quarta-feira, 31 de agosto de 2011

micos

Hoje, por acaso, encontrei o prefeito Roberto Luciano e vários políticos no SINE durante o lançamento da carteira profissional digital. Agora não será mais preciso tirar foto em papel ou sujar o dedo. As carteiras antigas continuam válidas, mas as novas serão emitidas por meio deste novo sistema. A pessoa chega no SINE com seus documentos e um funcionário repassa as informações para o computador, através do qual a foto também é feita. Segundo Durvalino Gôngora (Nico), presidente da Câmara, Guaxupé é a primeira cidade da região a implantar este sistema, podendo atender os demais municípios. Desculpe, caro leitor, mas não me aprofundei na notícia, estava voltada para outros assuntos relacionados ao patrimônio histórico, paisagístico e ambiental de Guaxupé.

Mas tive que pagar um mico com o prefeito, quando perguntei sobre algumas obras prometidas e ainda não realizadas, como a ETE - Estação de Tratamento de Esgoto. Ainda não havia lido a notícia sobre a visita do deputado Odair Cunha a Guaxupé:

"Mantendo a tradição de sempre trazer boas novas para a cidade, Odair anunciou que um novo decreto remanejando recursos vai garantir a retomada das obras da BR 146. Mas talvez a melhor notícia foi de que o projeto de esgotamento sanitário de Guaxupé, projeto especialmente encomendado pelo Prefeito Roberto Luciano para sua equipe, no valor de 25 milhões de reais, (R$ 25.532.010.02) foi pré-selecionado pela FUNASA para ser inserido no PAC – programa de aceleração do crescimento. Caso seja aprovado o projeto nessa segunda fase, acontece a liberação do dinheiro. Esta é uma grande notícia que vai beneficiar a cidade, e muito, na discussão da renovação do contrato com a COPASA. Havendo a aprovação do projeto, tudo o que o Governo Federal aportar de investimento a COPASA administrará e terá que ressarcir o município nesse mesmo valor. Este talvez seja o mais importante projeto de infraestrutura para a cidade e a expectativa é grande pela aprovação." (Fonte: guaxupehoje)

Não entendi direito como funcionará o esquema com a COPASA, muito menos onde estes 25 milhões e meio deverão ser investidos quando devolvidos ao município, mas a notícia é boa, de qualquer forma.

O primeiro mico do dia, aliás, os primeiros, foram vistos na piscina (ou Country Club). Tive um encontro feliz com Dr. Jairo Vianna e Peixinho, que se mostravam preocupados com a invasão dos macaquinhos numa casa vizinha e o possível destino desses bichinhos, desviados de seu hábitat natural. Já fotografei os macaquinhos que moram no Lar São Vicente. Essas aparições são sinais evidentes de que algo vai mal com nosso meio ambiente. E as queimadas persistentes no entorno da cidade são um grande indicativo do problema.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

político cabacin

Não tenho preconceitos contra o treze, mas não dá pra esquecer do estigma de azarão associado a esse número quando se relaciona aos vereadores da Câmara Municipal de Guaxupé: "Esta casa comporta este número." Como já escrevi anteriormente, nossos edis votaram na última sessão pelo aumento de vereadores, de dez para treze, com 7 votos a favor (Nico - presidente, Pica-pau, Sérgio Faria, Didinho, Levi, Miguel Stampone e Jorginho - não estou certa da presença deste último), 02 contrários (Ari Cardoso e Tânia Rolim) e 01 ausente (Mauri Palos).
De acordo com depoimento da vereadora Tânia, publicado no jornal Folha do Povo, de 27.08, três novos vereadores deverão gerar um gasto a mais de, no mínimo, dois milhões de reais durante os quatro anos de legislatura.

Realmente, treze vereadores legislando em favor da população guaxupeana deveria ser melhor que dez. Infelizmente, como escrito no editorial do referido jornal, "há muito trabalho importante para ser feito pelos vereadores, porém a prioridade para o que não tem relevância ajuda a consolidar o desprestígio e a baixa credibilidade da câmara." Não foi um bom momento para pular de dez para treze.

Por este motivo, convoco à tribuna popular o "político cabacin":

Já que a reforma política não acontece e na dúvida sobre a eficácia do Ficha Limpa, vamos renovar o congresso brasileiro à nossa moda. Mais ou menos há trinta anos, os meninos costumavam dizer “Caba não, mundão, cabacin que é bão” (tradução: acaba não, vasto mundo, as mulheres virgens são as melhores), ou seja, cabacinho, na linguagem popular, é sinônimo de hímen, que representa a virgindade e pureza da mulher.

Obviamente, hoje em dia, este termo não só caiu em desuso bem como sua própria existência. Os homens preferem mulheres com experiência e o hímen acabou se tornando um incômodo. Cabacin deixou de ser bão.

Mas na política, após 410 deputados votarem a favor das alterações no Código Florestal propostas por Aldo Rebelo (apenas 63 votaram contra), sem levar em conta a manifestação contrária da Academia Brasileira de Ciências (ABC) em conjunto com a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), entre outras ações vergonhosas (como mostra o CQC, toda segunda, na Band), está na hora de os eleitores tomarem uma atitude.

Reforma política, já: Político bão é cabacin! Vamos eleger pessoas comprometidas com as causas que acreditamos e convencer outras pessoas a fazerem o mesmo. Antes de defender qualquer proposta, informe-se melhor sobre ela, observe todos os ângulos e ouça todas as partes envolvidas. Comecemos por nossas cidades (vou tentar fazer o mesmo).

Em Guaxupé (MG), por exemplo, os vereadores e prefeitura estão investindo dinheiro público numa reforma questionável do prédio do antigo fórum, tombado pelo patrimônio histórico, sendo que a sede atual, construída com a finalidade específica de abrigar a câmara municipal, equipada com elevador e infraestrutura adequada, foi inaugurada cerca de oito anos atrás.

O dinheiro dos impostos que o povo paga com o suor do seu trabalho deve ser investido pensando no bem-estar comum, não somente no interesse de alguns.

Político cabacin, já!


Na realidade, criei esta página no Facebook por brincadeira, acho o termo cabacinho muito chulo e idiota, apenas quis incitar alguma reação dos eleitores. Não tenho nada pessoal contra os políticos "de carteirinha", muitos são bem intencionados, até. O sistema político é que está errado, entre tantas mazelas do nosso País. É quase impossível ser bom dentro de um contexto que estimula o contrário.

explicação sobre as árvores

Deixa eu explicar novamente e melhor. Meses atrás, devido às chuvas, vários troncos e galhos de árvores despencaram nas ruas, alguns, sobre carros (vazios, ainda bem). Conversei com Mozart Faria, na época (tem postagem anterior), sobre as providências que seriam tomadas pela Prefeitura para evitar novos acidentes. Ele me disse que viria um técnico do Estado para fazer uma análise da situação de todas as árvores situadas em local público. Mediante o laudo desse profissional, seriam tomadas as providências cabíveis. Só não sei por que estão demorando tanto, me parece necessária outra visita à secretaria de Meio Ambiente para obter esta resposta, pois a primavera já se aproxima e logo, logo, as chuvas de verão. Setembro seria o mês ideal para plantar novas mudas, partindo do pressuposto, desde já, que todas as árvores arrancadas serão imediatamente substituídas.

De antemão, digo que alguns Ipês da Av. Dona Floriana podem estar comprometidos. Também, as palmeiras (imperiais) do antigo fórum (e nova Câmara). Não conversei com especialista, mas um amigo que manja do assunto disse que as raízes dessas palmeiras são rasas em comparação ao comprimento das mesmas e um vento mais forte pode derrubá-las. Concordo com ele, essas árvores PARECEM oferecer risco à nossa segurança. Sei que prevenção é o melhor remédio, mas não consigo imaginar nossa paisagem sem essas palmeiras. Certamente, num futuro bem próximo, o centro da cidade será outro se continuarmos permitindo que descaracterizem ou dilapidem nossos patrimônios históricos.

Quanto às árvores das fotos (do estacionamento, ponto de ônibus e aquelas próximas à extinta Polenghi), o mesmo amigo afirmou que elas não oferecem risco às pessoas, apenas devem ser podadas, tanto nas laterais como no topo. Ele também afirmou que as raízes das mesmas não crescem indefinidamente, oferecendo risco aos imóveis situados nas laterais da avenida (vou confirmar esta informação com outros especialistas, me aguarde). Como falou o taxista, na postagem anterior, o topo dessas árvores nunca foi podado. Geralmente, quem faz essa manutenção é a CEMIG, por causa dos fios de eletricidade, duas ou uma vez ao ano, cortando as laterais. Parece não ser suficiente. Outras perguntas para a SMA: Por que a prefeitura não realiza essas podas em intervalos menores e da maneira adequada? Tem profissionais no departamento de Obras habilitados para esse tipo de serviço?

Bom, quem fala muito sempre corre o risco de pagar mico. Aqui, no mundo virtual, toda hora é hora de assumir e corrigir erros. Por exemplo, hoje, o mesmo amigo me disse que essas árvores de grande porte não precisam ser aguadas, como as de jardim, pois em épocas de seca elas retiram do solo o alimento necessário à sua sobrevivência. Também quero checar esta informação com outras fontes.







segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Problema: Árvores do Centro da Cidade Ameaçadas de Extinção - Cidade Democrática

Problema: Árvores do Centro da Cidade Ameaçadas de Extinção - Cidade Democrática

árvores ameaçadas

As árvores em frente às Pernambucanas estão ameaçadas, de acordo com o biólogo que assinou o laudo autorizando a derrubada (ou corte) das mesmas: "Elas são impróprias para o local." Gostaria de ver Regina Casé fazendo uma reportagem na cidade, para o programa Um Pé de Quê?, exibido no Futura. Aliás, queria eu mesma ser contratada para sair por aí caçando depoimentos em defesa das nossas árvores, tão aviltadas pela ação humana.

Hoje conversei com algumas pessoas que utilizam transporte público, no ponto de ônibus sob as árvores. Os entrevistados se mostraram perplexos ante a possibilidade de perder a sombra e a temperatura amena oferecida por elas. Não acreditaram que há quem queira derrubá-las. Na minha opinião, um profissional indicado por órgão ambiental de Minas deveria vir à cidade para fazer um laudo sobre as condições de todas as nossas árvores. Em caso de alguma oferecer perigo às pessoas, em vez de ser arrancada, talvez pudesse ser transplantada para o parque municipal ou outra área mais adequada. Esta seria uma atitude generosa, delicada e inteligente.

Semana passada, a diretoria do Country Club mandou arrancar diversos eucaliptos próximos ao lago, alegando que ofereciam perigo às crianças que brincam no parquinho. O que não é justificativa ideal, pois bastaria uma manutenção constante e poda eficaz para solucionar possíveis acidentes. Mas, afinal, o que são as árvores e os animais frente à superioridade humana? Ou melhor seria adjetivar como iniquidade, burrice, descaso, ignorância, etc... Sim, porque a natureza sobrevive sem o homem, mas o homem jamais conseguiria existir sem ela.

