te dou minha palavra

Houve um tempo em que apenas esta afirmação bastava. Tanto nas relações pessoais quanto comerciais. Hoje em dia, na maioria das vezes, não significa quase nada. Prometer algo está tão banalizado quanto dizer eu te amo. Dificilmente, quem emite a famigerada frase está realmente comprometido com ela. É como encontrar conhecidos na rua:
_ Passa lá em casa qualquer dia desses.
_ Passo, sim.

Nenhum dos envolvidos na conversa acredita que o outro irá cumprir a palavra, fica o dito pelo não dito e tudo bem. Luís Fernando Veríssimo já descreveu estes encontros no bem-humorado Comédias da Vida Privada. Algumas pessoas, talvez antiquadas, ainda insistem na valorização da palavra dada. Sou uma delas. Se dou minha palavra, pode demorar (rs), mas cumpro. Quando me dei conta de que nunca cumpriria as visitas que prometia nas conversas de rua, deixei de agendar esses tipos de encontros. Fico constrangida. Prometi tirar fotos do show de um amigo. Eu estava gripadíssima, em plena tpm. Não deu. Ainda assim, me senti em débito com ele. Afinal, havia afirmado que iria.

Enfim, mudando de pato para ganso (o mais correto seria dizer, mudando totalmente de assunto - ver coments), às vezes, revisito antigas postagens deste blog. Descobri que escrevia muito na 1ª pessoa, como agora. Depois de absorver algumas críticas, passei a escrever textos menos opinativos e mais noticiosos, na 3ª pessoa (nem por esta mudança deixei de errar, vez ou outra, filosoficamente ou gramaticalmente - quando me toco, conserto). Mas como o poeta gosto de ser e de estar. Sendo mais precisa, aqui. Adoro este blog colorido, onde ser vira-lata não é pejorativo. Aliás, na novela das 19h, da Globo, para "descontribuir" com nossa causa, umas personagens fúteis gostam de chamar pessoas de classe financeira baixa de "vira-lata"... Ainda não vi Amor e Revolução, a novela do SBT que está deixando os militares de cabelos em pé. Também não vi a estreia do nosso conterrâneo, Pedro Lemos dos Reis Magalhães Gomes, no papel de um padre que auxilia as fugas e abriga guerrilheiros em sua paróquia. Em diversas rodas de amigos, este tema está dando o que falar. Veja como novelas podem ser construtivas. É importantíssimo para o futuro da nação relembrar esse triste período da história brasileira para que jamais se repita. Afinal, o que foi feito com os arquivos da Ditadura Militar, eles estão acessíveis para pesquisas ou foram destruídos? Veja o site www.memoriasreveladas.arquivonacional.gov.br , onde encontrei um texto sobre a condecoração de José Genoíno, hoje, num evento das Forças Armadas...

Jobim ressaltou, no entanto, que não pretende incitar uma ofensiva contra militares supostamente envolvidos com crimes no regime militar, ao falar sobre a Comissão da Verdade, projeto de lei em trâmite na Câmara dos Deputados, que visa esclarecer casos de violação dos direitos humanos no período da ditadura.
- O Brasil não quer retaliar o seu passado. A Comissão da Verdade não é um processo de retaliação. É a recomposição de uma memória histórica, mas sem objetivo de investigação, nem sentido de perseguição - concluiu Jobim.


Mas, para haver, realmente, Justiça, todos os militares atuantes da época da Ditadura deveriam ser julgados pelos seus atos. Concorda?


MINHA HISTÓRIA
A paulista Maria de Lourdes Molinari Saad, nascida em Catanduva, vive em Guaxupé há 65 anos.


Mulher de mãos mágicas

Maria de Lourdes Molinari Saad nasceu em Catanduva, SP, em 06.03.33, filha de Antônio Molinari e Rosália Longo. A segunda de cinco irmãos: Sebastião (Quinho), Hilda, Dirce, Antônio Filho e Darcy. Há 65 anos ela vive em Guaxupé, onde se casou, criou seis filhos e, atualmente, tem 16 netos e três bisnetos. Descendente de italianos, é uma mulher vigorosa, dessas que já fez de tudo um pouco nesta vida: “Só não matei e não roubei” (risos). Em sua casa, cultiva roseiras e muitos vasos de plantas, seu hobby predileto. Como o menino do dedo verde, personagem de Maurice Druon, Lourdes tem mãos mágicas, habilidosas.

