doce vida

Sábado meio-dia, sol quente, Avenida Dona Floriana movimentada, trânsito lento, um galho de árvore despenca sobre a traseira do meu Escort. Minha mãe me lembra que o Correio Sudoeste publicou matéria alertando sobre o perigo que as árvores da referida avenida representam. Fico dividida, entre a defesa das mesmas, pois como Regina Casé em Um Pé de Quê? (Canal Futura) sou amante da natureza e defendo a preservação do meio ambiente. Mas acredito que tudo nessa vida precisa de manutenção: pontes, amizades, relacionamentos, seres vivos... A pergunta é, existe alguém responsável em Guaxupé por este serviço? Acredito que seja a Secretaria do Meio Ambiente, criada pela atual administração, cujo diretor é Mozart Faria. Certo?




MINHA HISTÓRIA
Infância na roça, dança do ventre e escarpin amarelo são algumas passagens da vida de Maria de Lourdes Costa Borges.


Na idade da alegria e da sabedoria


Maria de Lourdes Costa Borges nasceu em 02.06.35, na Fazenda Córrego Fundo, propriedade dos avós maternos José Tomaz da Silveira e Maria Angélica da Silveira, situada nas proximidades da “Pratinha” e da antiga estação ferroviária Jabuti. Filha de Altamiro Alves da Costa e Rita Maria da Costa é a primogênita de sete filhos: Hélio, Rubens, Irtes, Neide, Ana Maria e Antônio Carlos. Não aparenta ter 75 anos, Lourdes afirma que sua idade é da alegria e da sabedoria.

“Papai morava e trabalhava na fazenda dos Barbosa, a 30 km da fazenda onde nasci pelas mãos da minha avó materna, que era parteira. Tive uma infância de roça, das melhores do mundo. Gostaria que meus netos tivessem a infância que eu tive, próxima à natureza. Vovó era boníssima, fazia tudo que os netos pediam.
Todo dia, às 18 horas, vovô reunia a família pra rezar o terço. Suas palavras ficaram marcadas na minha memória: que a gente não se admirasse, pois o mundo ia mudar tanto que um dia iríamos comprar leite em saquinho. Nossa cabeça não alcançava o que ele queria dizer. Naquela época, tomávamos o leite fresco. Lembro da minha avó lavando e enxugando as tetas das vacas com pano de prato.
Aprendi com ela a fazer farinha de milho no monjolo. Vovô tinha um engenho de cana que produzia rapadura e açúcar mascavo. Os netos ficavam em volta observando. Depois que despejava o melado no gamelão, ele jogava água no fundo do tacho transformando o resto do melado em puxa-puxa, pra delírio da criançada.
Quando completei sete anos, meus pais se mudaram para Guaxupé e me matricularam no grupo Barão. Lembro das minhas colegas Laurita e Teresa Gentil, Maria dos Reis e Batistina; das professoras Dona Maria Antônia Couto e Dona Rosinha Durante. Telo Valente, um dos meus colegas, era um menino lindo. Quando olhava pra ele, me dizia: ‘Pra que tá me olhando?’
As férias eram na roça, na Córrego Fundo ou na fazenda dos parentes de papai. Toda noite a madrinha Suzana preparava um prato de leite com angu (polenta) pra eu comer antes de dormir. Contando, parece que sinto até o gosto.
Ficava nesse vai e vem de trem o ano inteiro. Meu avô era festeiro, fazia muitas festas na Pratinha. Dizia pra minha avó, ‘Maria, arruma a bacia com água preu tomar banho e ir a Guaxupé comprar os foguetes. Capaz da Lourdes embirrar e querer voltar comigo’. Ele vinha a cavalo fazer compras na venda do Zé Pilintra. Eu voltava junto, ora a pé, ora montada no cavalo, revezando com ele naquela toada, toc toc toc toc.

