uma senhora que ama a vida

Alice da Cruz Silveira nasceu na zona rural de Guaxupé, em 15.09.1918, a quinta dos doze filhos de Iracema Cruz da Silveira e João Albano da Silveira. Fazedeira de arte na infância e juventude, a mocinha tornou-se esposa e, depois, viúva do Dufo; mãe de Olga, Osmar, Geci, Olavo, Élena, Eurípedes e Darci. Atualmente, Alice tem vinte e dois netos e vinte e nove bisnetos, não se esquece do aniversário de nenhum. Mesmo tendo adotado a doutrina espírita há muitos anos, quando um deles lhe pergunta o que ela diria caso o marido viesse buscá-la, responde, prontamente: “Me deixa ficar mais um pouquinho.”

“Nasci na fazenda Jabuti, do Augusto Cardoso, onde meu pai trabalhava como administrador. O trem da Mogiana passava na porta da cozinha de nossa casa. Minha irmã, Landa, mais nova um ano e oito meses, e eu éramos as artistas da família, as fazedeiras de arte. A gente subia no mamoeiro do quintal para pegar folhas e, com elas fazer sombrinhas e roupinhas para os bonecos de sabugo de milho.
Vivíamos em cima das árvores, nas jabuticabeiras do mato, altas que nem poste. Ficávamos chupando jabuticaba e enchendo os emborná, quietinhas, para ninguém nos ver. Com dez anos, já montava no cavalo em pelo, com Landa na garupa. Uma vez, pegamos um cavalo bravo e, ao forçar o galope, caímos e nos machucamos, mas nada grave. Nossa mãe ficou muito brava.
Nós duas estudamos na escolinha da fazenda do Zé Tomaz. Fui alfabetizada entre oito e dez anos, pelo professor Antônio Paulino. Depois dele, estudamos com Zé Homem, um professor muito bravo, que batia nos alunos com palmatória e vara de marmelo. Eu morria de medo dele, nunca dei motivos para apanhar.
Os filhos do chefe da estação Jabuti, Sebastião, Alaíde e José Pedroso, esperavam minha irmã e eu na linha do trem, perto da estrada que levava à escola, para onde seguíamos juntos. Tinha um namoro de criança com José. Quando o professor soube deste fato, mas não conseguiu obter nossa confirmação, nos colocou de castigo, ajoelhados na porta da escola. As pessoas passavam, olhando para nós, eu chorava de vergonha e o Zé morria de tanto rir. Anos mais tarde ele quis pedir minha mão em casamento, mas não deixei. Tinha irmãs mais velhas e ainda solteiras, meu pai era muito bravo, não me deixaria passar na frente delas.
Quando começamos a ler livro e fazer conta, papai nos tirou da escola. Dizia que mulher só precisava saber assinar o nome na certidão de casamento. Passamos a fazer serviços de casa pra nossa mãe. Socava arroz no pilão de madeira, Landa de um lado, eu do outro. No fim do ano, quando colhia muito arroz, papai deixava a gente abanar a palha e ficar com um pouco da colheita, que vendíamos para comprar ramoninha (alpargatas de florzinha), sapatinho, roupa e sombrinha na venda do Inhozinho, que depois passou para o Luiz Gordo.
Da Pratinha até a Jabuti havia muitas fazendas, toda semana acontecia festa em alguma delas. Meu pai gostava de jogar truco, então, o levavam para algum quartinho e, enquanto jogava, minhas irmãs e eu dançávamos com os rapazes, escondido. Também frequentávamos a igrejinha do Zé Coelho, nos Cardosos, em datas especiais, quando tinha reza (novena), missa e leilão. Todo mundo que morava na roça, ia. Era uma ótima ocasião para paquerar. Fui muito namoradeira (risos).