Saudades do seo Joaquim, antigo jardineiro da Praça do Rosário. Depois dele, não houve mais nenhum. Diariamente, ele cuidava com esmero das plantas, flores e da limpeza do local. As plantas eram aguadas pelo menos duas vezes por semana. Por falar em água, a Prefeitura Municipal paga à empresa responsável pelo saneamento básico pelo uso da água? Em caso positivo, o município dever estar fazendo uma economia tremenda negando às plantas dos jardins municipais o devido cuidado. Outra prova inquestionável da inferioridade humana: Quanto tempo o ser humano consegue sobreviver sem água?


O taxista Toninho Soares trabalha há 23 anos no ponto de táxi sob as árvores. Segundo ele, as mesmas não recebem manutenção adequada, como podas e hidratação.


Além do calçamento ao redor das árvores, não deixaram nenhum espaço de terra para as plantas respirarem. Elas servem de apoio para placas de sinalização e outros anúncios.


Os bancos de cimento foram construídos encostados nas árvores, também, inadequadamente.

Na foto acima, resquícios de iluminação utilizada entre as árvores, na época do Natal, registro de mais um desrespeito.


As árvores amenizam o clima quente nas épocas de calor, oferecendo sombra e ajudando a absorver gás carbônico.




As queimadas, além de agredirem o solo, liberam gases nocivos à camada de ozônio, favorecendo o efeito estufa. A fumaça das queimadas faz mal à saúde humana, "reduzindo a capacidade pulmonar de crianças e aumentando o número de consultas ambulatoriais e de internações hospitalares por doenças respiratórias." Em Guaxupé, alguns proprietários de terra insistem em fazer queimadas, agindo como criminosos comuns e, portanto, passíveis de penalidades legais. Até quando os inocentes continuarão pagando pelos pecadores?

As queimadas e o desmatamento alteram o ecossistema, eliminando os hábitats naturais de muitas espécies. Estes macaquinhos, por exemplo, vivem no Lar São Vicente, em Guaxupé.






Ainda bem que a humanidade não vive só de micos. As enfermeiras e fisioterapeutas do UNIFEG fazem um bonito trabalho voluntário com os assistidos pelo Lar São Vicente. Nesta foto, Priscila Salomão, que foi pedida em casamento pelo seo Geraldo.


um guaxupeano eminente

Luiz Vicente Ribeiro Calicchio nasceu em 13.03.37, o primogênito de Sálvio Calicchio e Jessi Luíza Ribeiro Calicchio. Irmão de Carmen Lúcia, Luíza Helena, Ianê Maria, Ligia Maria e Regina Maris. Guaxupeano eminente, Luiz Vicente foi deputado estadual por três mandatos consecutivos. Sua aptidão para a política e à convivência democrática conquistou a simpatia de Tancredo Neves, mesmo sendo ambos de partidos adversários. A leitura constante e os discursos nos tempos de escola fizeram dele um hábil orador. Este dom natural foi estimulado desde os tempos de criança pela mãe, de quem sempre ganhava um livro de presente. Atualmente, Luiz tem uma biblioteca com 1.500 volumes. Apesar de as datas não serem seu forte, suas lembranças são nítidas e seus relatos, pormenorizados.

“Morava defronte à escadaria da antiga Mogiana, na rua dos balaústres. A maioria dos funcionários da ferroviária também morava por ali. Toda tarde, meus avôs se sentavam na varanda e, na volta do serviço, foguistas, maquinistas, telegrafistas, entre outros funcionários da ferrovia paravam para conversar com eles, perguntando sobre as novidades. O empório do seo Joaquim Brazão, perto de casa, era outro ponto de encontro desse pessoal.
Meu pai tinha um empório, anexo à nossa casa, chamado Casa do Operário. Nos fundos, havia a oficina onde meu avô Vicente fabricava fogões da marca Fogão Mineiro. Desde os três anos, quando comecei a me entender por gente, andava agarrado com ele, que conversava comigo em italiano e, assim, aprendi este idioma.
Minha avó Carolina era analfabeta, falava numa língua que era verdadeiro patuá, mistura de português, espanhol, francês e italiano, por causa dos lugares em que morou desde que emigrou da Itália com a família, antes de chegar ao Brasil. Ela ajudava meu pai, quando solteiro, a tomar conta do empório, não errava as contas de jeito nenhum.
O primeiro fogão feito por meu avô foi para minha avó que, posteriormente, com o consentimento dela, foi vendido para o Conde (Joaquim Augusto) Ribeiro do Valle. Uma grande obra do meu avô, como funileiro, foi a cúpula do antigo fórum.
Ele trabalhou, também, como cozinheiro durante a viagem de navio da Itália para o Brasil. Sempre gostou de cozinhar, me botava ao lado dele enquanto preparava as comidas. Eu tinha um apelido, Suca, por causa de um penteado chamado xuca que mamãe fazia no meu cabelo. Italiano não pronuncia ‘xis’, daí o apelido, com ‘s’.
Minha rua era de terra, mas movimentada. Em cima do telhado da minha casa ficava um megafone de um serviço de alto-falante. Os namorados faziam footing na balaustrada, ouvindo as músicas dos discos que meu tio Alfredo comprava em São Paulo.
Eu jogava bolinha de gude, triângulo e peão com a molecada. Fui alfabetizado aos cinco anos por tia Nirvana, irmã mais nova da minha mãe, e já lia as histórias em quadrinhos da Revista Tico-tico. Em 1944, entrei no Grupo Barão de Guaxupé. Minha professora do 1º ano foi dona Nilva Pinto; do 2º, dona Olga Mancini, e, do 3º e 4º, dona Maria Antônia Couto, pelas quais eu tinha grande estima.
Ficou marcada na minha memória a euforia do povo na festa da vitória, em 1945, no final da 2ª Guerra Mundial, e a imagem de um carro alegórico com um V imenso. Em 1946, nos mudamos para a avenida, na esquina com a Dr. João Carlos, onde passava um corgo que ia até a rodoviária antiga.
Em 1950, assisti às obras de canalização deste córrego e o da Rua Major Anacleto. Major Anacleto de Rezende, meu tio-avô, foi farmacêutico; ele construiu o prédio onde, no térreo, ficava a farmácia e, no andar superior, sua residência. Neste prédio, depois, funcionou o Grupo Barão, onde estudei.
Minha mãe teve uma grande influência na minha vida cultural, ela me presenteava com muitos livros. Começou com a coleção Tesouros da Juventude. Ainda, eu juntava e vendia jornais velhos para seo Faria. Com a renda, comprava livros na Livraria Avenida, do seo Artur Araújo, onde depois foi a loja Dois Irmãos, do Tufi e Alfredo Sayeg.

Aluno exemplar
Fiz os quatro anos do ginasial no Colégio São Luiz Gonzaga. Como não havia Científico na cidade, em 1952, fui morar no internato do Liceu Salesiano Nossa Sra. Auxiliadora, em Campinas, onde estudei durante dois anos, por opção minha.
O regime militar imposto pelos padres influenciou muito na minha formação, um estudante batia continência para o outro. Havia oitocentos alunos de todas as partes do Brasil. Meus amigos da família Furlan, Carlito, Hugo e Chiquinho, também estudaram nessa escola.
Mais experientes que eu, eles me aconselharam a participar da fanfarra do liceu, pois oferecia algumas vantagens. Como não quis tocar tambor, tive que carregar a bandeira paulista nos desfiles cívicos, como tenente, por causa da minha altura. Eu era bom aluno para fazer parte do corpo da guarda.
No 2º ano, fui tenente-coronel, posto mais alto do batalhão colegial, que desfilava em todas as efemérides. Sempre que o padre-diretor saía para algum evento, ele convidava dois alunos para acompanhá-lo, geralmente, o tenente-coronel era um deles. Ficava até meia-noite nas festas, comendo e bebendo.
As correspondências dos alunos, que entravam e saíam da escola, eram fiscalizadas. As minhas cartas, até mesmo da namorada, os padres não abriam. Eu também era ator do grupo de teatro e escrevia artigos para o jornal estudantil. Gostava muito de esportes, como tinha 1,82 metros, joguei na liga de vôlei contra a Ponte Preta, Guarani e outros times.
Em seguida, fui para o Colégio Culto à Ciência, em São Paulo, perto do Largo do Arouche. Morava numa pensão na Av. Angélica e, também, fazia o Curso Brigadeiro, para o vestibular de Medicina. Aí, um professor de Português ressaltou que minha vocação era ser advogado. Ele dizia que eu tinha jeito para política, por causa dos meus discursos costumeiros.

Faculdade e casamento
Nas férias, vinha para Guaxupé, na jardineira da Nasser ou, mais amiúde, de trem. Quando terminei o Científico, em 1954, prestei vestibular para Direito, na PUC Minas. Escolhi BH porque meu pai, eleito Prefeito de Guaxupé, precisava de mim para representá-lo na capital.
O vestibular foi apertado, passou pouca gente. Foi a menor turma da Católica, com apenas 24 alunos. Por este motivo, todos tiveram muita intimidade com os professores, Pedro Aleixo, Milton Campos, Franzen de Lima, entre outros.
Além do currículo normal de Direito, havia duas cadeiras complementares: Filosofia e Teologia. Uma vez me falaram que um bom advogado precisava saber matemática, que eu odiava. Então, optei por me aprofundar em Filosofia, lógica pura, não aplicada. Quando prestei vestibular já namorava Zélia Ribeiro Leão. Nos conhecemos em 1954, em um baile no Clube Guaxupé, durante um congraçamento médico. Fui ao baile atrás de uma dançarina de flamenco chamada Nélia, que parecia uma espanhola. Aconteceu que ela estava muito requisitada, bajulada por todos os médicos, era o arroz da festa. Eu mesmo consegui dançar com ela só uma vez.
Dr. Arthur Leão achando o ambiente do baile propício, resolveu buscar a filha dele, de 15 anos, que estava em casa. Zélia foi contrariada porque não sabia dançar. Pisou no meu pé até cansar. Entre namoro e noivado foram oito anos. Nosso meio de comunicação foram cartas, que trocávamos semanalmente. Ficamos noivos quando eu estava no 5º ano da faculdade.

