minha história

Antes, um parênteses para cumprimentar o colega radialista Wilson Luiz, de Araraquara, que ontem completou 50 anos de casado com dona Cidinha. Certamente, a cumplicidade desse casal vale muito mais do que ouro. Tanto que a casa deles vive cheia de amigos, filhos, netos e bisnetos. Sempre tem um espaço no coração e na casa dessas duas grandes figuras que tive o prazer de conhecer porque sou muito amiga de uma das suas filhas, a querida Evlyn, grande produtora de filmes em São Paulo. Chegar até onde chegaram mantendo a cumplicidade, o carinho e respeito não é pra qualquer um. Ofereço a imagem dessa lua guaxupescamente cheia em homenagem ao casal, que espero valer como um saudoso abraço.



A DIRETORA DA ESCOLA DE LATA

A educadora aposentada Maria Irene Krauss de Mello nasceu em 05.08.32, filha de Pedro Krauss e Duzolina Franchi Krauss. Começou a lecionar em 1951 e, em 65, tornou-se diretora escolar, conquistando respeito e admiração. Recebeu o título de Professora do Ano, em 1984, do Rotary Clube e, em 2007, o título de Honra ao Mérito da Câmara Municipal, ambos em reconhecimento à sua dedicação profissional.

“Minha infância e de minhas quatro irmãs foi muito difícil, nossa família era muito humilde. Meu pai tinha uma caminhonete e casa própria, mas trabalhava com minha mãe, em casa, produzindo marmelada e goiabada. Conforme a época, em vez de doces, produzia sabão (Sabão Glória). Para aumentar a renda familiar, minha irmã mais velha, Iolanda, costurava para fora, desde os 13 anos, e minha mãe vendia bordados feitos na máquina.
Meu pai não podia custear o estudo das filhas. Eu queria muito continuar estudando após o primário, aos 11 anos, mas não existiam escolas públicas. A diretora do Grupo Barão, dona Iolanda Conti, me aconselhou a escrever uma carta para o governador de Minas* pedindo uma bolsa de estudos. Junto com a carta, ela anexou minhas notas e alguns caderninhos meus que ela guardava com carinho (guardou até morrer).
Pouco tempo depois, o governador mandou uma resposta para o colégio das freiras me concedendo uma bolsa integral por 7 anos, do ginasial até a formatura como normalista. Tudo que sei hoje, eu devo às irmãs concepcionistas. Mesmo sendo uma aluna sem recursos, tive muita sorte, elas não faziam diferença entre mim e as internas, filhas de fazendeiros. Eu era uma aluna muito querida e valorizada.
Certa vez, fui atriz principal de uma peça teatral chamada Fabíola, que era uma rainha. Dona Geralda Russo me emprestou três vestidos lindos, foi um sucesso. Fizemos várias apresentações, até para o povo de Guaranésia. Com a venda dos ingressos foi comprado um sacrário de ouro para a capela do colégio.
Recebi o diploma de professora do primário, em 1951, e comecei a lecionar na fazenda Viradouro. No início, viajava todo dia no trem da Mogiana, que me deixava a 1 km da escola, daí fazia o resto do percurso a pé. Depois, passei a ir de jardineira (ônibus de madeira). Para não pagar passagem, ia ao lado esquerdo do motorista, Waldemar Pelota, apertada contra a porta. Eu ganhava muito pouco do município. Quando a jardineira quebrava, eu ficava hospedada na casa da Suréhia Tauil, que morava na fazenda. Ela foi muito boa pra mim.
Após um ano e três meses, comecei a substituir em Guaxupé. Trabalhei em todas as escolas, menos no Queridinha. Em 56, fui convocada para reger turmas no grupo Coronel, onde dei aulas para a 4ª série, durante 9 anos. Depois, fui convidada pelo inspetor Sebastião Martins para dirigir o grupo escolar Dr. Carlos Souza Ribeiro.
A escola ficava onde hoje é a sede da Polícia Militar. O prédio, feito com estrutura metálica, era muito frio no inverno e muito quente no calor. A infraestrutura era precária, não tinha rede de esgoto e banheiro para as professoras. Como fui a 1ª diretora, tive que levantar a escola, conseguindo alunos para as cinco salas de aulas.
Em oito meses, as professoras e eu reunimos mais de quatrocentos alunos nos dois turnos. A gente se virava para arrumar mantimentos pra merenda escolar. Saíamos pedindo pela cidade, nunca ouvimos um não. Muitas vezes, a molecada de outras escolas nos seguia, gritando: ‘Diretora da escola de lata, abre a boca e sai barata.’
Em quinze anos, substituímos as cercas de arame farpado por muros, construímos mais uma sala de aula, biblioteca, diretoria, banheiros e ampliamos a cozinha. Consegui com o prefeito Wadi Sabbag a construção da rede de esgoto que beneficiou, também, a vizinhança. Plantamos árvores, flores e canteiros de verduras em torno da escola.
Devido a um problema na estrutura da sala construída por nós, por medida de segurança a delegacia de ensino de Paraíso exigiu que deixássemos o local. Procurei padre Esaú e pedi a ele para deixar a escola funcionar na parte da faculdade que não era utilizada, e ele deixou. Ficamos um ano e três meses lá. Nesse ínterim, fui 9 vezes a Belo Horizonte para conversar com o deputado João Castejon Branco, que arrumou a verba para a construção da nova escola, onde está hoje, no Catetos. Quando foi inaugurada, esse bairro era pouco habitado, os alunos moravam longe. No início, houve uma evasão escolar, mas em pouco tempo eles voltaram. A qualidade do nosso ensino era reconhecida, o Dr. Carlos chegou a ser considerado escola modelo da cidade. Não cito nomes de professoras, pois corro o risco de esquecer alguma. Contei com um corpo docente maravilhoso.
Em 81, comecei a lecionar História da Educação, na área de Pedagogia, e Didática, na área de Letras, na Faculdade. Nessa época, também fui universitária. Primeiro, fiz o curso de Ciências, junto com a Terezinha Ribeiro, outra diretora escolar. Depois, Pedagogia e pós-graduação, dois cursos exigidos pela Secretaria de Educação. Em 87, aposentei-me como diretora, mas continuei lecionando. Em 90, parei com tudo.”