Casamento, aos dezesseis
Minha vida foi assim até os dezesseis anos. Nessa idade, comecei a namorar Domiciano Irineu da Silveira, toda vida conhecido por Dufo, um primo de 2º grau que morava na fazenda do Corgo Fundo (Córrego). Antes de mim, Dufo foi noivo três vezes. Eu falava que não queria casar, porque tinha outros namoradinhos. Enrolei o quanto pude, até que firmamos namoro.
Nos casamos na igrejinha que depois foi derrubada para construção da Catedral. A igreja era tão pequena quanto o cemitério da cidade, situado onde hoje é o Parque Infantil. Padre Eusébio não queria fazer nosso casamento, primeiro, porque os noivos eram parentes. Depois, porque meu cunhado, Geraldo, era espírita e amigo do seo Raimundo Macedo, também espírita, e um dos convidados para o casório. Todo mundo ficou sentado, na igreja, de braços cruzados, esperando a vontade do padre. A cerimônia, marcada para a parte da manhã, aconteceu somente no final da tarde.
Mamãe ficou no sítio preparando a festa, preocupadíssima com nossa demora (nessa época, morávamos num sítio que papai havia comprado, próximo à fazenda Santa Elza; meu avô paterno, Urbano, morava com a gente). Chegamos com os convidados quase à noite. O povo foi embora só de manhã, depois de tomar café. As festas eram sempre assim, antes de raiar o sol ninguém ia embora. Era todo mundo muito amigo e compadre um do outro.
Ficamos dois dias com meus pais. Antes de irmos para a Corgo Fundo, de charrete, passamos na loja dos Sabbag para fazer compras. Não se usava dar presente de casamento. Os únicos que ganhei foram um joguinho de café, meia-dúzia de xícaras, uma jarrinha e um porta-copo com três copos. Compramos tudo que precisávamos para nossa casa, desde baldes e panelas a guarda-louça, mesa e cadeiras.

Costura, linguiça e crianças
Meu marido trabalhava com o pai, na fazenda. Eu cuidava da casa e cozinhava. Lá, tivemos três filhos: Olga, Osmar e Geci. Casei muito nova. Mesmo sendo mãe, continuava subindo nos pés de frutas. Dufo ficava doido comigo porque eu fazia muita arte. Tio Francisco, meu sogro, tinha medo que eu caísse de alguma árvore.
Dufo insistiu para eu começar a costurar. Minha mãe foi uma grande costureira, mas eu aprendi sozinha. Minha sogra, tia Chiquinha, me passou umas dicas e descobri que tinha jeito pra coisa. Daí, meu marido me deu uma máquina de costura e não parei mais.
Seis anos depois, nos mudamos para a Monte Alto, do seo Esmerino Leite Ribeiro, onde vivemos por sete anos e tivemos mais três filhos: Olavo, Élena e Eurípedes. Dufo fazia as escritas do armazém da fazenda, que ficava emendado na nossa casa, e onde os colonos faziam compras às sextas-feiras.
Toda semana, matavam três capados. Dona Sebastiana, mulher do seo Esmerino, vendia linguiças e queijos em Guaxupé. Quando ela vinha pra cidade, deixava o serviço por minha conta. Eu fazia aquelas bacionas de carne moída para encher as linguiças, que depois pendurava num bambuzinho para enxugar, na cozinha de casa.
Muitas vezes, Joaquim Pedro, um dos filhos do casal, chegava com os amigos e pedia para eu fazer o almoço, depois, bolo para o lanche. João, Mica e Lourdes, também filhos dos donos da fazenda, costumavam cantar e embalar minhas crianças, que dormiam em balaios de taquara pendurados no teto, como berços, confeccionados por vovô Urbano.
Depois de casada, passei a frequentar o centro espírita, com meu marido. Vínhamos para a cidade cada um montado em um cavalo, uma ou duas vezes por mês. Saíamos às cinco da tarde e voltávamos de madrugada. As crianças ficavam com Benvinda, mulher do seo Zequinha, horteleiro da fazenda.
A vida longe da cidade, com crianças pequenas, era muito difícil. Uma vez, Olavo pegou cárie no osso, necessitando de atendimento médico continuado, com Dr. Jeremias, que tinha consultório na Rua João Pessoa.
Depois da Monte Alto, nos mudamos para a Mata, um sítio grande do meu sogro, onde vivemos durante três anos. Trabalhei demais nesse lugar, cozinhava para todos os lavradores. Quando meu sogro faleceu, Dufo recebeu esse sítio de herança e o vendemos para Joaquim Pedro.

