pequena por fora, grande por dentro

Como Eloadir Vieira estreou a coluna Minha História que escrevo, semanalmente, para o Correio Sudoeste, resolvi publicá-la, também, aqui. Talvez o texto seja longo para o blog, talvez não. Você decide.

Maria Martins nasceu em Monte Belo, dia 28 de janeiro de 1924, filha do comerciante Américo Martins e Zulmira Maria Pereira, primogênita de 8 filhos. Aos 16 anos, casou-se com Geraldo Anchieta, com quem teve 12 filhos que geraram 37 netos e, até o momento, 14 bisnetos. A aparência suave e pequena reveste uma mulher guerreira, cheia de fé.

“Fiz somente o primário, em Monte Belo. Eu usava um uniforme xadrezinho de preto e branco. Lembro-me dos colegas Toninho e Belo Zeitune chegando montados em cavalos sem arreios, que deixavam soltos no pátio da escola. As meninas ficavam na parte de cima e os meninos na de baixo, a gente não podia se misturar. Como só havia o grupo na cidade, papai não permitiu que eu saísse para continuar meus estudos. Ele tinha um empório de secos e molhados e eu passei a ajudá-lo, com 11 anos.
Aos 16, conheci Geraldo Anchieta, funcionário da companhia de eletricidade Pedro Nicola. Havia uma represa e uma usina que fornecia energia elétrica para Monte Belo e Juruaia, por isso ele foi trabalhar lá. Em oito meses nos casamos: meu pai falou pra ele, ou casa ou some daqui. Não teve festa, presentes ou lua de mel. Ganhei apenas um par de fronhas, uma imagem de Nossa Senhora Aparecida e um jogo de água. Ficamos na casa dos meus pais. Após quatro meses, Geraldo arrumou uma casa e a mobiliou pra gente morar. Nos finais de semana, passeávamos nas fazendas dos meus avós. Tudo era bem simples, mas foi um tempo muito bom: eu era feliz e não sabia.
Meu marido era louco por criança. Como eu não engravidava, precisei fazer um tratamento recomendado por Seo Valentim, farmacêutico da cidade. E funcionou, após um ano e meio, mais ou menos, engravidei. Nossa primeira filha, Aparecida Maria, nasceu em agosto de 42. Em 44, nasceu o Silas.
Nessa época começaram as mudanças, porque Geraldo era sempre transferido de cidade, conforme as necessidades da empresa. Moramos em Muzambinho, Caconde, Carmo do Rio Claro, Juruaia... Mudamos demais da conta. Até nossas galinhas e nosso cachorro sabiam quando o caminhão de mudança parava na porta de casa.
Viemos para Guaxupé em 46, eu estava grávida do meu 3º filho, Zezé. Aqui moramos em várias casas. Na medida em que melhorávamos de vida, a gente se mudava para uma casa melhor. Quando Geraldo comprou uma mercearia em frente ao grupo Coronel, ele saiu da firma de luz. Morávamos nos fundos da venda. Meu marido vivia negociando miudezas. Certa vez, ele trocou um relógio por 4 pedaços de bilhetes de loteria. Um deles foi premiado. Ele fez a maior queima de fogos na rua para comemorar e, depois, decidiu comprar a padaria Santa Terezinha, que ficava onde hoje é o Big Hotel. No caminho, encontrou Mário Borges, que junto com Zé Áccula, o convenceram a comprar o Bar Primor."
Lembranças do Primor
"Isso aconteceu por volta de 1956. Eu administrava a cozinha e ajudava as cozinheiras a prepararem as comidas. O que eu fiz de bauru para a família do seo Walmor Russo, perdi a conta. Todos nossos clientes eram gente boa, como Pedrinho ‘abeia’, Nelo Araújo, Sarkis, João Ratão, Fineti, Sales Ribeiro do Valle, Paulinho Ribeiro, entre outros. Acho que dessa turma toda, só o Mário Graça está vivo.
No carnaval era uma beleza. Lembro da Nádia, porta-estandarte de Os Bicancas, dançando em cima da mesa de snooker e os demais integrantes do bloco batucando em volta até de madrugada. Também me lembro dos pilotos da Esquadrilha da Fumaça, que comiam rodeados pelos meus filhos. Nesse tempo já havia tido a Amélia, a Zulmira, o Paulo e a Fátima. Morávamos num apartamento no fundo do bar, mais os caçulas Graça e Júlio, que ainda eram de colo.
Meu marido aprendeu a misturar liga neutra nos sorvetes com uma firma de São Paulo que vendia o produto. Ele tinha um jeito próprio de preparar os sabores. O sorvete dele ficou famoso. Dom Hermínio, bispo em Governador Valadares, trazia com ele um isopor vazio para levar de volta cheio de sorvete de milho verde.
Infelizmente, quando Geraldo comprou o ponto, não sabia que o prédio estava para ser vendido. Ficamos com o bar apenas três anos. Fico até arrepiada ao lembrar quando ele soube que precisava deixar o lugar. O Paulinho Ribeiro ofereceu dinheiro emprestado pro Geraldo comprar o prédio e continuar lá, mas meu marido ficou com medo de assumir a dívida e não aceitou. Ele era muito direito e muito sério. Daí, precisamos desmontar tudo. A mudança foi bastante difícil, deixamos muita coisa para trás."
Nossa Senhora Aparecida
"Com o dinheiro que restou compramos uma casa à prestação, do Dr. Domiciano, na rua da cadeia, onde Geraldo montou uma bicicletaria, batizada de Nossa Senhora Aparecida. Era a única do ramo em Guaxupé, tinha muito movimento. Os filhos mais velhos o ajudavam.
Meu marido foi um pai e marido exemplar, nunca deixou faltar nada para nós. Nessa casa inteirei 12 filhos, com o nascimento da Lúcia, do Fernando e da Cláudia. Geraldo era muito doído por minha causa, ele punha minhas filhas para me ajudar. Ele fez até um caixotinho pra Zulmira, que era baixinha, lavar a louça no meu lugar.
Geraldo manteve o hábito de fazer trocas, também, na bicicletaria. Aos domingos, ele colocava um monte de ‘coisera’ no caminhãozinho Chevrolet que ele tinha e saía para vender nas roças. A família toda ia junto, eu na frente, com os filhos menores, Fernando e Cláudia, e os outros 10 na boleia, mais Alaerte, namorado da Cida. A gente fazia piqueniques debaixo das árvores e as crianças brincavam nos córregos.
Para aumentar a renda familiar, Cida costurava para fora. Amélia e Zulmira tinham um salão de beleza em casa. As freguesas delas sentiam o cheiro da comida e algumas até almoçavam com a gente. Até hoje, quando me encontra, Helena Abrão fala que não se esquece da minha comida. Minhas especialidades eram os pratos que meu marido mais gostava, como frango caipira e suan.
Em 75, aos 57 anos, ele teve um infarto fulminante. Fiquei sozinha com sete filhos ainda sem casar. Eu viajava de ônibus até São Paulo para comprar peças para a bicicletaria. Andava aquela Lapa inteira e a 25 de Março. Meus irmãos, que moram em São Paulo, me levavam até a rodoviária. Eu trabalhei muito, precisava ficar de olho nos meus filhos pras coisas andarem direito. Em 1980, fechei a bicicletaria e me aposentei."