Mocinha na cidade
Depois do grupo fui estudar na Academia de Comércio, na turma do Zé Áccula e do Carlos Henrique Gallate. Terminei a 7ª série e parei de estudar. Em 49, mamãe adoeceu e foi se tratar em São Paulo. Fiquei tomando conta dos meus irmãos.
Papai era caminhoneiro, voltou de uma das viagens com tifo. Nossos vizinhos, Áurea de Simone e Nagiba (do seo Juca – vendedor de amendoim), me ajudaram chamando o Dr. Coragem, que levou papai para a Casa de Saúde. Meus irmãos, eu e todo mundo da rua precisamos tomar vacina contra tifo. Depois, papai sarou, mamãe retornou de São Paulo um pouco melhor, mas continuei ajudando a olhar meus irmãos.
A madrinha Suzana arrumou pra eu aprender corte e costura com a Zaí Teixeira, mas ela não me ensinou: eu limpava o salão, entregava as costuras das freguesas e fazia compras na rua. Aprendi a costurar com dona Filhinha Guidorizzi, mãe das minhas amigas Olinta, Nenê e Irma. Ela me dava os moldes usados para eu treinar em casa. Comecei a costurar numa máquina velha que papai comprou para mim. Foi uma espécie de escola, costurava para família e para os amigos.
Com as irmãs Guidorizzi fazia o footing na avenida. Da porta do Bar Primor assistíamos às apresentações da banda do Sudário no Coreto. Com Neli e Nice Russo frequentava as matinês do Cine São Carlos e, depois, aprendíamos a dançar nas matinês do Clube Guaxupé.
Aos 16 anos conheci Mário Cândido Borges, que trabalhava na mercearia do pai, Inocêncio Borges, onde eu fazia compras pra casa. Quando saía, mamãe me ensinava a cumprimentar as pessoas que encontrasse pelo caminho: de manhã, a dar bom dia, à tarde, boa tarde. Dizia que as pessoas gostavam de atenção. Ela nunca estudou, mas teve sabedoria pra educar os filhos.
Mário e o irmão dele, Kiki, entregavam as compras dos fregueses numa charrete. Um dia, estava encostada no portão da casa da Luzia e do Tião Mudinho, quando ele passou fazendo as entregas e me chamou pra conversar. Começamos a namorar.
Passamos juntos carnavais inesquecíveis no bloco Os Bicancas, com outros casais de amigos, como Lourdes e Umar, Ilda e Venícius, Lorice e Sadalla, Helena e Puia. Saía uma turma grande da casa da Rua João Pessoa, número 43. A fantasia do bloco que mais me marcou foi a de pirata, achei lindo ver aqueles homens machões com brinco na orelha e lenço vermelho na cabeça.

Mulher no mundo
Em maio de 54 casei-me com Mário, meu 1º e único namorado. Minhas irmãs já estavam crescidas e ajudavam mamãe em casa. Dona Florinda Baltazar fez meu vestido de noiva. Viajamos de chofer, com ‘Luizinho do Ponto’, que nos levou para Poços de Caldas, onde passamos a lua de mel.
De volta a Guaxupé, fomos morar numa casa na rua da cadeia. Meus pais moravam em frente ao João Nehemy. Mário viajava muito, também era caminhoneiro como papai. Eu gostava de ir ‘detardinha’ visitar mamãe e comer a macarronada que ela preparava, com linguiça comprada na venda do Dufo. Nunca mais senti esse sabor.
Com 26 anos já tinha meus quatro filhos: Mário Fernando, Mariza, Márcia e Mara. A rotina das crianças faz a vida da gente mudar. Somente quando eles entraram no ginasial comecei a costurar pra fora, desta vez, pra valer. Em 1970, perdi meu primogênito de forma repentina. Fiquei mais de um ano fora de prumo. Com o passar do tempo, a vida voltou ao normal. Retomei as costuras.
Fiz muito vestido de noiva, de bailes, de festas e fantasias de carnaval. Depois de formadas, minhas filhas foram estudar fora. Márcia foi para os Estados Unidos, primeiro para Nova York, depois Las Vegas. Viajei onze vezes para lá, passando temporadas de 40 dias a dois meses, sem parar de costurar. Minha sobrinha Candinha, que morava lá, informava minha chegada às freguesas. Costurava até no dia de voltar. Fiz até o vestido de noiva de uma médica filipina que morava em NY. Voltava com as malas cheias, trazia tudo que podia, nunca passei vontade de nada. Era um conselho do meu marido: ‘A vida é boa se a gente faz o que gosta’.
Há dois anos, minha neta Carmem completou 15 anos e viajamos juntas para os EUA, onde mora a avó paterna dela. Batemos pernas demais, a gente saía cedo e só voltava à noite. Eu me viro em Inglês, não passo aperto. Quando meus filhos estavam no grupo, estudei piano, Inglês e Francês.
Gosto muito de idiomas, mas minha alma é árabe. Acho que de outras vidas. Gosto da música, da comida e de tudo. Aprendi a fazer várias receitas que fui aprimorando com o tempo. Desde adolescente queria aprender dança do ventre. Via da janela de casa dona Lourdes Nehemy dançando na sala da casa dela. Era pra mim uma coisa mágica.
Um dia, comentei este sonho com minha cunhada Laura que me indicou a casa de chá e cafeteria Khan El Khalili, em São Paulo, onde ela morava. Conheci o local e as dançarinas, ficando superempolgada com a possibilidade de fazer aulas lá, mas era inviável. Um tempo depois conheci Alessandra, professora de dança do ventre em Guaranésia. Fiz seis anos de aulas com ela, dos 64 aos 70 anos.
De lá pra cá, dancei num hotel na Costa do Sauípe e num navio com destino a Buenos Aires. Primeiro de tudo, dancei em Caldas Novas, durante a Semana de Dança Árabe. Participei do encerramento do evento junto com a equipe de músicos e dançarinos do Tony Mouzayek. Tenho oito roupas de dançarina do ventre, todas bordadas por mim.