Cangaceiro Severino
Em BH, morei na “república dos dez honestos” (risos), entre eles, vários guaxupeanos que se tornaram renomados, como Nickson Russo, Sylvio Ribeiro do Valle, Nicolau Balbino, Antônio Costa Monteiro Jr. e Fábio Costa Monteiro.
A reunião da nossa turma, para jantar no restaurante Califórnia, era chamada de Night’s operation. Quinzé, outro guaxupeano, redigia no jornal O Debate a coluna social da Lady Francisco, muito badalada na época. Ele sempre publicava notícias fantasiosas sobre estes nossos encontros. A gente acontecia na society da capital.
Fiz estágio no escritório do advogado Antônio Ribeiro Romanelli, um grande amigo que participava de um grupo de teatro amador. Ele me convidou para atuar na peça o Auto da Compadecida, do Ariano Suassuna, com direção do João Etienne Filho. Fui o cangaceiro Severino do Aracaju, com sotaque nordestino e tudo. Pra ficar pardo precisei usar muito panqueique. Fiz muitas amizades no meio artístico.
Por causa dessa minha experiência, nos dois últimos anos de faculdade, me convidaram para ser presidente do teatro da Católica, que andava às moscas. Fiz o teatro funcionar. Nessa época, passei a entender todo o processo de montagem de uma peça teatral.
Também estudava na Cultura Francesa. Meu professor, monsieur Vincent, me convidou para dirigir uma peça de teatro de arena, Joana Darc Entre as Chamas, de Jean Paul Claudel, com as internas do Colégio Santa Maria, das freiras dominicanas.
O elenco já estava determinado, o figurino pronto e tudo uma bagunça. Foi um grande desafio, pois as atrizes eram amadoras e teriam, ainda, que fazer papéis masculinos, num evento para o bispo e a fina flor da sociedade mineira. Foi complicação de todo o jeito, mas, no final, deu tudo certo.
Desde o 2º ano eu participava da Juventude Universitária Católica – JUC, mas aquilo não me convencia. Foi então que padre Luiz Viegas me encaminhou para a Juventude Operária Católica - JOC, para lecionar no curso noturno de líderes comunitários de favelas. Ali me senti útil dando aulas de cultura geral, onde fiquei de 1958 a 1960, ano da minha formatura. Em 1958, também fui presidente do Diretório Acadêmico da PUC.

Promotor de Justiça
Voltei para Guaxupé, recém-formado. Dr. Arthur, um grande advogado, foi um exemplo para mim. Zélia brincava que eu namorava mais o pai do que ela. Prestei concurso para promotor de justiça e passei. Tomei posse como promotor substituto em Carmo do Rio Claro. Quando vagou o cargo na promotoria de Alpinópolis, antiga Ventania, passei a atender as duas comarcas. Também dei aulas de História no Colégio Monfort, em Carmo do Rio Claro.
Alpinópolis era sede da obra de Furnas, com 46.000 operários. Todas as ações trabalhistas e acidentes de trabalho ficavam a cargo do promotor, quase morri de tanto trabalhar, das oito da manhã até de madrugada. Nessa fase, até 1964, a experiência na JOC me valeu muito.
A firma inglesa, uma das integrantes do consórcio para construção de Furnas, criou um gueto inglês em Alpinópolis. Durante os quatro anos que ficaram na obra não se dignaram a aprender o português. O lado positivo foi que nossos operários aprenderam o idioma deles. Era uma luta constante contra essa empresa. Acabei tirando licença-médica por estresse e problemas no estômago.
Nesse ínterim, havia me casado com Zélia, em 8.7.1962, na Catedral de Guaxupé, e nos mudamos para Alpinópolis. Nossa primogênita, Rúbria, nasceu em 1963. Com o passar dos anos vieram os outros cinco, Andréa, Sálvio Neto, Luiz Filho, Lucas e Raquel, todos guaxupeanos.
Em 1965, fui promovido por merecimento para a comarca de Jacuí, onde lecionei História, como voluntário, no Colégio Estadual. Meu primeiro carro foi um Gordini 64, que papai ganhou no bingo, em meu nome. Toda semana viajava para Guaxupé onde dava aulas de Iniciação Filosófica na faculdade, sexta à noite e sábado de manhã. Foi assim durante quatro anos.
Em seguida, fui promovido para o Ministério Público de Uberaba, onde fiquei dois anos. Também dei aula de Direito Penal na faculdade de Uberaba. O estado pagava mal e atrasado, ganhava mais como professor. Um dia, na iminência de o tribunal liberar um sujeito que não devia, disse a um colega que se o tal réu fosse liberado, eu pediria exoneração do cargo. E assim foi, saí no meio de uma audiência.

De volta a Guaxupé
No início dos anos 70, minha família e eu viemos morar na rua da porteira, em Guaxupé. Meu pai tinha a S. Calicchio, uma grande loja de materiais para construção. Ele me deu as chaves dessa loja, saiu de férias e se aposentou. Dividi a firma em sociedade por cotas entre minhas irmãs. Os empregados também passaram a ter participação nas vendas. Preparei a informatização da empresa.
No fim da semana, voltei a lecionar na faculdade. Em 1971, João Marques de Vasconcelos foi para a assembleia de Minas, como deputado estadual, e Marcos Noronha ficou no lugar dele, como diretor da faculdade. Como ele não entendia nada de administração, me convidou para ser seu vice. Aí, eu deixei de dar aulas.
No mesmo ano, Walmor Russo foi candidato a prefeito. Eu coordenei a campanha eleitoral dele contra Benedito Felippe da Silva. Ganhamos a eleição. Em 74, montei a Guavema em sociedade com Expedito de Souza. Ganhamos um prêmio nacional de vendas de carros, por causa desse prêmio rebentei no Japão.
A pedido do Sylvio, na época diretor da Santa Casa, escrevi um novo estatuto para a instituição, dando a ela o caráter de fundação, com a figura de um provedor leigo e de um diretor médico. Também colaborei com Walmor na renovação de normas e leis municipais. Na sua gestão como prefeito, ele comprou o prédio do Banco do Brasil para ser a nova sede da Prefeitura.
Walmor me convidou para presidir o Conselho Municipal de Desenvolvimento. Participaram como conselheiros: Zé Mauer, Expedito, Deoti, Duti, entre outros. O Conselho se empenhou em trazer novas empresas para o município. Descobrimos que tínhamos um grave problema com energia elétrica.
Duti e eu rodamos de jipe mais de vinte prefeituras buscando apoio para a fundação de uma associação que reunisse todos os municípios da região. Conseguimos adesão de dezessete e fundamos a AMOG. Walmor foi eleito seu primeiro presidente.
Com a criação da AMOG, a Fundação João Pinheiro fez um grande mapeamento da região, detectando características comuns entre os municípios. Ficou comprovado que o maior problema de todos era, realmente, a luz. Começamos uma batalha para substituir a Cia. Bragantina, responsável pela energia elétrica da região.
Fui presidente da ACIG, em 1977, após a gestão do Lécio Brocchi. Também reformulei o estatuto da associação, que era muito antigo. Na minha gestão, a associação passou a oferecer cursos para formação de mão de obra qualificada no comércio.

O jubileu das Orquídeas
Durante as festas das orquídeas, várias misses e políticos de Minas Gerais se hospedaram na casa dos meus pais. Eu fiz amizade com todos os orquidófilos. Fui convidado para uma reunião no Clube Guaxupé para organização do jubileu de prata das Orquídeas. Em seguida, fui comer um lanche no boteco do Kutiúla, onde Dr. Albertinho me encontrou e pediu que eu fosse presidente da comissão da festa.
Naquela noite, mesmo, procurei Severo Silva para me ajudar a fazer uma semana de festa. Consegui apoio financeiro de várias empresas. Trouxemos muitas atrações, como Chacrinha, Fafá de Belém, Noite Ilustrada e Jamelão. Teve bailes no Clube Guaxupé, Clube Operário e Pio Damião.
Em frente ao clube, montamos uma quermesse sob as árvores e, em frente à prefeitura, um tablado para as apresentações artísticas. Organizamos rodas de viola para valorizar os artistas locais, com ajuda do Elias José, Tião Rezende e outros. A Rádio Clube foi contratada para apresentar os shows. Minha proposta foi fazer uma festa popular, não para poucos como era costume.
A faculdade passou por uma fase crítica. Para atender as exigências do MEC, tivemos que caçar livros em sebos e com o auxílio da bibliotecária Nequinha (Vilma Bertoni) formamos uma nova biblioteca. Conseguimos reconhecimento dos cursos de licenciatura plena da Fafig e Faceg.
Nessa época, criamos o Colégio Dom Inácio para ser uma escola experimental, onde os recém-formados da faculdade pudessem lecionar. Quando Marcos Noronha foi para Belo Horizonte, ocupei o lugar dele, e Toninho Costa Monteiro ficou de vice.

Deputado Calicchio
Certa noite, João Marques foi à minha casa, na rua da porteira. Contou-me que seria convidado para um cargo elevado do Estado. Se assim fosse, pediu que eu saísse candidato a deputado. Passou a madrugada me convencendo. No fim, mais por cansaço que persuasão, acabei concordando.
Eu estava construindo a casa dos meus sonhos, em frente à chácara do meu pai. Achei que ficaria sossegado. Ao perceber minha dúvida, meu pai me perguntou o que o João tanto queria comigo, e eu contei. Ele me lembrou que cavalo arreado passa na porta de casa só uma vez, e se propôs a me ajudar, me estimulando a aceitar.
João tornou-se vice-governador de Minas. Eu saí candidato pela ARENA, nas eleições de 1978. Rodei a região toda, ampliando o quadro eleitoral que ele havia formado, pois eu já conhecia a maioria dos prefeitos. Há sessenta dias da eleição, enquanto trocava um pneu do carro, fui atropelado entre Itamogi e Monte Santo de Minas.
Fui levado ao hospital de Monte Santo e, depois, transferido por Sylvio, meu compadre, para o Hospital São Francisco, em Ribeirão. Fiquei hospitalizado 65 dias, ganhei a eleição na cama. Minha recuperação durou dois anos, até hoje tenho sequelas.
Em maio de 1979, na cadeira de rodas, assumi meu lugar na assembleia, em BH, durante a 1ª greve dos professores de Minas. Marcos Noronha trabalhava na Secretaria de Educação. Ele me ajudou a conseguir verba para reformar e equipar as escolas primárias de Guaxupé e região.
Nesta época, os diretores das escolas eram nomeados pelo governador. Por minha sugestão, os colegiados escolares passaram a escolher seus diretores. Depois de eleitos, eu indicava os nomes para serem nomeados pelo governador.
Consegui verba para construção da nova rodoviária de Guaxupé, no governo do Felipinho; verba para reforma e ampliação do antigo fórum, para a construção do grupo escolar Major Washington e para a área de saneamento básico de várias cidades da região, incluindo Guaxupé. Consegui que professores do Estado fossem disponibilizados às três creches da cidade – Domit Cecílio, Santa Cruz e do Olavo.
Anualmente, o MEC dava bolsas de estudo integrais para os deputados distribuírem onde fosse necessário. Durante meus três mandatos, repassei minhas 60 bolsas para a Academia de Comércio São José. Seo Raimundinho e seo Gilberto Pasqua ficavam encarregados de distribuí-las.
Minha grande luta foi fazer a CEMIG encampar a energia elétrica da nossa região. Consegui somente no 2º mandato, com o apoio do governador Tancredo Neves, mesmo sendo meu opositor político. Nos conhecemos num encontro discreto, à mineira, na fazenda de um amigo em comum, onde conversamos por três horas. Tancredo passou a me chamar de ‘professor’.