Fé e Futebol "Adoro futebol. Sou palmeirense até morrer. Já conheci o Parque Antarctica, o Morumbi e o Mineirão. Em Minas, sou atleticana. Quando meus dois times jogam juntos, fico em cima do muro. Também sou católica fervorosa, ex-ministra de Eucaristia na Igreja do Rosário, onde até hoje assisto às missas de domingo.
Cerca de um ano atrás, eu estava fazendo almoço e a porta da sala estava destrancada. Quando fui levar o lixo pra fora, notei que a porta do quarto da frente estava aberta e a tranquei, como é meu costume. Meu filho Zezé almoçou comigo e foi embora. Arrumei a cozinha e fui visitar minha filha Cida, que mora em frente a minha casa. Quando voltei, liguei a TV para ver um programa que eu gostava muito. Comecei a ouvir umas batidas na porta. Cheguei mais perto e ouvi uma voz vinda de dentro do quarto, ‘tia, abre aqui’. Levei um susto e chamei a Cida, que avisou a Polícia. Descobrimos que eu havia trancado, sem querer, um ladrão dentro do quarto. Depois, a casa encheu de gente, de amigos e de vizinhos. Com o movimento, eles vieram saber o que havia acontecido.
Atualmente, caminho com a ajuda de uma bengala, pois sofri cinco cirurgias no joelho, em Ribeirão Preto, que me fizeram ficar mais quieta. Também não enxergo bem. Mesmo assim, o passeio que eu mais espero, o ano todo, é a viagem que faço com meu filho Pedro Fernando e a mulher dele, Ana, para Aparecida. Gosto demais de lá.
No mais, participo de formaturas, aniversários ou casamentos de netos e nascimentos de bisnetos. Só fico esperando as festas, vou a todas.”

1) Em maio de 88, entre as filhas Graça, Zulmira, Cida, Cláudia, Lúcia e Fátima.
2) Os irmãos João, Olavina, Jandira, Francisco, Maria e João. Não estão na foto os irmãos Olavo e Zezé.
3) Maria, eleita Mãe do Ano pelo Rotary, em maio de 88, entre Miguel e Carmem Abrão, Carlos e Rose Gallate.


É fato que esse tipo de jornalismo não vai me oferecer nenhum prêmio Herzog, ou similar. Mas essas entrevistas me dão muita satisfação e, ainda, me ensinam a ouvir. Registrar essas histórias é minha pequena contribuição ao acervo cultural do município. Por meio delas, ficam registrados costumes, valores e estilos de vida que marcaram o final do século XX.

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