Senhora do destino
Há quinze anos participo de um grupo de dez mulheres que se encontra toda quinta-feira para fazer orações. Em seguida, tomamos café e batemos papo. Não sou de frequentar igreja, mas rezo muito. Fiquei chateada, recentemente, pois quis fazer uma missa especial em comemoração aos meus 75 anos, para reunir familiares e amigos, e não consegui. Conversei até com o bispo, mas foi em vão, me disseram que é impossível realizar missa especial, mesmo pagando.
Sou voluntária da Santa Casa e da Casa da Cultura. Atualmente, estou ajudando na organização do Guaxupé - Reviva, que vai acontecer dias 4 e 5 de setembro. Durante doze anos participei da comissão social do Clube Guaxupé, nas gestões do Totonho, Romis Nicolau e Antônio Carlos Ribeiro.
Não tenho formação acadêmica, mas tenho conhecimentos gerais. Gosto muito de ler, me interesso pelo passado e pelo presente. Não parei no tempo. Quando quero alguma coisa pode passar 20 anos que eu consigo. Amo sapato de paixão, meu presente predileto. Não sosseguei até comprar um escarpin amarelo que usei sábado passado, no aniversário das minhas netas Raquel e Cláudia.”
Lourdes continua a mulher determinada de sempre, embirrando com a vida até atingir seus objetivos. Esperou mais de 50 anos para aprender a dança do ventre, sua grande paixão. O marido, que faleceu em 2003, ficava orgulhoso ao vê-la dançar. Hoje dá aulas para as netas. Não é pra qualquer um.

Fotos:
1) Sentados, o casal Lourdes e Mário com os netos Carmem, Cláudia e Otávio Henrique. De pé, as filhas Márcia e Mara, o genro Cris e os netos Raquel e Mário Marcos.
2) Lourdes entre as filhas Mara, Márcia e Mariza.
3) Uma das apresentações de dança do ventre no navio.

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DOCE VIDA

Entidade apoia diabéticos

Domingo, 18, aconteceu uma feijoada beneficente em prol da Associação dos Familiares e Amigos das Crianças e Adolescentes Diabéticos de Guaxupé, denominada Doce Vida. Fundada em dezembro de 2008 com a finalidade de orientar e apoiar os portadores dessa doença, esta associação ainda não conta com nenhuma ajuda financeira, seja municipal, estadual ou federal.
“Na nossa rotina nos deparamos com pessoas ainda jovens sofrendo as consequências da doença, como paralisação de rins, amputações de membros e problemas de visão”, explica Rita de Cássia Bento Silva, presidente da entidade, que atualmente atende 25 associados, entre crianças e jovens.
De acordo com a Doce Vida, a Prefeitura Municipal fornece insulinas, fitas para exames, agulhas e seringas. Este é um direito dos portadores de diabetes assegurado pela Lei Federal 11.347/2006. “Nossa maior luta com o município é que o mesmo ofereça para toda a população guaxupeana um médico Endocrinologista pelo SUS”, informa Gláucia Abrão, 1ª tesoureira. Guaxupé não possui um especialista nesta área, aumentando as dificuldades dos diabéticos, principalmente daqueles que não têm condições de pagar um médico em outra cidade.
A associação funciona em local cedido à Rua Major Joaquim Pedro, nº 44, Centro, todas as segundas-feiras, das 19 às 22 horas. A associação conta com o trabalho voluntário da nutricionista Marcela Ayub Monteiro, da psicóloga Joyce de Paiva, do fisioterapeuta Diogo Cruvinel Fernandes e apoio clínico do Dr. Márcio.
“Aproveito esta oportunidade para agradecer ao Supermercado São João, Atacado Sul Mineiro, a Indústria Têxtil Novo Mundo (Guaranésia), Distribuidora de bebidas do Broa, Panificadora Primavera (Piquinha), ao José Benedito Ribeiro de Barros e a Dona Nina, que preparou a feijoada”, finaliza Gláucia.

Conheça a atual diretoria da Doce Vida:
Presidente: Rita de Cássia Bento Silva
Vice: Sandra Eugênia Silva Matias
1ª secretária: Michele Perucelo Lima
2ª secretária: Edilaine Marques Oliveira
1ª tesoureira: Gláucia Maria Abrão
2º tesoureiro: Nege Zaiat Filho
Conselho fiscal: Aparecida Moreira de Castro, Eliane Cristina Barbosa, Marli Aparecida Zanta

CASA DA VÓ MARIA

Ontem, aconteceu uma festa animada na Casa da Vó Maria, que contou com o apoio financeiro de algumas empresas, como Tecter, MinasVet e Bar do Broa. A Associação Artístico-cultural Viralatas do Samba, em parceria com o grupo teatral Tramas & Dramas e Sem Pé Nem Cabeça Produções, apresentou a peça Essa Propriedade Está Condenada seguida de show da banda Dona Urtiga: no repertório, composições de Rodrigo Sá (o apresentador da Sexta do Compositor, na Comunitária). Fecharam o evento vários músicos convidados - numa mistura de samba e rock'n roll - como Marcelo (de São Paulo) e a grande revelação da noite, a jovem percussionista Mariana, Wilson Caetano, Itamar, Washington, José Gonçalves Filho, Vivian Senne. E pra deixar um gosto de quero mais, depois do tradicional "parabéns a você", a aniversariante da noite, Duia, ofereceu um saboroso bolo confeccionado pela tia Deta (Zaiat). Não tem igual. Foi bom demais, valeu!


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