“Meus quatro avós emigraram da Itália no mesmo navio. Meus pais nasceram em São Simão, onde se conheceram e casaram. Nasci pelas mãos da minha avó paterna, Ângela, a parteira da família. Papai era bairrista, por este motivo, fui registrada por minha avó, em São Simão, somente em dez de abril, data em que comemoro meu aniversário.
Meu pai era técnico de curtume e, mamãe, dona de casa. Ela criava galinhas, plantava milho e arroz no quintal, que era muito grande. Tinha uma mina d’água e um açude com patos. Em nossa casa, na zona rural, não havia luz elétrica.
Aos nove anos entrei no primário. A escola ficava longe. Uma tarde aconteceu uma tempestade muito forte. Quando passou e as professoras abriram as portas, havia várias árvores, enormes, caídas em frente à escola. Fui embora correndo, temendo que nossa casa estivesse no chão. Vi uma bacia da minha mãe, que foi levada pelo vento até uma embarcação de gado, situada perto de casa. Graças a Deus, só nosso telhado perdeu algumas telhas. Minha irmã, Hilda, ficou traumatizada, toda vez que chovia, ela se ajoelhava e rezava.
Aos dez anos, nos mudamos para uma casa própria, na cidade, mais perto da escola. O diretor, Vitorino, um sujeito muito caxias, fazia os alunos cantarem, diariamente, o Hino Nacional e lerem a Oração à Pátria, todos de pé e fazendo o V da vitória. Lembro-me da chegada dos pracinhas que estiveram na 2ª Guerra Mundial. Foi triste, muitos estavam mutilados.
A rua da nossa casa não era calçada. Lembro de estar molhando o chão para abaixar o pó quando Dr. Benedito Leite Ribeiro chegou perguntando por meu pai. Ele tinha um curtume na Vila Campanha e queria que papai trabalhasse para ele.
Assim que acabaram as aulas, antes da formatura do primário, nos mudamos para Guaxupé, em 30.11.45. Fomos morar numa casa na ‘rua do colégio’. Mamãe ficou muito decepcionada, aqui não era como esperava. As calçadas eram cobertas de mato. A água da Jacuba saía suja dos canos, como enxurrada, quando chovia. Quase todo mundo tinha uma cisterna no quintal. O prefeito era Dr. Antônio Costa Monteiro.
No começo, levava a pé o almoço para papai e meu irmão, Quinho, que trabalhavam juntos. Depois, passei a ir de charrete. O nome do nosso cavalo era Paulista. No caminho, passava pela rua da porteira, por uma igrejinha, pelo sítio do Manoel Machado. Não havia o bairro Vila Rica, somente estrada de terra e mato.
Também, diariamente, buscava leite no curtume, de manhã. Em todos os lugares que trabalhava, papai plantava horta, criava porcos e uma vaca leiteira. Tudo para consumo da nossa família.

