memória inesquecível

João Batista Leite, conhecido por Condinho, nasceu em 20.04.28, em Guaxupé, filho de Cândido Leite e Cesarina Cândida Leite. Com apenas o primário completo, Condinho aprendeu História do Brasil, sozinho, nos livros. Gosta de relembrar como aconteceu a independência do Brasil e quem foi o primeiro presidente da República. Diz que vai escrever uma carta para o Lata Velha, do Luciano Huck, para reformar o carro de uma colaboradora do Lar São Vicente. Ouve com a ajuda de um aparelho para surdez e tem a fala rouca por causa dos cigarros. Por sua ótima memória, nada o impede de contar suas inesquecíveis histórias.

“Minha mãe teve catorze filhos, somente onze vingaram. Eu fui o 5º, nasci na nossa casa, na Rua Amazonas, cinco minutos antes que meu irmão gêmeo, João Evangelista, pelas mãos da dona Brandina, uma parteira muito famosa em Guaxupé.

Meu pai era viajante, motorista da fábrica Santa Margarida. Minha mãe sempre trabalhou em casa. Era um moleque danado, adorava brincar de bola, bolinha de vidro, estilingue e trincheira com os moleques da rua.

Meu irmão, Sebastião, era bom de pontaria, com uma espingarda de chumbo ele matava preás, que dava pra nossa mãe fazer um panelão cozido, uma delícia. Sebastião se deitava no meio dos arrozais que beiravam o ribeirão, desde os Carloni até a ponte que vai pra Guaranésia, esperando o bando de rolinhas se aproximar, matava umas quatro com apenas um tiro.

Descendo o cafezal dos padres, onde é a Copasa e o ginásio, tinha o açude do Zé Madeira, onde aprendi a nadar com a molecada. Ficava mais na beirada, não ia na parte funda. Uma vez, com quatro estilingadas matei uma cobra sem veneno. Cortei as pontas dela e levei o meio pra casa. Mamãe cortou em filetes e fritou pra gente comer, uma delícia.

Noutras vezes, só de farra, ficava na beira d’água esperando a cobra aparecer, pulava em cima dela e agarrava pela cabeça pra não deixar ela me picar, depois soltava. Por causa dessa brincadeira, apanhava em casa. Mas escapava e voltava lá outra vez.

Também, escondido dos meus pais estava nadando no ribeirão, perto da estrada de ferro, quando meus amigos e eu encontramos, dentro d’água, três malotes do Correio que um funcionário havia roubado um ano atrás. Na época, o Correio ficava na Rua Mancini. Meu pai quis me bater, mas o delegado Asdrúbal Moraes de Andrade não deixou, disse que a gente ajudou a polícia.

Dos sete aos dez anos, estudei no Grupo Delfim Moreira. Dr. Delfim foi um advogado, diziam que dos bons. Eu gostava muito de História, era o primeiro da classe. Aprendi na escola que os lenhadores foram apanhar lenha e um deles esqueceu um machado no pé de uma árvore onde havia um ninho de guaxu, por isso o nome da cidade ser Guaxupé. Minha primeira professora foi dona Maria Coragem, ela era brava, puxava a orelha da gente. Depois, dona Elza e, nos dois últimos anos, dona Maria Martins.

O Batista ou o Evangelista?

Depois, parei de estudar. Junto com meu irmão gêmeo e Sebastião, comecei a trabalhar na venda de secos e molhados do Jaime Salgado e Custódio Ribeiro (Totó), na Rua Norberto Ribeiro do Valle. Conversava muito com o casal Álvaro Costa e Alzira, vizinhos da venda. Eu trabalhava no balcão, vendendo cachaça, arroz, feijão, de tudo. Os lavradores vinham pra cidade com seus embornais que voltavam cheios de sal, açúcar, macarrão, sabão, querosene e tudo o que não tinham na roça.

