogo da seleção brasileira máster contra o Independente de Guaxupé, Beto com Zenon, as filhas e os sobrinhos, Gabriel e Aline.  

Publicado no jornal Folha do Povo - Guaxupé (MG) - 26.05.2012

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