barulhinho bom

MINHA HISTÓRIA
Marli Calil, grande foliã dos animados carnavais de outrora.



Na atual sede da Associação Viralatas do samba, na Casa da Vó Maria, a comemoração do aniversário da Arlete Mendes, para combater a ressaca e reunir, novamente, a turma do batuque do bem, na madrugada de domingo. Sábado que vem vai ser a vez do Luiz da Timba comemorar a chegada de um novo ano. O bar da Casa da Vó estará em atividade a partir das 23h. Convidamos todos os viralatas a festejarem a data com a gente. Vem!






Valeu a pena viver

Marli Calil nasceu em 07.05.43, na mesma casa em que mora, até hoje em dia. A guaxupeana é filha do imigrante libanês Abrão Calil e de Joana Isaac Calil, descendente de sírios-libaneses. Marli é conhecida por seu gênio forte, desde criança costuma falar o que pensa, doa a quem doer. Também não foge de uma briga quando o assunto envolve os amigos. Sempre viveu intensamente, talvez, por este motivo, aos sessenta e sete anos, esteja acomodada. Segundo ela, teve uma vida que valeu a pena ser vivida.


“Todo mundo chamava minha mãe de Maria, talvez, devido às divergências que antigamente aconteciam no momento de registrar os filhos. Ela nasceu em Guaxupé, filha de sírio-libaneses. Éramos seis irmãos: Teresinha, Cleusa, eu, Abrãozinho e Isaac; Néder, o mais velho, já falecido, era filho do primeiro casamento do papai.
Papai sempre foi comerciante, tinha um armazém, onde vendia de tudo. Mamãe, além dos afazeres domésticos, fazia quitandas e doces para a venda. Aos sete anos, entrei no Grupo Escolar Delfim Moreira. Nesta época, passei a ajudar um pouco no armazém, mas, mesmo assim, brinquei demais, tive uma infância muito feliz.
Guardo poucas memórias de criança. Brincava de boneca na sarjeta, com minhas vizinhas Amélia Ribeiro do Valle, Luíza Helena Neto, Ilda e Luíza Rodrigues, Dilva e Dilce Salgado. Amélia e eu passamos muitas férias em Juruaia. Crescemos juntas e continuamos amigas até hoje.
Fiz os primeiros anos do ginasial e o curso de normalista no Colégio Imaculada Conceição. Não sei o motivo certo, mas cheguei a concluir a 4ª série no ginásio. Lembro-me do Ronaldo Xavier, nosso professor (de Química) muito bonito.
Judiei das freiras demais da conta. Elas me colocavam de castigo, eu fugia. Chamava a madre superiora, Augusta, de ‘tijolão’, porque tinha uma cara grande e vermelha. Certa vez, de castigo na biblioteca, onde costumava ficar madre Joana - uma freira meio caduca - pintei o corpo dela todinho com caneta. Também, fiz muitas colas para as provas de Latim. Várias vezes, me pegaram.
Minha mãe era chamada no colégio, mas não resolvia. Fui uma jovem muito sapeca e briguenta, sempre soube me defender. Até hoje, se precisar, brigo em defesa das minhas amigas. Minha mãe falava que eu era sem educação. Sempre fui muito verdadeira e ela dizia que a verdade também podia ofender as pessoas.
Mas as professoras gostavam de mim. Sóror Encarnação, professora de Português, depois que tirou o hábito e se mudou de cidade, veio me visitar. Tomou café em casa, pois ficou amiga da minha família.
Dancei muito na vida, não perdia os bailes do Clube Guaxupé: era a primeira a chegar e a última a sair do salão. Fazia um vestido longo para cada evento. Eram aqueles bailes antigos, bonitos, com orquestras ótimas, não como os de hoje em dia. Dona Guiomar, mãe da Amélia, acompanhava a gente.
Recebi o diploma de normalista, em 66, numa cerimônia no Cine São Carlos. Tinha um namorado, de Poços de Caldas, que resolveu me pedir em noivado no dia da formatura, me trazendo de presente as alianças. Eu não aceitei o pedido de jeito nenhum, então, rompemos nosso relacionamento. Nunca quis compromisso sério, falava pra minha mãe que nunca iria me casar.