Quando dona Esteva, esposa do seo Jaime estava pra dar a luz, eu fui buscar dona Brandina, que morava na Rua Esméria Cândida. Ajudei a pajear a criança recém-nascida, Dilce, dando mamadeira e levando pra passear no carrinho.

Depois de um ano e pouco, os sócios começaram a se desentender e resolveram fechar a venda. João Evangelista foi trabalhar na fábrica de macarrão dos Rovay. Eu fui para a loja do Jacob Miguel Sabbag, com meus irmãos Sebastião e José. O serviço era o mesmo, a diferença é que vendiam tecido, mas era num local separado da venda. A mercadoria vinha pela estrada de ferro e era guardada num depósito grande, onde hoje funcionam bancos na Rua Pereira do Nascimento.

Fiquei lá dois anos, depois fui trabalhar na Casa Oriental, onde fiquei somente seis meses, não combinei com o patrão, seo Latif Farah. Ele implicava com tudo, até com a ordem de abertura das quatro portas da loja. Fui pra fábrica de macarrão trabalhar com meu irmão. De brincadeira, os donos nos chamavam de João Primeiro e João Segundo.

Em 1948, entramos no Tiro de Guerra. Os sargentos Rangel e Erotides só acertavam quem era quem perguntando nossos números, eu era 46 e meu irmão, 49. A gente, pra fazer farra, trocava de namorada e elas não desconfiavam. Perguntavam, Você é o Batista ou o Evangelista?

São Paulo e Recife

Em 1949, nossa família se mudou para São Paulo. No ano seguinte, meu pai se matou enforcado. Ele estava proibido de beber, por ordens médicas, porque teve febre amarela. Morreu aos 58 anos, meu irmão caçula tinha doze.

Arrumei emprego no comércio. Fiz um curso de pedreiro no SENAI. Fazia bicos de encanador, eletricista e pedreiro. Logo arrumei uma namorada, Oscarlina do Amaral. Nos casamos em 07.02.1953, ficamos cinco anos juntos, tivemos um filho, Luís Antônio.

Alguns meses antes de me casar, comprei um terreno na Freguesia do Ó pra construir nossa casa. Não havia água encanada. Fui cavar um poço, achei uma pedra enorme no fundo. Estourei várias dinamites dentro, mas não consegui arrebentar a pedra. Num desses tiros, a espoleta não pegou e aquilo ficou lá dentro, como uma bomba relógio. Precisei descer uns dez metros para pegar a dinamite. Tive muito medo de morrer, voltei tremendo. Pouco tempo depois, vendi a casa e comprei um terreno mais pra baixo. Somente depois de dez anos teve água encanada no bairro.

Em 1960, me casei com Maudi Barbosa, nossos papéis vieram da Bolívia porque eu já era casado no Brasil. Após dois anos, nasceu nossa filha, Walquíria. Em 1966, comecei a trabalhar na loja de ferragens e ferramentas Antunes Freixo, onde fiquei dezesseis anos.

Em 1971, me separei da Maudi e conheci Marta Maria da Rocha, no cassino dançante Vila Sofia, fomos morar juntos. Ela já tinha três filhos. Juntos, tivemos uma filha, Karina, em 1972. No mesmo ano, fui transferido para uma filial da loja, em Recife, como encarregado de depósito, uma espécie de almoxarifado. Cinco anos depois, me aposentei por tempo de serviço, mas continuei trabalhando, até fecharem a filial em Pernambuco, em 1983.

Parei de trabalhar, logo troquei de mulher. Conheci Erinete Ferreira leite quando passava em frente à porta da casa dela e ela me pediu um cigarro. Eu estava com 62 anos e ela com dezoito. Nós adotamos uma criança que a mãe pretendia jogar no Rio depois do parto. Nasceu prematura, de sete meses, batizada Jaqueline Ferreira Leite. Ela tinha três anos quando voltei para Guaxupé, em 1994.