Costuras, comércio e carnaval
Meus irmãos foram estudar no Grupo Delfim Moreira. Eu fiquei ajudando em casa. Não tinha catorze anos quando comecei a auxiliar dona Tita Borelli, costureira. Fiquei um ano com ela. Um dia, pedi que cortasse um molde para eu fazer um vestido. Prestei atenção em tudo que ela fez. Ao chegar em casa, costurei um vestido igualzinho para a Dirce, minha irmã, e passei a trabalhar por conta própria.
Papai abriu uma fábrica nos fundos da nossa casa, a Vinagre Fidalgo, feito com água, álcool e sabugo. Toda a família tinha serviço. A gente lavava as garrafas, enchia de vinagre, punha o rótulo, selava, empalhava e ensacava para o transporte. Depois, papai fabricou sabão, torrou café, fez de tudo um pouco. Quando arrumou emprego no Curtume Franco-brasileiro, ele se mudou para São Paulo.
Eu torrava café em casa, depois levava para a torrefação do Caetano Dallora, onde era moído e empacotado. Comprava chancliches feitos por duas sírias que moravam na Rua Aparecida. Sempre de charrete. Depois, empacotava tudo e mandava, pela Transportadora Áccula, para papai vender em São Paulo.
Ele enviava caixas de maçã e outros produtos pra gente vender aqui. Meu irmão Tonico arrumava os fregueses e eu fazia as entregas. Aos poucos, minha família foi se mudando para São Paulo. Mamãe e eu ficamos. Mantive a fábrica de vinagre por uns meses.
Nessa época, por volta dos meus dezoito anos, conheci Umar Saad, durante um footing na avenida. Estava com minhas amigas e vizinhas, Isabel e Márcia. Nesses passeios, a gente costumava flertar com os rapazes. Começamos a namorar.
Umar era integrante de Os Bicancas. Por este motivo, meu pai me deixou participar do bloco, junto com minhas irmãs, em 53 e 54. Nestes dois anos, também costurei as fantasias de todos os foliões, como as de malandro e as de gato. Eram modelos diferentes, um para sábado e segunda, outro para domingo e terça.
A gente, principalmente, as mulheres, brincava o carnaval, na rua e no salão, sem tomar uma gota de álcool. Nem mesmo quando o bloco tocava nos bares. Nos almoços de domingo, papai abria uma garrafa de vinho e dava um pouquinho para cada filho: Era dia de frango, macarronada e vinho.
Num domingo de carnaval, passei o dia costurando a fantasia do Genebaldo Vieira, que me esperava com o tecido na mão, na porta de casa. Eu voltava da missa da manhã, na capela do colégio. Mamãe não deixava que perdêssemos esta missa de jeito nenhum. Em Catanduva, andávamos três quilômetros para assistir à missa das 5h, na Igreja de São Domingos.


Maktub – Estava escrito
Estava noiva havia poucos meses quando minha mãe e eu nos juntamos ao resto da família, em São Paulo. Umar me visitava a cada quinze dias. Em julho de 1955, ele pediu para meus pais me deixarem voltar para preparar o casamento. Nos casamos em setembro do mesmo ano. Após nossa lua de mel, em Poços, fomos morar na casa dos meus sogros, Maria e Abrão. Em 56, nasceu nosso primogênito, Umarzinho; em 57, Rosimar e, em 59, Tonimar.
Em outubro de 1960, nos mudamos para nossa casa, na Rua Aparecida. Muitos ensaios e reuniões dos Bicancas aconteceram nesta casa. De 1960 a 67, Umar tomou a frente do bloco.
Minha vida era cuidar dos nossos filhos. Meu marido trabalhava na fábrica de calçados com o pai e os irmãos. Em 61, nasceu Lidia. Em 64, estava grávida do Ibraim quando Umar abriu uma torrefação de café, em casa. Chamou de Café Miramar, mistura do nome dele e do meu cunhado, Namir, que seria sócio neste negócio, mas acabou não sendo. Eu torrava café de madrugada, para aproveitar enquanto as crianças dormiam.
Em casa, também tivemos uma granja com 110 galinhas vermelhas, depósito de balas e de manteiga e queijo. Chegamos a abrir uma lojinha de manteiga e queijo na Rua João Pessoa, ao lado da fábrica de calçados da família. Ainda, tivemos em casa uma loja de armarinhos chamada Maria de Lourdes. Foi quando nasceu nosso caçula, Marcelo, em janeiro de 67.
No ano seguinte, fomos morar em Poços de Caldas. Nesta época, retomei os serviços de costura. Por coincidência, tive uma vizinha de sobrenome Saad, muito solícita. Adorei Poços de Caldas. Não queria voltar para Guaxupé, mas retornamos após seis meses.
Abrimos um empório de secos e molhados, chamado Urubatã. Meus filhos, Umarzinho e Rosi, ajudavam a tomar conta do negócio. Quando fechamos o empório, eles foram estudar em São Paulo. Logo em seguida, Toni também foi.
Em 1976, tive um problema grave de circulação. Umar estava trabalhando em São Bernardo do Campo. Fiquei morando um ano e dois meses em São Paulo, na casa da minha irmã, Darci, fazendo tratamento no HC. Meus três filhos mais novos ficaram com parentes, em Guaxupé.