Jovem namoradeira
Fui a 1ª bibliotecária da FAFIG-FACEG (atual UNIFEG). Mamãe pediu para o diretor, Padre Arnaldo, arrumar este emprego para mim. Ia à casa da Teresinha Vômero, que era bibliotecária em outra escola, para aprender a organizar os livros. Trabalhei na faculdade mais de onze anos, seis na biblioteca e cinco anos e meio na tesouraria, com a Marieta Ribeiro.
Aproveitei muito, nessa época, namorei demais. Toda sexta, saía do serviço com meus colegas e ia direto para a Churrascaria Bambu. Voltava de madrugada, mesmo entrando no trabalho às 7h, aos sábados.
Até o diretor, João Marques Vasconcelos, nos acompanhava. Numa ocasião, ele fez o Zé Áccula vender para ele um compacto com a música Love’s All, minha preferida, e me deu de presente com esta dedicatória: À turca safada, mas com alma.
Inicialmente, de manhã, de segunda à sexta, dei aulas no Grupo Nossa Senhora Aparecida e, em seguida, no Dr. Carlos, mas por pouco tempo. Depois, fui para o Grupo Queridinha, onde fui efetivada e trabalhei até minha aposentadoria, após vinte e cinco anos de magistério. Também fiz um curso, em Belo Horizonte, para lecionar Educação Física. Dei aulas para as turmas do Queridinha e do Major Luiz Zerbini.
Eu não gostava de lecionar e não escondia este fato de ninguém, principalmente, das diretoras. Queria ter estudado Enfermagem, mas meus pais não tinham condições de sustentar meus estudos fora. Mas fui uma boa professora, basta perguntar aos meus ex-alunos.
Às tardes e noites, ficava na faculdade, inclusive aos sábados de manhã. Quando parei de trabalhar na faculdade, fiz o curso de Pedagogia, à noite. Aí que baguncei o coreto, cantava pelos corredores, era muito alegre e conhecida por todos.
Trabalhei como recepcionista do Restaurante Chalé, para o Zé Áccula, e no caixa do Bar 66 (meia-meia), do Paulinho Molin. Após minha aposentadoria como professora, comecei a mexer com excursões. No início, fiz umas três viagens com Zé Rachid no bate-e-volta, para o Paraguai. Uma vez, o ônibus ficou escondido no pátio de um hotel, para não sermos pegos pela polícia, pois era proibido passar com mercadorias de um país para o outro.
Depois, fui pioneira do bate-e-volta a São Paulo. Fiquei uns quatro anos nesta atividade, cheguei a viajar para São Paulo duas vezes na semana. Também evitávamos os postos de fiscalização, por causa das compras dos nossos passageiros, a maioria, lojistas. Quando fazia frio, para esquentar, comprávamos pão, azeitona e vinho para comer e beber na viagem de volta.
Viajava muito. Em São Paulo, frequentava a casa de shows do Luiz Ayrão, que acabou virando meu amigo. Depois de um show em Guaxupé, no Paiol, eu o convidei para um aperitivo em minha casa.
Durante vários anos, lotei ônibus para assistir aos desfiles das campeãs do carnaval do Rio. Na Oktoberfest, cheguei a levar cinco ônibus, todos saíram da porta da minha casa. Nesta viagem, o dono do Hotel Miramar, em Camboriú, onde costumava me hospedar, fez uma festa fechada para nós, na boate do Hotel.
Tive, ainda, uma butique de roupas, em sociedade com Vicentina Calicchio, grande companheira. Toda noite, nós duas íamos para a Churrascaria Bambu, encontrar os amigos Zé Áccula e Agostinho Tavares. A mesa número 1, perto do caixa, era reservada para nós.