À minha casa, os amigos
Assumi minha posição de estar ao lado do Aureliano Chaves, que saiu do PDS para fundar o PFL – Partido da Frente Liberal. Com ele, ajudei a articular a eleição de Tancredo Neves à presidência, contra o candidato Paulo Maluf, do PDS. Também trabalhei em favor das Diretas Já.
O 1º encontro público entre Aureliano e Tancredo, anteriormente opositores políticos, foi na minha casa, durante uma macarronada amiga, que acabou virando um jantar para oitenta pessoas, divulgado em cadeia nacional no Programa da Hebe. Uma frase minha ficou conhecida por ter sido resposta à pergunta de um jornalista, sobre o porquê de eu não ter recebido Paulo Maluf em minha casa: À minha casa convido os amigos.
No meu 1º mandato, aprovei a Lei Orgânica do Ministério Público de Minas, em quinze dias. Como deputado, lutei pela autonomia do Ministério Público, que era dependente da Secretaria de Justiça. Também consegui verba para construção da sede da Associação Mineira do Ministério Público, ainda com Tancredo governador.
Durante uma homenagem ao Tancredo, no Hotel Nacional, ele me disse que gostaria de contar comigo em Brasília, mas morreu antes de tomar posse na presidência da República. Então, não saí candidato a deputado federal, porque queria trabalhar na constituinte mineira.
Em 1988, fui um dos fundadores do PSDB, com Covas, Montoro, Pimenta da Veiga, entre outros. Fui o primeiro secretário do partido, em BH. Apresentei vários projetos na assembleia, o mais importante foi minha participação na constituinte, em 1989, que serviu de modelo para outros estados.
Nessa época, fui o deputado que sempre quis ser. Dediquei-me, exclusivamente, à formulação da nossa constituição, éramos cinco deputados pelo PSDB. Nossa bancada conseguiu aprovar o maior número de emendas. No fim desse trabalho, rodei 86 cidades mineiras para auxiliar na formulação das suas leis Orgânicas, cheguei a escrever uma cartilha junto com minha equipe de gabinete.
Antes de terminar meu terceiro mandato aconteceu um fato inédito, fui reintegrado ao Ministério Público de Minas. Em 1990, saí da assembleia nomeado promotor de Contagem, região metropolitana de BH, onde já me esperavam 1.200 processos, logo garrei no serviço.
Para trabalhar na campanha do Azeredo a governador, tirei licença não remunerada por três meses. Ele me chamou para ser auditor geral do Estado, cargo que ocupei nos quatro anos em que ele foi governador. Depois, fui nomeado Procurador de Justiça do Ministério Público, onde atuei até minha aposentadoria compulsória, aos 70 anos, ou melhor, expulsória (risos).
Continuo filiado ao PSDB e faço parte do Conselho de Ética do estado, desde o 2º mandato do Aécio no governo de Minas, ao qual presto serviço não remunerado. Trabalhei para eleger Dr. Heber, em Guaxupé, subi em todos os palanques com ele. Se necessário, não enjeito uma luta, tô com meu partido e não abro.
Atualmente, continuo eleitor em Guaxupé, nunca transferi meu domicílio eleitoral. Todo mês venho pra cá, fico na chácara onde se reúne toda a família. Leio de tudo, mas detesto computador, acho uma invasão de privacidade tremenda.”

Atualmente, Luiz Vicente tem cinco netos: Mateus, Lívia, Antonino, Luíza e Tiago. Além de Guaxupé, costuma descansar em um recanto ecológico, na Serra da Moeda, que após três anos de luta, na qual Luiz Vicente manteve intensa participação, se tornou parque estadual de reserva florestal, ambiental e paisagística de BH.

Foto:
Em 1991, Luiz Vicente, Zélia, Rúbria, Fernando (genro), Mateus e Lívia (netos), Andréa, Luiz Filho, Raquel, Sálvio Neto e Lucas.


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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

de volta ao passado

A guaxupeana Magda Tereza Francischetti nasceu em 25.07.45, segunda filha de Thereza Miqueri Francischetti e Vicente Francischetti. Irmã de Edna e dos gêmeos João Carlos e Carlos Vicente. Como ela mesma diz, sua casa na Rua Aparecida, antes ponto de encontro da família, atualmente, é ponto de resistência numa região de muitos comércios. Dentro do possível, Magda conserva diversos aspectos da construção original. O mobiliário antigo confere um charme especial à decoração da casa para onde Magda retornou há doze anos, depois de viver 29 anos em Brasília. E a mudança foi radical, de garota “dos cocos”, falante e extrovertida, com a maturidade, tornou-se mais reservada, paciente e tolerante. Adotou a quietude por opção.

“Nasci na rua da cadeia, na casa onde depois foi a bicicletaria do seo Geraldo Anchieta. Meus irmãos e eu nascemos pelas mãos da Piedade, uma parteira que morava depois da ponte do Taboão. Quando nasci, papai tinha uma barbearia no prédio do Vicente Casagrande, na avenida. No final de 1947, nos mudamos para a Rua Aparecida e a barbearia passou a funcionar num cômodo na frente de casa.
Minha mãe era costureira, desde seus treze anos. Ela usava duas chapeleiras com espelhos nas provas de roupas das freguesas. Até hoje, conservo uma delas comigo, Edna ficou com a outra. Meu pai herdou estas chapeleiras do pai dele, anteriormente, ambas ficavam na barbearia.
Papai era uma pessoa jovial e alegre. Quando solteiro, ele cantava nos encontros beneficentes da Sociedade Italiana, situada onde hoje é o Rotary. Ele foi muito companheiro dos filhos. Sempre fez questão de nos acompanhar aos bailes. Dançava a primeira e, muitas vezes, a última valsa comigo e com minha irmã.
Minha infância se resumia às brincadeiras no quintal, na rua, na Praça do Rosário ou debaixo dos pés de ipês. Em nossa rua havia muitas crianças. A gente costumava brincar de bandido e mocinho no barracão do Toninho Borges. No quintal, havia, também, jabuticabeiras, uma vez, caí de uma delas e fui carregada para casa. Eu era muito danada, estava sempre me machucando, mamãe vivia assustada comigo.
Por volta dos meus oito anos, calçaram nossa rua de terra com paralelepípedos. Seo Aníbal, prefeito, estava sempre acompanhando e fiscalizando a obra. Enquanto calçavam o trecho em frente determinada casa, o morador ficava responsável pelo lanche dos trabalhadores.
Aquilo era uma grande novidade pra criançada. Depois da escola, meus amigos e eu nos reuníamos para tapar o espaço onde, posteriormente, seria feito o meio-fio, com pedrinhas, que martelávamos com cuidado. Mesmo sendo brincadeira, era nosso jeito de participar. Um dia, ao atravessar uma tábua de madeira, caí no buraco onde seriam colocadas as manilhas, tirando um bife do pé.
Nossas brincadeiras habituais eram amarelinha, bola na parede, batatinha-frita, pular corda. Na casa dos Zaiat, as meninas - Leda, Sonia, Nesmar e Diana - faziam circo e chamavam as outras crianças para assistir. Como nossa turma era imensa, tivemos diversas casas para brincar.
Os amigos também se reuniam nas portas das lojas da Rua Aparecida. Só na minha casa havia duas portas comerciais, uma da barbearia, outra da Casa Trevo, mais conhecida por loja da Thereza, onde mamãe vendia armarinhos e outras miudezas.
Todo mundo gostava de tomar café sírio, sem coar, na loja do seo Habib, em frente à nossa casa, onde minha mãe comprou meu 2º sutiã, com espartilho e de cetim rosa. Naquele tempo as moças não experimentavam roupas íntimas nas lojas, mas nas suas próprias casas.

Um mundo bom
Com seis anos fiz o pré-escolar no Colégio Imaculada Conceição. Tia Bebé (Shirley) me levava, mas ela precisava ir embora pé ante pé, sem que eu percebesse. Eu era brava, não queria ficar no colégio de jeito nenhum.
Comecei o primário em 1953, no Grupo Barão de Guaxupé, que ocupava o mesmo prédio do Delfim Moreira. Fui aluna da dona Nilva Pinto, Ruth Lessa e Lila Lepiane. No primário comecei a gostar de estudar, a escola passou a ser um mundo bom.
No 3º ano, participei de um teatro da Branca de Neve, fui o esquilo. Minha mãe fez um belo rabo de tricô para mim. Lembro o cheiro do cipreste do cenário da peça, atrás do qual ficava o esquilo.
Adorava brincar no pátio da escola, onde participei de um bailado, como uma florista que dançava e cantava com uma cesta de flores, pra lá e pra cá. No pátio também aconteciam quadrilhas juninas, que eu adorava.
Em 1957, voltei para o colégio das freiras, onde concluí o ginasial e, em seguida, o curso normal. Uma vez, minha turma de normalistas teve um desentendimento sério com as freiras, todas as alunas entregaram as provas em branco. Combinamos que faríamos isso caso determinado conteúdo entrasse na prova. Minha mãe ficou bastante chateada com a situação, porque teve que comparecer ao colégio. Ela achava que eu deveria seguir as regras.
Dona Maria Luíza Magalhães foi nossa professora de ginástica e esportes. Eu era muito indisciplinada, gostava de fazer jogadas individuais no basquete. Gostava dos jogos de queimada e de saltos à distância. Não gostava das aulas de ginástica. Por volta dos treze anos, cheguei a ficar afastada dessas aulas por seis meses, sentia dor na hora das abdominais, não podia fazer esforço devido a uma ruptura de nascença no umbigo.

Os quitutes do Francischetti
As sessões do Cine São Carlos eram um encontro social, a gente se arrumava para ir ao cinema. Depois dos filmes, na praça do coreto, as moças davam voltas em um sentido e os rapazes em outro, para facilitar os flertes.
Meus tios Angelim e Antônia Francischetti tinham um boteco na esquina da nossa rua, onde depois foi o famoso Francischetti Lanches, dos primos Walter e Hélio. Eu era encantada com o pudim de farinha de trigo que eles faziam e colocavam na vitrine, cada pedaço separado do outro com papel manteiga.
Guardo a imagem nítida do tio Angelim furando figos para fazer doces. Também era louca pelas balas, Chita, Toffe, Déa... Por este motivo, ganhei do Walter um dos seus baleiros e, de quebra, o luminoso que ficava dentro do bar. Também me deu a receita do bolo com cobertura de doce de leite com coco que vendiam quando eu era pequena.
Uma vez, tia Antônia fez um caldeirão de coxinhas congeladas para eu levar para Brasília. Em 1999, quando retornei a Guaxupé, ia muito ao Francischetti. Difícil era comer um salgadinho só, Hélio sempre insistia pra eu comer mais um.
Quando meus tios fecharam o boteco, abriram uma sorveteria, na porta de cima, onde vendiam sorvetes mais sofisticados, como sundae e banana split. Minha paixão eram os picolés de salada de fruta. Tinha mais ou menos quinze anos, ficava escondida com o namorado, na esquina. Cida Miqueri, minha prima, assobiava quando meu pai abria o portão de casa, e eu corria para a sorveteria fingindo estar lá.