De volta a Guaxupé

Antes, fiquei uns dois meses na casa da minha irmã, Glória, em Indaiatuba. Lá, em um parque de diversões, conheci Maria Augusta, alguns anos mais velha que eu. Naquele dia teve baile, dançamos, conversamos. Eu era bom de dança, dançava qualquer ritmo, até tango. Como ela era viúva, resolvemos morar juntos em Guaxupé, mas depois de seis meses ela voltou para Indaiatuba.

Daí em diante, fiquei sozinho, mas tive muitas namoradas. Um dia, quando acordei, uma delas havia limpado minha casa, roubando tudo que podia vender.

Eu fazia uns bicos de eletricista, pedreiro e encanador. No começo, meu irmão Messias me levava comida, depois, passei a comprar marmitas e, enfim, aprendi a cozinhar. Toda semana fazia nhoque, receita da minha irmã Glória. É minha comida predileta, seguida de bacalhau.

Em novembro de 2007, caí e trinquei um osso da coluna, o médico me aconselhou a não viver mais sozinho. Eu estava com 79 anos, meu irmão Messias arrumou para eu morar no Lar São Vicente. Dois meses depois, escorreguei na rampa do quarto, trincando a bacia. Fiquei dois meses na cadeira de rodas.

Bebia e fumava desde os vinte e cinco anos. No Lar, parei de beber, mas até hoje fumo um maço por dia. A hora que me fizer mal, eu largo. Não posso ter isqueiro, nem fumar no quarto, só se for escondido.

O pequeno conde

Aprendi Karatê vendo treinos na TV e nos livros. Depois, passei por uma academia pra ganhar a faixa preta. Até cinco anos atrás, quebrava várias telhas com as mãos. Quando eu morava sozinho, na Rua Esméria Cândida, numa noite quente saí para uma caminhada. Pouco depois do Posto São Paulo-Minas, dois moços de uns dezenove anos pularam na minha frente com uma faca de cozinha, tentando me assaltar. Derrubei eles no chão com um golpe de karatê na cara de cada um. Saíram gritando, vamo embora que o velho é fogo.

Desde os onze anos tenho problema de surdez, com apenas 20% de audição em um dos ouvidos e, no outro, nada. Preciso usar aparelho. Perfurei o tímpano num tombo com o cavalo, aos onze anos. Montei em pelo um animal para ajudar uns amigos a tocar gado. Estava chovendo e o cavalo escorregou, bati o ouvido num cupinzeiro.

Em 97, foi a última vez que visitei meu filho em Franco da Rocha, onde ele tem uma loja de materiais elétricos. Luís teve três filhos, mas um morreu com dois meses. Faz doze anos que não vejo Walkíria, mas ela está casada e com três filhos, em Sorocaba. Perdi o contato com Karina.

Me chamam de Condinho por causa do meu irmão gêmeo. Estávamos construindo uma casa, em São Paulo, e ele não gostava de pegar no pesado. Daí, um colega passou a chamá-lo de conde. Aqui, ele virou Condinho, era um eletricista e encanador muito conhecido, morreu num acidente na Polenghi, em 1992. Quando voltei, há dezesseis anos, alguns que me viam, diziam, O Condinho ressuscitou.

Gosto de TV, depois do almoço vejo o desenho do Pica-pau e notícias. Sou amigo de todo mundo aqui no Lar, onde tenho assistência médica e comida boa. A maior riqueza que ganhei na vida é a saúde que tenho. Se eu morasse com minha família não seria tão bem tratado.”

Condinho sempre tem nas mãos um cigarro, que costuma fumar até no filtro. Uma vez por mês é levado à casa de uma “namorada” pelo motorista do Lar. Toda semana, recebe a visita do irmão caçula. Graças a estas condições, conseguiu se afastar da bebida. Segundo ele, chegou a beber um litro de cachaça por dia.


Fotos:
1) Dona Elza, amiga do Lar São Vicente, e Condinho na missa de abertura da 1ª festa dos Três Santos, em junho de 2010.
2) Condinho e o Papai Noel no Natal do Lar São Vicente.



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