Amiga divertida
Faço minhas amigas rirem demais da conta, até em velório. Uma vez, numa excursão ao Rio de Janeiro, enquanto esperávamos o ônibus, peguei um pandeirinho de brinquedo e comecei a tocar e cantar, chamando a atenção dos passageiros dos automóveis. Nádia Cury, outra grande amiga, não se esquece desta passagem.
Tudo quanto era loucura, eu fazia. Na Oktoberfest, em Blumenau, tirei foto ao lado de um bêbado, porque me deu vontade; pedi esmola, em Campos do Jordão; subi no palco para tirar foto com a banda do casamento do meu sobrinho, Claudinho, em Campinas. Cada Revéillon era uma surpresa diferente. Já me fantasiei de ano-novo, com Walquíria Russo vestida de ano-velho. Com Ary, marido de uma sobrinha, me vesti de preta-velha e ficamos na porta de casa, benzendo os passantes. O Didi, do Varanda, gostou tanto, que nos convidou para ir ao restaurante benzer seus clientes.
Era a única mulher a frequentar o Skina’s Bar, antes da reforma, onde jogava caixeta com meus amigos, todos homens. Uma noite, fui de pijama comprar cigarro e não me deixaram voltar para casa, fiquei jogando. Fui a única a participar da despedida de solteiro do Tiãozinho ‘do carimbo’, foi uma palhaçada.
Cuidei dos meus pais até o final da vida deles. Papai faleceu em 1988 e, mamãe, onze anos depois. A paixão dela era me ver casada, não queria me deixar sozinha. Conheci meu marido, Anildo Noronha Mesquita, de Pouso Alegre, no Francisqueti Lanches. Assim que bati os olhos nele, me apaixonei, foi amor à primeira vista. Ficamos juntos uns três meses, depois, ele desapareceu. Fiquei até doente.
Mesquita voltou para mim somente vinte e cinco anos depois, logo após a morte da mamãe. Ele pediu minha mão em casamento para meu irmão, Abrãozinho, e passamos a viver juntos. Em 2010, formalizamos nossa união no civil.

Não me leve a mal, hoje é carnaval
Sempre gostei de carnaval. Não perdia nem as matinês do Clube Guaxupé. Vestia de homem ou de mascarado e saía pra rua, à noite. Uma vez, minha amiga Titita e eu nos vestimos de nega maluca. Dr. Mário Zucato, delegado, gostou tanto da nossa fantasia que nos levou do Clube, na viatura de polícia, até a casa dele. Queria nos mostrar para sua empregada, que também era negra. Quem nos viu entrando no carro pensou que havíamos sido detidas.
Desfilei alguns anos junto com Os Bicancas. Quando meu irmão Isaac e os filhos do seo Milo Mantovani fundaram a Ala Jovem, resolvi ajudá-los. A escola de samba saía da porta de casa. Eu punha todo mundo para trabalhar: Fazia os arranjos de cabeça, as alegorias, as inscrições, organizava as alas e arrumava as costureiras. Penha e Rosinha foram o braço direito da escola, ajudaram muito, também.
Na época em que Olímpio, gerente do Banco Nacional, foi presidente da escola, decidimos fazer um bingo com cinco fuscas, para angariar dinheiro. Na hora H, ele ficou com medo de assumir a compra dos carros, então, eu assumi. Bingo era uma atividade proibida por Lei. O próprio delegado, Dr. Daniel, veio em casa me advertir. Mesmo assim, fizemos, pois eu não podia voltar atrás.
Foram anos bons demais. As cores da Ala Jovem eram o verde e rosa, por este motivo, foi apelidada de mini-mangueira pelo Jamelão. Ele assistiu ao nosso desfile do Big Hotel, durante as comemorações do aniversário da cidade.
Uma vez, sairia de destaque no chão, mas quebrei o pé brincando no salão do Clube. Desfilei com o pé enfaixado, em cima de um carro alegórico, contra as recomendações do médico, Dr. Luiz Gardi. Depois do desfile, voltei a procurá-lo, porque não aguentava de tanta dor. Ele ficou muito bravo comigo.
Tudo que tive vontade de fazer nesta vida, eu fiz. Sou muito realizada. O que eu vou fazer mais? Hoje, vivo para meu marido e para minha cachorrinha, Teka.”
Atualmente, Marli tem uma vida acomodada ao lado do marido. Não faz planos para o futuro, pois, segundo ela, já fez de tudo nesta vida.

Fotos:
1) O pai, Abrão, coloca o anel de normalista, no dedo da filha, em 1966.
2) Marli com os irmãos na comemoração dos 80 anos da mãe, em 1997.
3) Marli fantasiada de preta-velha, na comemoração de Revéillon.
4) Marli e Mesquita, agachados à direita, num rancho com os amigos do Skina’s.
5) Marli e Mesquita durante o casamento no civil, em 2010.
6) Marli recebeu Luiz Ayrão em sua casa para um aperitivo.


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