Uma trabuzana na roça
Em 1964, com o diploma de normalista, passei no concurso estadual para professor. Fui chamada para lecionar na Escola Cardosos, uma sala de 1ª à 3ª série, situada na fazenda do seo Otávio Barbosa, um grande amigo da escola. Ele me dava carona, ensinava os alunos a plantar café. Uma vez, durante a hora cívica, não havia bandeira do Brasil para ser hasteada. Seo Otávio chegou atrasado, mas a tempo, com uma bandeira confeccionada por minha mãe.
Eu ficava hospedada na casa da dona Josina, caseira da fazenda. Vinha para Guaxupé todo final de semana. Para ir e voltar, pegava carona com seo Otávio, com o caminhão de leite do seo Alabarce. Às vezes, com seo Luís Borges que levava as professoras até São Pedro da União. Ele me deixava na encruzilhada, onde um aluno, José Luís Vilas Boas, me esperava e me acompanhava, a pé, pelo resto do caminho.
Aprendi muito com essa experiência. Ensinei as crianças que não tinham recursos para comprar lápis de cor, a pintar com flores e folhas coloridas, que esmagadas soltavam cor. Eu apanhava para decifrar certas palavras que os alunos escreviam nas redações. Pedia para dona Josina me ajudar. Uma vez um escreveu ‘invinha uma tribuzana de chuva’. Demorei a descobrir que trabuzana era o mesmo que temporal. Meus alunos fizeram um levantamento com seus pais sobre o vocabulário próprio do lugar. Fomos corrigindo hábitos errados, como trocar guarita por gurita.
Em 1966, comecei a estudar Matemática, na Fafig, mas logo mudei para Pedagogia. Em 1967, fui transferida para o Parque Infantil, com ajuda do seo Romis Nicolau, que era muito ligado a José Maria Alckmin, do governo de Minas.
Estudei por quase nove anos piano com dona Edméa Zerbini. Em 69, fiz preparação para o conservatório com professores do Carlos Gomes, em São Paulo. Nessa época, cheguei a estudar piano dez horas por dia. Mas acabei não dando continuidade, pois me mudei para Brasília após minha formatura na faculdade, em janeiro de 1970.

Carreira educacional em Brasília
Conheci Brasília em 1963, com tia Bebé, Edna e mamãe, numa visita a tio Napoleão, um pioneiro na capital brasileira. Em 1968, Edna se casou e se mudou para lá. Minha monografia para conclusão de curso foi sobre Tropicalismo, dentro da cadeira de Cultura Brasileira, do professor Elias José.
Minha irmã, que dava aulas na escola experimental de 2º grau da UnB, me indicou algumas pessoas do departamento de música para me auxiliarem na pesquisa da monografia. Este contato com a parte acadêmica e cultural do distrito federal favoreceu minha mudança.
Quando cheguei a Brasília, passei no vestibular para o Instituto Básico de Artes da UnB. Fiz dois anos de Música e três anos e meio de Arquitetura. Estudava de manhã, trabalhava à tarde e à noite. Não cheguei a concluir o curso, pois fiquei esgotada com o ritmo puxado.
Simultaneamente, fui aprovada em dois concursos, um para lecionar em escola particular, outro, em escola pública. Passei nos dois. Comecei a trabalhar na particular, na 1ª série do primário, mas logo fui chamada para dar aulas pela Fundação Educacional numa escola em Taguatinga, depois, como assistente de direção em Gama, cidades-satélites de Brasília.
Em seguida, fui chamada para a administração central, onde passei a fazer serviços técnicos. Em 1972, passei no concurso para inspetor de ensino da Secretaria de Educação, o único específico dessa área realizado em Brasília até hoje.
Em 1975, meus pais e os gêmeos se mudaram para Brasília. Desde 1972, eles me visitavam com frequência. Ficamos morando todos juntos. Em 1978, meu pai faleceu e, mamãe, dez anos depois.
O trabalho foi um eixo fundamental na minha vida. Mas nunca deixei de lado as atividades culturais. Na universidade sempre aconteciam eventos artísticos, como concertos e shows. Eu não perdia nada. Teve uma época em que a vida cultural de Brasília foi muito pobre, somente em meados da década de oitenta começou a melhorar.
A partir de 1979, comecei a viajar mais. Em todas as férias eu ia para alguma praia do Nordeste, Espírito Santo ou Rio para relaxar e paquerar.
Em 1986, com um grupo de técnicos em Educação, tanto do DF quanto do MEC, fundamos uma associação para lutar pelos interesses da nossa categoria. Fizemos várias sugestões para a Constituição de 1988. Uma das aprovadas foi a licença maternidade para mães adotivas.

Temporariamente sozinha
Em 1994, logo após minha aposentadoria, comecei a participar de um grupo de Psicanálise, indicado por um colega de trabalho que, também, foi meu namorado e companheiro durante sete anos.
Em 1999, já estava apta a clinicar, mas decidi voltar para Guaxupé. Havia iniciado uma reforma na antiga casa dos meus pais, na Rua Aparecida, e quis acompanhar, pessoalmente, meu projeto de restauração. Também queria estar mais perto da tia Bebé, que andava sentindo-se muito sozinha e com a saúde abalada.
Colaborei com a Casa da Cultura na execução do 1º Aconteceu em Guaxupé, Reviva!, em 2009, e no planejamento institucional da gestão 2010/2012. Planejo voltar para Brasília, que não visito há mais de um ano. Sempre fui muito participante da vida dos meus sobrinhos. Mesmo à distância, mantemos contato constante.
Antes, eu lia seis horas por dia, atualmente, nem duas. Todo dia caminho com minha tia. Nos finais de semana tenho mais tempo livre. Assisto a concertos de música pela TV, escuto meus discos. Digo que estou temporariamente sozinha.”
Há três anos, toda semana, Magda participa de leituras do Evangelho com um grupo espírita. Segundo ela, mais que religioso, é um exercício cristão. Como pessoa interessada na Psicanálise, ela não pode se fechar a uma única visão.

Fotos:
1) A pequena Magda no dia do batismo, no colo da mãe, com o pai e a irmã.
2) A jovem Magda, aos quinze anos.
3) Os irmãos Magda, Carlos Vicente, João Carlos e Edna.
4) Há dez anos, tia Bebé e a sobrinha Magda.
5) Zezé, o casal Vinícius e Neide, os irmãos Magda e Carlos.


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quarta-feira, 17 de agosto de 2011

o prazer é meu

A Associação Vira-latas do Samba participou da Semana Elias José, de 11 a 13, na realização da Literatura de Gente Grande, na Casa da Vó Maria. Foram três dias de encontros diversificados, com ênfase nos contatos humanos prazerosos que a ocasião proporcionou. Na quinta, os atores do 14 Bis encantaram os presentes com a dramatização do texto Pássaro em Pânico, de Elias José, seguido da participação especial do músico e compositor Edson Parizi.

Agende-se para assistir à peça O Prazer é Meu, encenada pelo Grupo Teatral 14 Bis, com pré-estreia marcada para o próximo domingo, 21, às 19h30, no Teatro Municipal de Guaxupé.



Literatura de Gente Grande - quinta


Na sexta, foi a vez de Ana Luíza de Souza, secretária da Ação Social, fazer o lançamento do livro Confidências de Mulheres In-visíveis do Jequitinhonha, com direito à contação de diversos causos verídicos, seguidos de uma gostosa dança circular conduzida por Mila Russo Calil, diretora da ONG Angakira e da Associação Vira-latas.

Depois, no Cinemaria, "patrocinado" pelo Instituto 14 Bis e por Vanessa Marques, diretora do Tramas & Dramas, o filme Meu Mundo em Perigo, que rendeu o prêmio de melhor ator no Festival do Cinema Brasileiro de Brasília ao guaxupeano Eucir de Souza, protagonista do filme.



Literatura de Gente Grande - sexta


E no sábado, último evento para "gente grande", um expressivo número de pessoas participou do lançamento do livro Sobre Meninos e Velhos, que reúne sete contos de Carolina Borges, escritora e coordenadora do Instituto Cultural Elias José. Atores do grupo teatral Tramas & Dramas fizeram uma leitura dramática de um dos contos, Genaro e Dora, emocionando a plateia. Depois foi a vez da banda Dona Urtiga agitar a Casa da Vó Maria com seu sua música brasileira poético-irreverente.



Literatura de Gente Grande - sábado


A Associação Vira-latas do Samba agradece o ICEJ - Instituto Cultural Elias José pela oportunidade de participar da realização dessa 1ª semana literária, bem como de conhecer e interagir com alguns artistas, poetas e escritores que participaram do evento. Valeu!


Em busca do prazer perdido...

Uma reportagem sobre ECONOMIA na TV mostrou um dos oito moradores de uma casa contando que eles têm 6 TVs de LCD e 5 computadores, tudo comprado à vista. O fundamental, nessa reportagem, vai bem além dos números, passando por nossos valores culturais. Imagino que é isso mesmo que o mundo capitalista espera de nós para que, cada vez mais, possamos ser manipulados. A gente toma tantas porcarias como exemplo que acaba se espantando com atitudes corretas como às quais são submetidos os parlamentares suecos:



Enquanto isso, a câmara legislativa de Guaxupé se prepara para aumentar o número de vereadores. Este ano as Câmaras Municipais de todo o país terão até setembro para decidir se modificam as Leis Orgânicas, permitindo o aumento do número de vereadores nas Casas Legislativas.

Com isso, Guaxupé, dentro das faixas populacionais (com cerca de 49 mil, de acordo com o último censo), pode ter no mínimo nove vereadores (atualmente são 10) ou atingir o número máximo, passando para treze vereadores na legislação a partir de 2013. O que você acha disto?

terça-feira, 16 de agosto de 2011

uma senhora que ama a vida

Alice da Cruz Silveira nasceu na zona rural de Guaxupé, em 15.09.1918, a quinta dos doze filhos de Iracema Cruz da Silveira e João Albano da Silveira. Fazedeira de arte na infância e juventude, a mocinha tornou-se esposa e, depois, viúva do Dufo; mãe de Olga, Osmar, Geci, Olavo, Élena, Eurípedes e Darci. Atualmente, Alice tem vinte e dois netos e vinte e nove bisnetos, não se esquece do aniversário de nenhum. Mesmo tendo adotado a doutrina espírita há muitos anos, quando um deles lhe pergunta o que ela diria caso o marido viesse buscá-la, responde, prontamente: “Me deixa ficar mais um pouquinho.”