Depois da tempestade, a bonança
Fiquei curada, retomando minha rotina. Nunca parei com as costuras. Cheguei a passar noites em claro trabalhando. Quando apertava de serviço, punha uma garrafa de café ao meu lado. Os filhos foram crescendo e se casando. Primeiro, Rosi, depois, Umarzinho e Toni. Minha vida foi ficando mais tranquila.
Quando meu marido adoeceu, decidi aprender a dirigir, mas não cheguei a tirar carteira de motorista. Comprei um fusca e tive aulas na autoescola. Depois que meu marido faleceu, em abril de 1995, Umarzinho contratou um motorista para me incentivar a dirigir. Um dia, estávamos dando uma volta e bati o carro em frente ao velório. Havia muito movimento de carros e o motorista puxou a direção, temendo que eu batesse. Nunca mais quis guiar, pedi para meus filhos sumirem com o carro. Mas me faz falta, pois dependo sempre de carona.
Estou aposentada desde meus 60 anos, mas continuei trabalhando. Não costuro há mais de vinte anos, mas faço chancliche artesanal. Parte da minha freguesia era cliente do meu marido, que fazia chancliche e me ensinou como fazer. Até parece que sou síria. Aprendi tudo com a família dele.
Tinha uma cunhada, Genoveva, que não queria morrer antes de conhecer o Rio e ver um show do Roberto Carlos. Fomos duas vezes para o Rio e, uma vez, para a Pousada do Rio Quente. Sempre fui caseira, mas fiz várias viagens, como a Porto Seguro e Fortaleza, incentivada por meus filhos.
No meu aniversário de 76 anos, eles me prepararam uma festa surpresa. Eu nem imaginava. Fiquei muito feliz com tantos parentes e amigos reunidos, comemorando comigo.
Continuo frequentando missas, mais de uma vez por semana. Sou muito religiosa. Por um tempo, participei do coro da Selma Perocco, na Catedral. Na Semana Santa, estive em todas as procissões. Nunca vi tanta gente reunida, todos com velas acesas nas mãos, foi muito bonito.”
Lourdes é uma cozinheira de mão cheia. Geralmente, os almoços de família, aos domingos, acontecem em sua casa. Mãezona, está sempre pronta para socorrer seus filhos e, também, é muito paparicada por eles. Gosta de ler e fazer crochê. Procura cuidar da saúde fazendo caminhadas diárias pela manhã.

Fotos:
1) Lourdes, aos 18 anos, em frente sua casa na “rua do colégio”.
2) Umar e Lourdes com a amiga Mariana Silva, no início dos anos de 1960, no carnaval do Clube Guaxupé.
3) Marcelo, Umar e Lourdes no casamento de Umarzinho e Teresa, em 1980.
4) Os irmãos Quinho, Lourdes, Hilda, Dirce, Tonico e Darci, no alpendre da casa de Lourdes, em 1997.
5) Em março de 2011, Lourdes entre os filhos: Toni, Lidia, Umar, Marcelo, Ibraim e Rosi.


Apoio cultural:

Comentários

henryvitor disse…
Li sua matéria.Deixei aqui o registro só para provar que estou por dentro do que vc faz..Só que as vezes não me manifesto, como um bom mineiro..Seu texto continua leve, gostoso de ler.. Estou indo para BH na quinta..bjos de segunda feira, embrulhadinhos em esperanças.
Tatuscula disse…
passar de pato a ganso
Português
Expressão

pas.sar de pa.to a gan.so
(Brasil, Santa Catarina, Florianópolis) significa que a pessoa referida melhorou de vida

Fonte: http://pt.wiktionary.org/?title=passar_de_pato_a_ganso
Anônimo disse…
Oi, Tati:

vc é uma leitora muito bem-vinda!
ah se todos fossem iguais a você...
rs
obrigada pela dica.
será que não posso passar de pato PARA ganso?
e por que ganso é melhor que pato??

de qquer forma, valeu.

abraço carinhoso

Sheila

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