Os sorvetes do Dufo
Viemos morar na cidade, numa casa onde, hoje, é a Telemar, e meu marido comprou um barzinho que, depois, foi o consultório do Dr. Sylvio Ribeiro do Valle. Meus filhos foram estudar no Grupo Delfim. Eu ajudava Dufo no bar, fazendo frango e leitoa para os aperitivos. Era uma vida sacrificada, por este motivo meu marido vendeu o bar.
Fomos morar numa casa na grande avenida, onde tivemos nossa filha caçula, Darci.
Nessa época, meu marido sofreu um revés financeiro, perdendo todo seu patrimônio, inclusive um sítio pertinho da cidade, que precisou vender para seo Herculano Rezende, um grande amigo da nossa família. No início de 1949, nos mudamos para um imóvel que fora do meu cunhado, Antônio Emídio, na esquina da Rua Aparecida com a Francisco Vieira do Valle.
Na frente da casa, meu cunhado tinha o Mercadinho Aparecida, que passou a ser conhecido por venda do Dufo. Eu fazia de tudo, até os doces e salgados da venda. Após os primeiros anos, colocamos nossas contas em dia e compramos uma máquina de fazer sorvetes. A partir daí, nossa vida começou a melhorar.
Inicialmente, o homem que vendeu a máquina nos ensinou a fazer sorvete, usando metade leite, metade água. Não dava certo. Aí, seo Herculano falou para Dufo que tinha um cunhado, João Botinha, que acabara de vender uma sorveteria em Juruaia e entendia do negócio. Ele ficou dez dias conosco, nos ensinando a fazer sorvetes, de massa e palito. Todos os nossos filhos também aprenderam, passando a nos ajudar.
Eu cozinhava um mingau no fogão à lenha, que depois colocava para bater na máquina. Mas meu marido preferia mexer a massa, manualmente. Conforme o sabor, a gente acrescentava milho verde, pedaços de ameixa, coco, todos com fruta natural. Vendia sorvete que nem canela.
Nos finais de semana aconteciam jogos de futebol nas fazendas, para onde os vendedores levavam isopores cheios de sorvete. Não me esqueço do seo Antenor, sorveteiro, que vendia sorvetes de palito numa carrocinha bem-arrumadinha, puxada por um jumentinho. Um dia, ele pegou os sorvetes na venda, mas não foi muito longe, sentiu-se mal e morreu.
Os médicos e as freiras da Santa Casa também mandavam buscar muito sorvete. Muitas vezes, Dufo dava sorvete de presente às freiras, porque Olga, nossa filha, sofria de bronquite e estava sempre no hospital, onde era muito bem tratada. Mesmo depois que encerramos a fabricação, Dr. Roberto Magalhães, quando se encontrava comigo, sempre se lembrava do nosso sorvete.

Mudança pra Vila Rica
Aníbal Ribeiro do Valle não saía da nossa venda. No dia em que ganhou a eleição para prefeito, ficou com a gente o dia todo, ouvindo a contagem dos votos pelo rádio. Osmar, nosso filho, trabalhou como cabo eleitoral dele.
Enquanto prefeito, Aníbal convenceu meu marido a comprar, em prestações, um terreno no pasto dos Durante, onde estavam iniciando a Vila Rica. Depois que construímos nossa casa neste bairro, tivemos que alugá-la, pois nenhum de nós quis se mudar para lá.
A Rua Aparecida era muito animada, as barraquinhas das festas de Nossa Senhora Aparecida chegavam até nossa casa. Somente depois que Dufo se aposentou e nossos filhos estavam casados, passamos a venda para Olga, nossa primogênita, e nos mudamos para a Vila Rica, por volta de 1980.
Meu marido, não conseguiu sossegar, passava na venda todos os dias. Há 29 anos, ele morreu, enquanto se restabelecia de um derrame. Olga também faleceu, dez anos atrás. Só tenho um irmão vivo, Orivaldo, que mora em Campinas. Quando visitei minha irmã, Landa, que estava muito doente, à beira da morte, disse a ela: Sempre acompanhei você em tudo, mas, nessa, eu não vou, não (risos). Mesmo com as dores e algumas doenças da idade, eu gosto da vida.”
Alice viajou umas quatro vezes para Natal, RN, onde Geci, sua filha, mora com a família há vinte anos. Ela já pilotou (e caiu) de um triciclo em uma duna no morro do careca. Se pudesse, continuaria subindo em árvores, uma grande paixão. Não tem vista boa para leitura, mas ainda pilota sua máquina de costura, fazendo reformas em roupas. A vida toda costurou, principalmente, para as filhas. Atualmente, passa todas as noites com a caçula Darci, mas não gosta de dormir muito.



Fotos:
1) Casamento de Alice e Dufo, em 18 de julho de 1935.
2) Em 99, Alice entre os filhos, a partir da esquerda e em pé: Geci, Olavo, Élena, Eurípedes, Darci, Olga e Osmar.
3) Caricatura que ganhou do neto Edgar no aniversário de 90 anos.
4) A grande comemoração dos 90 anos reuniu familiares e amigos, com presentes em prol do Horto Florestal.


Apoio cultural:

Comentários

leticia disse…
Minha avó é linda demais!!!!
Vó!!!!! Musa inspiradora da família. Tenho orgulho de ser sua neta. Adoro ouvir suas histórias... Morrendo de saudades....beijos Vozinha do coração! Marilise

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