“Nasci na fazenda Jabuti, do Augusto Cardoso, onde meu pai trabalhava como administrador. O trem da Mogiana passava na porta da cozinha de nossa casa. Minha irmã, Landa, mais nova um ano e oito meses, e eu éramos as artistas da família, as fazedeiras de arte. A gente subia no mamoeiro do quintal para pegar folhas e, com elas fazer sombrinhas e roupinhas para os bonecos de sabugo de milho.
Vivíamos em cima das árvores, nas jabuticabeiras do mato, altas que nem poste. Ficávamos chupando jabuticaba e enchendo os emborná, quietinhas, para ninguém nos ver. Com dez anos, já montava no cavalo em pelo, com Landa na garupa. Uma vez, pegamos um cavalo bravo e, ao forçar o galope, caímos e nos machucamos, mas nada grave. Nossa mãe ficou muito brava.
Nós duas estudamos na escolinha da fazenda do Zé Tomaz. Fui alfabetizada entre oito e dez anos, pelo professor Antônio Paulino. Depois dele, estudamos com Zé Homem, um professor muito bravo, que batia nos alunos com palmatória e vara de marmelo. Eu morria de medo dele, nunca dei motivos para apanhar.
Os filhos do chefe da estação Jabuti, Sebastião, Alaíde e José Pedroso, esperavam minha irmã e eu na linha do trem, perto da estrada que levava à escola, para onde seguíamos juntos. Tinha um namoro de criança com José. Quando o professor soube deste fato, mas não conseguiu obter nossa confirmação, nos colocou de castigo, ajoelhados na porta da escola. As pessoas passavam, olhando para nós, eu chorava de vergonha e o Zé morria de tanto rir. Anos mais tarde ele quis pedir minha mão em casamento, mas não deixei. Tinha irmãs mais velhas e ainda solteiras, meu pai era muito bravo, não me deixaria passar na frente delas.
Quando começamos a ler livro e fazer conta, papai nos tirou da escola. Dizia que mulher só precisava saber assinar o nome na certidão de casamento. Passamos a fazer serviços de casa pra nossa mãe. Socava arroz no pilão de madeira, Landa de um lado, eu do outro. No fim do ano, quando colhia muito arroz, papai deixava a gente abanar a palha e ficar com um pouco da colheita, que vendíamos para comprar ramoninha (alpargatas de florzinha), sapatinho, roupa e sombrinha na venda do Inhozinho, que depois passou para o Luiz Gordo.
Da Pratinha até a Jabuti havia muitas fazendas, toda semana acontecia festa em alguma delas. Meu pai gostava de jogar truco, então, o levavam para algum quartinho e, enquanto jogava, minhas irmãs e eu dançávamos com os rapazes, escondido. Também frequentávamos a igrejinha do Zé Coelho, nos Cardosos, em datas especiais, quando tinha reza (novena), missa e leilão. Todo mundo que morava na roça, ia. Era uma ótima ocasião para paquerar. Fui muito namoradeira (risos).

Casamento, aos dezesseis
Minha vida foi assim até os dezesseis anos. Nessa idade, comecei a namorar Domiciano Irineu da Silveira, toda vida conhecido por Dufo, um primo de 2º grau que morava na fazenda do Corgo Fundo (Córrego). Antes de mim, Dufo foi noivo três vezes. Eu falava que não queria casar, porque tinha outros namoradinhos. Enrolei o quanto pude, até que firmamos namoro.
Nos casamos na igrejinha que depois foi derrubada para construção da Catedral. A igreja era tão pequena quanto o cemitério da cidade, situado onde hoje é o Parque Infantil. Padre Eusébio não queria fazer nosso casamento, primeiro, porque os noivos eram parentes. Depois, porque meu cunhado, Geraldo, era espírita e amigo do seo Raimundo Macedo, também espírita, e um dos convidados para o casório. Todo mundo ficou sentado, na igreja, de braços cruzados, esperando a vontade do padre. A cerimônia, marcada para a parte da manhã, aconteceu somente no final da tarde.
Mamãe ficou no sítio preparando a festa, preocupadíssima com nossa demora (nessa época, morávamos num sítio que papai havia comprado, próximo à fazenda Santa Elza; meu avô paterno, Urbano, morava com a gente). Chegamos com os convidados quase à noite. O povo foi embora só de manhã, depois de tomar café. As festas eram sempre assim, antes de raiar o sol ninguém ia embora. Era todo mundo muito amigo e compadre um do outro.
Ficamos dois dias com meus pais. Antes de irmos para a Corgo Fundo, de charrete, passamos na loja dos Sabbag para fazer compras. Não se usava dar presente de casamento. Os únicos que ganhei foram um joguinho de café, meia-dúzia de xícaras, uma jarrinha e um porta-copo com três copos. Compramos tudo que precisávamos para nossa casa, desde baldes e panelas a guarda-louça, mesa e cadeiras.

Costura, linguiça e crianças
Meu marido trabalhava com o pai, na fazenda. Eu cuidava da casa e cozinhava. Lá, tivemos três filhos: Olga, Osmar e Geci. Casei muito nova. Mesmo sendo mãe, continuava subindo nos pés de frutas. Dufo ficava doido comigo porque eu fazia muita arte. Tio Francisco, meu sogro, tinha medo que eu caísse de alguma árvore.
Dufo insistiu para eu começar a costurar. Minha mãe foi uma grande costureira, mas eu aprendi sozinha. Minha sogra, tia Chiquinha, me passou umas dicas e descobri que tinha jeito pra coisa. Daí, meu marido me deu uma máquina de costura e não parei mais.
Seis anos depois, nos mudamos para a Monte Alto, do seo Esmerino Leite Ribeiro, onde vivemos por sete anos e tivemos mais três filhos: Olavo, Élena e Eurípedes. Dufo fazia as escritas do armazém da fazenda, que ficava emendado na nossa casa, e onde os colonos faziam compras às sextas-feiras.
Toda semana, matavam três capados. Dona Sebastiana, mulher do seo Esmerino, vendia linguiças e queijos em Guaxupé. Quando ela vinha pra cidade, deixava o serviço por minha conta. Eu fazia aquelas bacionas de carne moída para encher as linguiças, que depois pendurava num bambuzinho para enxugar, na cozinha de casa.
Muitas vezes, Joaquim Pedro, um dos filhos do casal, chegava com os amigos e pedia para eu fazer o almoço, depois, bolo para o lanche. João, Mica e Lourdes, também filhos dos donos da fazenda, costumavam cantar e embalar minhas crianças, que dormiam em balaios de taquara pendurados no teto, como berços, confeccionados por vovô Urbano.
Depois de casada, passei a frequentar o centro espírita, com meu marido. Vínhamos para a cidade cada um montado em um cavalo, uma ou duas vezes por mês. Saíamos às cinco da tarde e voltávamos de madrugada. As crianças ficavam com Benvinda, mulher do seo Zequinha, horteleiro da fazenda.
A vida longe da cidade, com crianças pequenas, era muito difícil. Uma vez, Olavo pegou cárie no osso, necessitando de atendimento médico continuado, com Dr. Jeremias, que tinha consultório na Rua João Pessoa.
Depois da Monte Alto, nos mudamos para a Mata, um sítio grande do meu sogro, onde vivemos durante três anos. Trabalhei demais nesse lugar, cozinhava para todos os lavradores. Quando meu sogro faleceu, Dufo recebeu esse sítio de herança e o vendemos para Joaquim Pedro.

Os sorvetes do Dufo
Viemos morar na cidade, numa casa onde, hoje, é a Telemar, e meu marido comprou um barzinho que, depois, foi o consultório do Dr. Sylvio Ribeiro do Valle. Meus filhos foram estudar no Grupo Delfim. Eu ajudava Dufo no bar, fazendo frango e leitoa para os aperitivos. Era uma vida sacrificada, por este motivo meu marido vendeu o bar.
Fomos morar numa casa na grande avenida, onde tivemos nossa filha caçula, Darci.
Nessa época, meu marido sofreu um revés financeiro, perdendo todo seu patrimônio, inclusive um sítio pertinho da cidade, que precisou vender para seo Herculano Rezende, um grande amigo da nossa família. No início de 1949, nos mudamos para um imóvel que fora do meu cunhado, Antônio Emídio, na esquina da Rua Aparecida com a Francisco Vieira do Valle.
Na frente da casa, meu cunhado tinha o Mercadinho Aparecida, que passou a ser conhecido por venda do Dufo. Eu fazia de tudo, até os doces e salgados da venda. Após os primeiros anos, colocamos nossas contas em dia e compramos uma máquina de fazer sorvetes. A partir daí, nossa vida começou a melhorar.
Inicialmente, o homem que vendeu a máquina nos ensinou a fazer sorvete, usando metade leite, metade água. Não dava certo. Aí, seo Herculano falou para Dufo que tinha um cunhado, João Botinha, que acabara de vender uma sorveteria em Juruaia e entendia do negócio. Ele ficou dez dias conosco, nos ensinando a fazer sorvetes, de massa e palito. Todos os nossos filhos também aprenderam, passando a nos ajudar.
Eu cozinhava um mingau no fogão à lenha, que depois colocava para bater na máquina. Mas meu marido preferia mexer a massa, manualmente. Conforme o sabor, a gente acrescentava milho verde, pedaços de ameixa, coco, todos com fruta natural. Vendia sorvete que nem canela.
Nos finais de semana aconteciam jogos de futebol nas fazendas, para onde os vendedores levavam isopores cheios de sorvete. Não me esqueço do seo Antenor, sorveteiro, que vendia sorvetes de palito numa carrocinha bem-arrumadinha, puxada por um jumentinho. Um dia, ele pegou os sorvetes na venda, mas não foi muito longe, sentiu-se mal e morreu.
Os médicos e as freiras da Santa Casa também mandavam buscar muito sorvete. Muitas vezes, Dufo dava sorvete de presente às freiras, porque Olga, nossa filha, sofria de bronquite e estava sempre no hospital, onde era muito bem tratada. Mesmo depois que encerramos a fabricação, Dr. Roberto Magalhães, quando se encontrava comigo, sempre se lembrava do nosso sorvete.

Mudança pra Vila Rica
Aníbal Ribeiro do Valle não saía da nossa venda. No dia em que ganhou a eleição para prefeito, ficou com a gente o dia todo, ouvindo a contagem dos votos pelo rádio. Osmar, nosso filho, trabalhou como cabo eleitoral dele.
Enquanto prefeito, Aníbal convenceu meu marido a comprar, em prestações, um terreno no pasto dos Durante, onde estavam iniciando a Vila Rica. Depois que construímos nossa casa neste bairro, tivemos que alugá-la, pois nenhum de nós quis se mudar para lá.
A Rua Aparecida era muito animada, as barraquinhas das festas de Nossa Senhora Aparecida chegavam até nossa casa. Somente depois que Dufo se aposentou e nossos filhos estavam casados, passamos a venda para Olga, nossa primogênita, e nos mudamos para a Vila Rica, por volta de 1980.
Meu marido, não conseguiu sossegar, passava na venda todos os dias. Há 29 anos, ele morreu, enquanto se restabelecia de um derrame. Olga também faleceu, dez anos atrás. Só tenho um irmão vivo, Orivaldo, que mora em Campinas. Quando visitei minha irmã, Landa, que estava muito doente, à beira da morte, disse a ela: Sempre acompanhei você em tudo, mas, nessa, eu não vou, não (risos). Mesmo com as dores e algumas doenças da idade, eu gosto da vida.”
Alice viajou umas quatro vezes para Natal, RN, onde Geci, sua filha, mora com a família há vinte anos. Ela já pilotou (e caiu) de um triciclo em uma duna no morro do careca. Se pudesse, continuaria subindo em árvores, uma grande paixão. Não tem vista boa para leitura, mas ainda pilota sua máquina de costura, fazendo reformas em roupas. A vida toda costurou, principalmente, para as filhas. Atualmente, passa todas as noites com a caçula Darci, mas não gosta de dormir muito.