Casamento e maternidade
“Na época do colégio, conheci Luizinho (Luiz Gonzaga de Mello). Do namorico de adolescente passamos a namorar e nos casamos em 1953, na Catedral. Meu pai era muito bravo, a gente namorava na porta de casa sob o olhar atento dele. Às 21h eu tinha que entrar. Naquele tempo, se não obedecia, a gente apanhava.
Depois do casamento, fomos morar na casa onde vivemos até hoje, na Dona Floriana, em quase 58 anos de casados. Meu marido tinha uma oficina na garagem de casa, onde trabalhava como chaveiro. Em 55 nasceu nosso filho, Luiz Carlos, pelas mãos do Dr. Geraldo Souza Ribeiro. Eu ia e voltava do Coronel a pé, 4 vezes ao dia, pela avenida que naquele tempo era de terra. Nos intervalos e à noite, eu cuidava dos serviços de casa e do nosso filho, que, graças a Deus, nunca me deu trabalho. Como eu não tinha empregada, meus pais me ajudaram a criá-lo. Luiz Carlos estudava engenharia civil em Alfenas quando se casou com Ronilinda Ferreira, ambos com 24 anos. Tenho orgulho de dizer que entrei na igreja carregando as alianças de casamento da minha neta Karina. Meu neto, Murilo, já me deu uma linda bisneta, Alice. O caçula dos netos, Yuri, ainda está na faculdade.”

Outras façanhas
“Há quinze anos, sou colaboradora da equipe de liturgia da Catedral, inicialmente, como animadora de missas e, hoje em dia, como leitora. Com a aposentadoria passei a frequentar o Rotary Clube, que presidi durante um ano. A Helena Nassif, Lurdes Ribeiro e Zuleide Sandroni foram grandes companheiras, me ajudaram muito.
Sempre gostei de poesia. Participei do VI Concurso Nacional e Internacional do Lions Clube, em 2004. As regras eram dificílimas, levei três meses para escrever três trovas. Aconteceu uma festa muito bonita na entrega dos certificados de participação.
Além de escrever, adoro cantar. Voltando aos meus 14 anos, fiz parte do elenco de uma radionovela e cantei num programa de auditório da Rádio Clube, escondido do meu pai. Ele ouviu e ficou muito bravo. Noutra oportunidade, cantei uma música do Orlando Silva num concurso de circo, conquistando o 1º lugar. Desta vez, ele nunca soube. Um dos prêmios era uma lata de bolachas. Na saída dos participantes, pelos fundos, os artistas comeram todas as bolachas da minha lata. O circo era pobrezinho, mas fez sucesso na cidade, ficou uns dois meses por aqui. Conseguiram dinheiro até para trocar a lona, escrevendo nela o nome de Guaxupé como recordação.
Depois de aposentada, durante muitos anos, participei do grupo de orações Nossa Senhora da Paz, do qual fui, também, presidente. Foi uma época muito boa para o fortalecimento da espiritualidade na cidade. Havia outros grupos semelhantes, mas com o passar do tempo, foram se diluindo.
Atualmente, estou terminando um curso de informática. Gosto de trocar e-mails com os amigos, não consigo ficar parada. Para cuidar da saúde faço caminhadas, diariamente. Depois do almoço, que eu mesma preparo, saio para os serviços de banco e para visitar os amigos com minhas irmãs. Também gosto de receber visitas em casa. À noite, relaxo assistindo às novelas.”

* Irene não lembra o nome do governador que a ajudou, mas de 1933 a 1945, foi Benedito Valadares Ribeiro.


Fotos:
1. As irmãs Cecília, Irene, Laura, Glória e Iolanda com a mãe, Duzolinda.
2. Os nubentes Irene e Luizinho, em 53.
3. Na formatura do colégio, em 51, Irene está atrás da madre Trindad (à esquerda do prefeito Dr. Geraldo Ribeiro do Valle).
4. Irene, em frente à basílica de São Pedro, no Vaticano, em 98.
5. Os netos Murilo, Karina e Yuri com os pais, Ronilinda e Luiz Carlos.


Minha História - jornal Correio Sudoeste de 28.05.10.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

transformAÇÕES

guaxupé - cem histórias

manifesto