Fotos:
1) Casamento de Alice e Dufo, em 18 de julho de 1935.
2) Em 99, Alice entre os filhos, a partir da esquerda e em pé: Geci, Olavo, Élena, Eurípedes, Darci, Olga e Osmar.
3) Caricatura que ganhou do neto Edgar no aniversário de 90 anos.
4) A grande comemoração dos 90 anos reuniu familiares e amigos, com presentes em prol do Horto Florestal.


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quinta-feira, 11 de agosto de 2011

literatura de gente grande

A Associação Vira-latas é parceira do ICEJ na realização da 1ª Semana Elias José, que acontece de 11 a 14, e está com uma programação muito interessante e diversificada, para crianças, jovens e adultos:
http://iceliasjose.blogspot.com/2011/07/1-semana-elias-jose.html

Na Casa da Vó Maria, Literatura de Gente Grande, sempre a partir das 20h.

Dia 11 – quinta-feira

20h – Sarau com leitura do texto Pássaro em Pânico, de Elias José, com o Núcleo Teatral 14 Bis.

O Núcleo Teatral 14 Bis é composto por quatro atores profissionais, Laíse Diogo, Renata Alves, Rodolfo Bonifácio e Tuany Mancini. A direção é de Lauro Baldini, doutor em Linguística, professor universitário e psicanalista. O Núcleo 14 Bis, criado em 2009, tem o apoio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura, patrocinado pela Laticínios Aviação. Atualmente, o grupo apresenta a peça O Prazer é Meu, com pré-estreia marcada para o próximo dia 21.08, no Teatro Municipal de Guaxupé.

Após a leitura o palco estará aberto para apresentação dos presentes.

22h – Apresentação do filme “Lóki – Arnaldo Batista” pelo apresentador do programa Sexta do Compositor, Rodrigo Sá. Após a exibição do filme, Rodrigo fará um debate.

Cinebiografia do músico Arnaldo Baptista, ex-integrante dos Mutantes, contada através de um quadro traçado pelo próprio artista. A pintura é intercalada com imagens históricas que remetem aos principais momentos de sua trajetória artística, que fizeram dele um dos grandes nomes do rock brasileiro.

Dia 12 – sexta-feira

20h – Lançamento do livro “Confidências de Mulheres In-visíveis do Jequitinhonha”, de Ana Luíza de Souza.

Ana trabalhou e se apaixonou pelo Vale do Jequitinhonha e lá aprendeu que a vida é muito mais complexa e muito mais bonita. Seu olhar repousou com especial carinho sobre as histórias das mulheres do sertão. Em meio ao misto de sensações, indignação com admiração. Indignação, por presenciar situações trágicas que só imaginava existir nos romances ou em filmes, e admiração, porque, apesar de tudo, ainda tinham forças para carregar o mundo em suas costas, Ana transformou tudo isso em histórias, causos contados com o coração aberto e generoso de uma legítima mineira.

O livro reúne na íntegra doze histórias e mais fragmentos de tantas outras. Reúne, sobretudo, sintetizado na sua publicação o poder dos sonhos, o valor da amizade e a garra das mulheres.

21h – Apresentação de dança circular.

22h – Exibição do filme “Meu mundo em perigo”, prêmio de melhor ator no Festival de Brasília para Eucir de Souza.

Elias (Eucír de Souza) entra em parafuso quando sua ex-mulher, uma viciada em recuperação, pede a guarda de seu filho. Desesperado, após causar a morte de um homem em um acidente de trânsito, ele se esconde em um hotel decadente no centro de São Paulo. Lá está hospedada Ísis (Rosanne Mulholland), uma jovem que Elias encontrou na rua, quando notou que a carteira dela tinha caído. Ísis também enfrenta problemas pessoais e, assim como Elias, busca um novo sentido para sua vida.

Dia 13 – sábado

20h – Lançamento do livro “Sobre Meninos e Velhos”, de Carolina Borges.

Carolina Borges nasceu em São Paulo em 1976 de onde saiu com 2 anos e nunca mais parou. Hoje, coordena o Instituto Elias José em Guaxupé, onde vive com seu marido, Rodrigo.

"Num texto fluente, que se lê quase que de um fôlego só, os sete contos reunidos em “Sobre meninos e velhos” revelam uma observação sagaz do cotidiano. São cenas de pessoas comuns, lidando com suas grandes e pequenas dores e delícias. O viés é decididamente contemporâneo: a compulsão pelo light e diet representando a negação da vida que a rigor deveria justamente afirmar; a solidão de pessoas tão geograficamente próximas quanto estranhas umas às outras; as dificuldades dos imigrantes para entrar numa realidade completamente diferente de onde vieram... A construção dos personagens e de suas ações é tão viva que em alguns momentos quase podemos enxergá-los, como se estivéssemos vendo um filme. O texto é temperado com humor e por vezes joga com propriedade com o elemento surpresa." (Adélia Borges)

www.sonhosdeorieta.blogspot.com

21h – Leitura dramática do conto “Genaro e Dora” com o Grupo Tramas&Dramas.

O Grupo Teatral de Repertório “Tramas e Dramas” foi criado pelos amigos Ernani Sastre e Arlete Mendes. Como sua primeira montagem encenaram “O Defunto” de René de Obaldia. Este espetáculo delineou uma das características mais marcantes do grupo: peças com curta duração, mas profundas, dando margem à abertura de discussões sobre o universo psíquico humano. “Esta Propriedade Está Condenada” de Teneessee Williams é o segundo espetáculo do grupo. Essa montagem somou a intimidade que os atores Arlete Mendes e Ernani Sastre têm em cena e na vida, com o perfeccionismo da diretora Vanessa Marques, mais a experiência de carreira do ator Eucir de Souza, que contribuiu muito com o grupo como preparador dos atores.Em processo de montagem está “Genaro e Dora”, espetáculo autoral e criação coletiva baseado no conto de Carolina Borges. Uma nova geração de atores (Daniele Mariano, Felipe Alves, Willian Rodrigues – ex-alunos de teatro de Arlete e Ernani) estará em cena juntamente com os fundadores do grupo, um reencontro com Leonardo Lutf (que já atuou com essas pessoas anos atrás), sob assessoria de Eucir de Souza e direção de Vanessa Marques.

21:30h – Apresentação musical com a Banda Dona Urtiga, composições próprias.

Dona Urtiga nasceu do encontro de amigos de infância e outros que foram aparecendo pelo caminho. Amigos unidos por afinidades musicais e afetividade para além da vida. Foi batizada com o nome de uma das músicas pelo baixista Tolly Lucas. A proposta é mesmo “pinicar”, como sugere a planta que, em contato com a pele, provoca uma incômoda coceira. As composições sugerem transformações na alma e sonoridades que desconcertam, descontinuam, pinicam.

Formada por Rodrigo Sá, voz, violão, contra-baixo e quinquilharias sonoras; Mariana Taddeo na flauta transversal e percussão; Tolly Lucas no contra-baixo acústico; Marcelo Taddeo na percussão, violão, voz e quinquilharias sonoras; e Pedrinho Marques na percussão, violão, contra-baixo e voz.
Em Guaxupé, a banda acaba de agregar três músicos aqui da terrinha: Thairony Thomaz, violão e voz; Daniel de Oliveira, violão e voz; e Fabrício Zingara Fain, voz, piano e teclados. O show conta, ainda, com a presença do urtigueiro, Pedro Marques.




+ CINEMA GRATUITO

De 6 a 13 acontece, também, a 2ª Semana de Literatura Arte e Lazer da Casa da Cultura. Haverá exibição de vários filmes, confira a programação completa:
www.casadaculturaguaxupe.com.br

E NO INTRÉPIDO CINECLUBE 14 BIS,
confira os filmes da Mostra Internacional de Curtas de BH, todas as sextas de agosto.

domingo, 7 de agosto de 2011

a rainha da torcida

Fátima Cury Nasser nasceu em 25.11.1934, em Guaxupé, filha do casal de imigrantes sírio-libaneses, Lidia Sabbag e Elias Cury. Irmã de Lorice, Kaled (já falecido), José e Nádia. Há quarenta anos, Fátima vive em Mococa, para onde se mudou para acompanhar o marido e acabou construindo uma nova vida. Mas ela nunca cortou os laços com os familiares e amigos, nem com a terra natal, que visita constantemente. Fátima foi a primeira rainha da Festa das Orquídeas de Guaxupé, em 1953, com direito a discurso escrito pelo vereador Tufi Silva, em que agradece aos “queridos vassalos” por ter sido eleita. Começou a torcer pelo São Paulo Futebol Clube junto com os irmãos, depois, com o marido, com os filhos e, agora, com os netos. Assistir aos jogos no Morumbi é sempre uma grande aventura para ela.

“Nasci na casa dos meus pais, na rua da cadeia. Eu era nenezinha quando minha família se mudou para São Paulo, de onde guardo poucas recordações. Voltei a Guaxupé com quase cinco anos. Fiz a viagem de trem com minha avó paterna, Futina, que estava em São Paulo para ajudar mamãe no parto da minha irmã caçula.
O trem fazia baldeação em Campinas, a viagem durava quase um dia. Ajudei vovó a se comunicar, pois ela não falava uma palavra em português. Eu não sabia falar o árabe, mas entendia tudo.
Fiquei morando na casa dos meus avôs paternos, onde também moravam as tias Fádua e Angelina. Eu gostava demais deles, faziam todas as minhas vontades. A casa tinha um pomar maravilhoso, com jabuticaba, laranja, caqui, caju, mexerica, amora, pêssego... Eu subia no pé para apanhar laranja-lima.
No quintal, havia galinha, carneiro e cabrito. Cuidei de um cabritinho, que levava para pastar num terreno perto de casa. O bichinho era carinhoso como um cachorro, peguei muito amor nele. Ele era terrível, certa vez, fugiu, entrou na casa e comeu todas as fitas de tecido que tia Fádua havia passado ponto ajour para uma freguesa. No dia em que mataram o cabritinho, não me sentei à mesa, chorei demais.
Quando minha família voltou de São Paulo, ficamos todos juntos na casa dos avôs, até papai alugar uma casa na Avenida Conde Ribeiro do Valle.
Aos seis anos, eu e minha amiga inseparável, Huguete Zaiat, fomos estudar no Grupo Barão de Guaxupé. Fizemos o primeiro ano como ouvintes, com a professora Nilva Pinto. Depois, Huguete passou para o 2º, mas eu repeti o ano, mesmo tendo boas notas. A professora falou para mamãe que eu não poderia começar o ginasial antes dos onze anos, que daquela forma seria melhor para mim. Não gostei, mas tive que aceitar.
Fui apaixonada por dona Lila Lepiane, professora do 2º ano. No 3º e 4º anos, estudei com dona Luizinha Calicchio. Com o aumento do número de alunos, nossa sala foi transferida para um cômodo nos fundos da escola, situada onde, depois, foi o Hotel Central.
Aparecida Além foi minha colega de classe. A gente trocava de lanche, eu dava a ela meu pão com chancliche e ficava com o pão e mortadela dela. A gente não se sentava em carteiras, mas em mesas para seis alunos. José Ricciardi, Mariberto Remédio, Fábio Monteiro, Mariza Ferraz, Diva Ribeiro e eu dividimos a mesma mesa.

Juventude simples
Depois do primário, entrei na Academia de Comércio São José, onde fiz quatro anos de propedêutico, equivalente ao ginasial, e mais três anos de Técnico em Contabilidade, no 2º grau. Gostava demais do seo Gonela, diretor. Ele era velhinho, quando cochilava, a gente mexia com ele e saía correndo.
Padre José Elias, meu avô, faleceu em outubro de 1952, dois meses antes da minha formatura. Por causa do luto, não pude participar das festividades, fiquei muito triste. Adhemar de Barros, na época governador de São Paulo, foi o paraninfo da minha turma. O baile aconteceu no salão do Faria, pois o clube Guaxupé estava em reforma. Minhas colegas, Teresa Pasqua e Huguete, me contaram que tudo foi muito chique e movimentado, principalmente, por causa da política.
Nos anos de academia, as aulas começavam às sete da noite. A gente saía mais cedo de casa para dar volta na avenida em frente ao Cine São Carlos, onde tinha um serviço de alto-falante. Meu irmão Kaled e Nabih, irmão da Huguete, eram os locutores.
Da academia a gente escutava as músicas, ficávamos doidas para descer. Queríamos dar voltas na avenida e paquerar os moços que vinham de outras cidades. Os moços daqui não gostavam, mas bem que ficavam assanhados quando viam as moças de fora.
Eu não perdia cinema nos finais de semana. Huguete e eu tínhamos passe livre, por causa dos nossos irmãos. Durante a semana, matei aulas várias vezes para ver filmes. Após a sessão de domingo, começavam as brincadeiras dançantes da Associação Atlética, animadas pela Orquestra Marabá, formada por músicos guaxupeanos.
Para eu poder dançar na associação, tinha que levar minha irmã caçula, Nádia, na época com treze anos. Inicialmente, ela detestava, dormia nas cadeiras; com os anos, passou a gostar. Ela, Munira Zaiat e Leda Elias, junto comigo e minhas amigas Huguete e Sonia Elias, costumávamos ir à associação escondido dos nossos pais, depois do cinema, mas voltávamos para casa até 22h30.
Uma noite, perdemos a hora porque estava muito bom. Eu estava dançando, toda feliz, com um viajante da Gessy Lever, com quem flertava. Era quase meia-noite quando olhei e vi meu pai na porta, fazendo sinal para eu ir embora. As outras se esconderam no banheiro.
Ele nos levou para casa, de cara feia, andando na nossa frente, sem dizer nada. Na esquina da Rua Aparecida, dona Angelina Zaiat, muito brava, esperava as filhas, Huguete e Munira. Na esquina de casa, foi a vez da dona Hermínia, mãe da Sonia e Leda, se zangar com elas. Ao chegar em casa, Nádia e eu entramos depressa em nosso quarto, para não apanhar.
Minha juventude foi muito boa, uma vida simples, mas muito gostosa. De dia, ajudava nos serviços de casa e fazia as lições. À noite, ia pra Academia. Depois de formada, não pude trabalhar fora porque meu pai achava que não ficava bem mulher trabalhar no comércio junto com os homens.
Eu costurava minhas roupas e as da Nádia. Ganhava as roupas da tia Angelina e as transformava em novos modelos, que ficavam uma luva em mim. Fiz aula de corte e costura com um senhor chamado Edu Cunha, junto com várias primas.

Rainha das Orquídeas
A 1ª Exposição de Orquídeas aconteceu em 1952, na vitrine do tio Jacob Miguel Sabbag. No ano seguinte, foi realizado o primeiro baile e eleição da rainha das orquídeas, no armazém do J. Marcílio, situado no final da Rua Capitão Joaquim Norberto, que era sem saída (ainda não havia a Praça 1º de Junho).
Paralelamente, a Rádio Clube e Piscina (Country Club) promoveram uma semana de festa, com uma atração diferente a cada dia. Uma delas foi um casamento caipira. Os noivos, Sálvio Campos e Luzia Faria, junto com os padrinhos e eu, uma das madrinhas, fomos levados de carroça, da rádio, onde hoje é o Rotary, até o armazém.
No segundo fim de semana, de sexta a domingo, foi inaugurada a exposição de orquídeas, no salão do Olavo Barbosa, onde, posteriormente, foi a Brasília Modas. Depois que a exposição fechava, aconteciam os bailes, também, no J. Marcílio.
A eleição da rainha foi no sábado. Após anunciar que eu era a vencedora, o presidente dos orquidófilos do Brasil dançou a valsa comigo. Quase morri de vergonha, pois ele dava uns pulinhos durante a dança e eu não conseguia acompanhá-lo.
O baile da coroação aconteceu somente no sábado seguinte. Vários casais dançaram a valsa junto comigo e meu par, João Carlos Farah (João Ratão). Ele, Wadi Sabbag e Jamil Nasser trabalharam pela minha vitória. Os votos eram vendidos, vencia aquela que acumulasse mais dinheiro.
Havia duas candidatas à rainha, Neusa Rodrigues, pelo Núcleo dos Orquidófilos de Guaxupé, e eu, convidada pela Rádio Clube e Piscina. Em 1954, levei na bolsa a faixa de rainha para passar à minha sucessora, Regina Costa Monteiro, eleita no baile que aconteceu no novo prédio do Clube Guaxupé, mas não fui lembrada.

Os tais que não usam Lifebuoy
No final de 1954, comecei a namorar Pedro Nasser. Já o conhecia de vista, desde a época em que, a caminho do açougue do Benedito Passos, no Taboão, eu passava em frente à casa dele, na Rua João Pessoa, 43 (atualmente, Casa da Vó Maria), e o via na janela.
Poucas pessoas tinham carro. A gente costumava dizer de quem era diferente: ‘Eles são os tais que não usam Lifebuoy’, frase de um comercial de sabonete. Nem sei explicar por que a gente falava assim (risos).
Pedro tinha um ‘pejozinho’ amarelo (Peugeot). Ele gostava de fazer gracinha pras moças dirigindo seu carro em alta velocidade, subindo e descendo a Rua Aparecida, levantando poeira. Dona Angelina, uma das moradoras da rua, ficava brava, porque enchia a casa dela de pó.
Um dia, estava na janela de casa, na esquina da Praça do Rosário, quando ele passou e, ao olhar para trás, subiu em cima da calçada na hora de fazer a curva. Eu comecei a rir. Minha vizinha, dona Clotilde Xavier, disse que daquele jeito ele acabaria furando a rua, de tanto passar em frente nossa casa.
Em 1956, nos casamos. Em dezembro do ano seguinte nasceu nosso primogênito, Eduardo. Em 59, Sonia Mara, e a caçula, Jacqueline, em 64. Eu ficava em casa, cuidando dos nossos filhos.
Tínhamos um apartamento em Santos, para onde viajava com a família, mamãe, irmãs, cunhado, filhos e sobrinhos, na nossa perua Chevrolet. As crianças iam amontoadas sobre os mantimentos, colchões e bacias. Na época, não havia nada por lá, levávamos tudo daqui.
Sempre fui muito unida com meus irmãos. Tinha uma afinidade especial com Kaled, nós dois gostávamos das mesmas músicas. Ele comprava discos do Ray Charles para ouvir comigo, em casa. Como ele não tinha vitrola, me dava os discos de presente.


Enfim, comerciante
Meu marido trabalhava na Viação Nasser, que era do pai dele. Estava casada havia dez anos, quando meu sogro precisou, por motivos financeiros, vender a empresa. Pedro continuou com um cargo em Mococa. Inicialmente, ia e voltava todos os dias. Depois, passou a vir para Guaxupé, uma vez por semana.
Nessa época, comecei a fazer produtos de crochê com fios de plástico para vender, como travessinhas, lenços, vestidinhos para crianças e cintos. Minhas tias me ajudavam a arrumar freguesas. Aprendi a ganhar meu dinheiro. Até pouco tempo atrás, guardei um caderninho onde anotava tudo que vendia.
Em janeiro de 1971, fomos morar em Mococa. As crianças tiveram muita dificuldade de adaptação. Vínhamos para Guaxupé todo final de semana e nas férias. Eles eram muito agarrados aos avôs, tios e primos.
Achei melhor, em vez de fazer, revender produtos. Vendi muito chinelo de pele da fábrica da Nilza carneiro, de Guaxupé. Toalhas e crochês da dona Zica, de Muzambinho, e da dona Wanda, de Guaranésia. Há 32 anos comecei a vender Natura e não parei mais. Até hoje conservo minhas freguesas.
Quando meu marido faleceu, em julho de 83, meu pai quis que eu voltasse para Guaxupé. Achei melhor continuar em Mococa, onde havia feito minha freguesia e criado meus filhos. Mas estou sempre, aqui, visitando a família.
Meu filho mora em Mococa, e as duas filhas, em São Paulo, todos casados e com filhos. Viajo muito à capital paulista. Sou torcedora fanática do São Paulo Futebol Clube. Assisti, no Morumbi, a um jogo da Libertadores e três finais de campeonato. Em três ocasiões, trouxe faixas da vitória para os são-paulinos da família.”
Na sua última viagem a São Paulo, Fátima visitou a Rua Neto de Araújo, na Vila Mariana. Ficou emocionada ao rever a casa onde morou com os pais, quando pequena. Muito emotiva, suas maiores paixões são os filhos e os quatro netos: Wilson, Thaís, Aline e Mariana. Além de teatro e cinema, não costuma perder uma boa novela.

Fotos:
1) A pequena Fátima, em meados da década de 30.
2) Casamento com Pedro Nasser, na Igreja Ortodoxa, em 30.09.56.
3) Os são-paulinos Henri Castelli e Fátima, no Morumbi, em 2009.
4) Com os filhos, Sonia Mara, Jacqueline e Eduardo.
5) Entre os netos Aline, Wilson, Thaís e a pequena Mariana.


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